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Com mural gigante e NFTs, artista levanta R$ 1,7 mi a refugiados da Ucrânia

Mural com a foto de Valeriia durante exibição em Paris, na França - Reprodução/Instagram
Mural com a foto de Valeriia durante exibição em Paris, na França Imagem: Reprodução/Instagram

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa de Vancouver (Canadá)

10/05/2022 06h00

Entre projetos com presos de uma penitenciária de segurança máxima da Califórnia e com estrelas de cinema de Hollywood, o artista francês e ativista urbano JR parou tudo para montar uma instalação gigante na Ucrânia e levantar R$ 1,7 milhão em doações, apenas três semanas depois do início da invasão russa.

JR pegou uma fotografia tirada pelo artista ucraniano Artem Iurchenko e a imprimiu numa lona de 45 metros, estendida com ajuda de mais de 100 voluntários na praça principal de Lviv, a maior cidade do oeste do país.

Do céu, dava para ver a imagem que se formava: o sorriso de Valeriia, uma garota ucraniana de cinco anos.

"Queríamos mostrar aos aviões de Putin em quem eles estavam atirando", disse JR após sua apresentação no TED Talks, evento que aconteceu em abril em Vancouver.

A Ecoa, JR contou por que o projeto era algo tão pessoal. "Nunca uma guerra esteve tão perto de mim. Posso dirigir até lá da minha casa, de Paris", disse. "Você pega seu carro e no dia seguinte está lá. Leva umas 18 horas."

Depois de Lviv, a lona com a imagem alegre de Valeriia já passou pelas ruas de Paris, Dusseldorf e Berlim. No momento, está instalada num pavilhão da Bienal de Veneza.

Iurchenko havia tirado a foto de Valeriia quando ela atravessava a fronteira para a Polônia com sua mãe, poucos dias antes de conversar com JR. Ela está agora segura em Varsóvia (Polônia), enquanto seu pai e irmão seguem na Ucrânia.

Desde o começo da invasão russa, no final de fevereiro, mais de 5 milhões de pessoas já deixaram o país.

Uma foto da instalação virou capa da "Time". À revista, a mãe da menina contou que passou 18 horas de pé no trem para conseguir deixar o país. "Foi muito difícil sair da Ucrânia, muito. Não consigo achar palavras para expressar minha gratidão a todos que nos ajudaram", disse ela.

No Instagram, JR postou uma conversa que teve por vídeo com Valeriia. "Seu sorriso está brilhando pelo mundo inteiro", disse o artista à pequena.

Doações de R$ 1,7 milhão

JR vendeu duas NFTs do projeto — uma foto e um vídeo da imagem se desenrolando com ajuda de voluntários. Conseguiu levantar US$ 340 mil (R$ 1,7 milhão) com a venda, quantia que está sendo 100% revertida para uma rede de apoio nas fronteiras do país.

"Temos um time em Paris dedicado a encher caminhões que saem semanalmente em direção à Ucrânia, para atender às mulheres que estão tentando deixar o país", disse JR. "Toda semana, recebemos uma lista de coisas que eles precisam, como farinha, itens de higiene e para bebês." Até o final de abril, seis viagens já haviam sido realizadas.

O mural fará parte de uma série de refugiados pelo mundo. Neste mês de maio, JR visita Ruanda e depois Mauritânia.

"Queremos falar de diferentes crises que fazem os refugiados e as crianças fugirem, seja por causa de mudanças climáticas ou por causa de guerras. É algo em progresso, quero fotografar uma criança em cada lugar", disse.

Indicado ao Oscar pelo documentário "Visages, Villages" (2017), em parceria com Agnès Varda (1928-2019), o artista francês é conhecido entre as celebridades de Hollywood. Nos últimos anos, é o único fotógrafo permitido na festa exclusiva pós-Oscar de Madonna e Guy Oseary.

No presídio de segurança máxima

No TED Talks, JR falou sobre outro projeto, feito numa penitenciária de segurança máxima no sul da Califórnia. Ele fotografou 48 presos para criar um mural gigantesco colado no chão do pátio da prisão.

A colagem foi feita pelos próprios detentos e alguns guardas que toparam ajudar, criando uma dinâmica inédita nessa prisão que é considerada uma das cinco mais violentas do país.

obra - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Nesta obra, JR fotografou presos para criar um mural gigantesco colado no chão do pátio da prisão
Imagem: Reprodução/Instagram

JR também pediu para cada preso participante gravar um áudio com sua história de vida. Todas as histórias são reunidas no seu aplicativo, JR Murals.

"Pedi para eles contarem de onde vêm, o que os levou ao crime que os trouxe à prisão. Alguns falaram por 10 minutos, outros por 20, 30. Alguns choraram", contou JR na sua apresentação.

Ele disse que, após a experiência com o mural, 95% dos participantes conseguiram ser transferidos para penitenciárias de baixa segurança, muitos com ajuda de cartas de recomendação dos guardas.

"Um preso me contou que sua filha nunca o havia visitado em 14 anos e agora escutava sua história no app em seu quarto. E o visitava toda semana", disse. "Todos tinham histórias parecidas. E os guardas passaram a tratá-los de forma diferente, começaram a ouvi-los."

JR terminou sua apresentação falando sobre o propósito de sua arte. "A arte pode mudar coisas. Mas pode mudar o mundo? Mudar um homem? Antes de responder, pense: em algum ponto da sua vida, você mudou? Se sim, se você mudou, por que eles não podem também?"