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Prática cria 'monocultura' do conhecimento e marginaliza outros saberes

Prática do epistemicídio pode limitar o conhecimento aos saberes ocidentais  - Getty Images/EyeEm
Prática do epistemicídio pode limitar o conhecimento aos saberes ocidentais Imagem: Getty Images/EyeEm

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

03/05/2022 06h00

A ideia de "verdadeiro saber" nasceu na filosofia grega com o termo filosófico "episteme", que faz referência a um saber racional e científico - em oposição à mera opinião infundada. No entanto, essa limitação do que é o conhecimento pode colocar à margem os saberes de povos não ocidentais e não brancos, criando o que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos chamou de epistemicídio. O termo, cunhado pelo professor na década de 90, abria caminho para a ideia de descolonização do saber.

Mas o que é epistemicídio e como ele afeta ainda hoje povos originários e grupos minoritários? Para responder a essas e outras perguntas, Ecoa reuniu dados e conversou com um sociólogo e um antropólogo sobre o tema. Acompanhe a seguir.

O que é epistemicídio?

"O epistemicídio se refere à morte da construção do conhecimento. Isso acontece quando uma cultura se sobrepõe a outra, criando formas de dominação política e ideológica. Assim, se desqualifica o conhecimento do outro", explica Marcos Horácio Gomes Dias, sociólogo e doutor em história social pela PUC-SP.

Dias lembra que o processo inferioriza o conhecimento ao ponto de abalar a autoestima de seus originais detentores e até mudar a sua forma de pensar. "Os legítimos donos desse conhecimento se sentem inferiorizados até por pensar da maneira como pensam. Essa é uma colonização por todas as vias, fazendo com que o conhecimento produzido por aquela cultura seja entendido como algo menor", completa.

Messias Basques, doutor em Antropologia pela UFRJ, enxerga que o epistemicídio é um ataque aos princípios básicos dos sistemas de pensamento e aos conhecimentos de certas populações, que são vistas como primitivas, atrasadas, hereges e imorais.

"Diferentemente do genocídio, ele não viola ou atinge os corpos ou a integridade física das pessoas, mas a sua cultura e os seus modos de vida. Nesse sentido, o epistemicídio está muito ligado ao etnocídio, que ocorre quando a linguagem, a espiritualidade, os conhecimentos, em suma, os modos de vida de uma determinada população passam a ser alvo de políticas e medidas que visam o seu silenciamento e apagamento", explica Basques.

Qual a relação do epistemicídio com o colonialismo?

Dias lembra que o termo cunhado por Souza Santos veio acompanhado da globalização em massa. "Cria-se a ideia de que não existem mais fronteiras, pois a economia é livre e as pessoas por consequência também são. No entanto, a principal crítica do autor é que as pessoas não são realmente livres e encontram fronteiras nessa dita liberdade. Sobretudo os povos do sul do planeta e que não estão nos países centrais [como os da Europa e os EUA]", explica.

Assim, quem tem o poder político e econômico passa a ter o controle e ser o detentor do conhecimento, explica ele. "E a partir daí ocorre um epistemicídio das outras culturas."

Para Basques, a colonização anda de mãos dadas com a ideia de uma 'monocultura', que envolve desde a forma como da produção agrícola de fato até a fé e a produção do saber. O antropólogo ainda ressalta que esse processo tem marcas profundas na construção do nosso país e pode ser observado na forma como se deu (ou não se deu) a preservação da cultura e modos de vida dos povos originários.

"Por exemplo, quando o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) — órgão federal criado no início do século passado e que antecedeu a FUNAI — proibiu povos indígenas de utilizarem os seus próprios idiomas dentro de seus territórios ou quando obrigou-os a aprender técnicas que visavam a sua transformação em trabalhadores rurais", lembra.

Já André Baniwa, escritor, empreendedor social e vice-presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), do Amazonas, enxerga que houve uma estratégia de colonização que usou o Estado, as igrejas e o capitalismo para promover esse epistemicídio com os saberes e tradições dos povos indígenas e negros no Brasil.

"A igreja já chamou os povos indígenas de 'sem alma'. Portanto, poderia matar e escravizar. Já o Estado alegava que as terras ocupadas por nós [povos indígenas] não nos pertenciam realmente, e o capitalismo criava a visão de que essas terras eram locais sem produção porque nós éramos preguiçosos. Portanto, era justo tomá-las de nós", exemplifica.

"Todos esses argumentos foram usados para justificar matanças e guerras contra os nossos conhecimentos milenares. Então, esse epistemicídio é verdadeiro e ainda acontece atualmente. Nossos direitos foram conquistados há menos de 40 anos, e temos ataques recorrentes a eles", completa Baniwa.

Como combater o epistemicídio?

De acordo com Dias, uma forma de combater o epistemicídio é enxergar o mundo e seus saberes sob outra perspectiva, tendo em mente que os povos e grupos que não estão em local de dominância também devem ter seus conhecimentos respeitados.

"Iniciativas como o Fórum Social Mundial e a construção de universidades por etnias e classes populares se mostra como uma saída para a produção e valorização dessas outras formas de conhecimento", aponta o sociólogo.

Já Baniwa enxerga que é preciso dar mais espaço aos povos indígenas para que falem de sua cultura e modo de vida. "É preciso dar esse local, para que possamos falar, ocupar espaços e sermos respeitados como realmente devemos ser."

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