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'Army do bem': Fãs de BTS levam milhares para site do TSE por voto

O grupo BTS - Divulgação/GQ
O grupo BTS Imagem: Divulgação/GQ

Maiara Marinho

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

27/04/2022 06h00

"Eu já tinha pedido para ela tirar o título, mas ela não quis e eu falo só uma vez", comentou a avó de Quézia Bianca, dando de ombros, mas surpresa por sua neta ter decidido finalmente tirar o título de eleitor para votar nas eleições deste ano. A motivação de Quézia, de 17 anos, surgiu de um post no Twitter feito pelo movimento brasileiro Army Help The Planet (AHTP) divulgando a campanha "Tira Título Army". Era por causa dessa campanha, que tem como objetivo incentivar jovens a fazer o alistamento eleitoral e votar, que as duas estavam na Praça Roosevelt, em São Paulo, naquela noite de 22 de abril.

Localizada no centro da capital paulista, a praça é um lugar conhecido pelas atividades culturais ali realizadas. Geralmente movimentada, naquela sexta-feira estava isolada e poucas pessoas passavam pela rua. O feriado de carnaval deslocou boa parte dos habitantes da cidade para a praia. Nesse cenário, projeções feitas em um prédio de dez andares com frases como "Speak Yourself", "Today We Vote" e "O voto é seu, mas o futuro é nosso" eram o cenário para algumas dezenas de jovens que conversavam ao som da banda sul-coreana de K-pop BTS.

O evento recebeu o nome de "Tira Título Party" e contou com distribuição de adesivos, pulseiras e cartões que imitam um título de eleitor para selfie nas redes sociais. "É muito importante para o momento político do país incentivar os jovens a participar dos processos eleitorais", comenta Mariana Faciroli, co-diretora do AHTP.

Não era a primeira vez que aquilo acontecia. A primeira campanha com projeções foi realizada em sete capitais, nas cinco regiões brasileiras, no dia 8 de abril, e até o ator Mark Ruffalo repostou uma das fotos em seu Twitter, destacando que "os fãs de K-pop são uma força poderosa".

K-pop e consciência política e ambiental

O fenômeno da cultura K-pop, ao longo dos anos, cada vez mais influencia e transforma a indústria cultural. Mais do que um gênero musical, é também um movimento estético e muitas vezes se engaja em causas políticas e ambientais. Em 2020, fãs de K-pop e jovens influenciadores no TikTok compraram ingressos para um comício de Donald Trump, mas não foram ao evento, transformando-o em um fracasso. Segundo matéria do The New York Times, de 19 mil assentos, apenas 6 mil foram ocupados.

Com os fãs do BTS não é diferente. O grupo, como demonstra o próprio Army Help The Planet, influencia o surgimento de jovens ativistas. Essa relação não é ocasional: o BTS já protagonizou momentos políticos importantes. Além de já terem denunciado em suas músicas o racismo ocidental, o grupo doou, em 2020, US$ 1 milhão para o movimento "Black Lives Matter". Em 2017 e 2018, participou de uma campanha com a Unicef chamada "Love Yourself" para combater a violência e estimular a autoestima de crianças e adolescentes, gerando mais de 50 milhões de engajamentos nas redes sociais. Por ações como essas, foram convidados a discursar na 76ª Assembleia Geral da ONU, em 2021, incentivando jovens a usarem suas vozes e falarem por si mesmos.

No livro "BTS e a cultura Army", a pesquisadora cultural Lee Jee-heng busca compreender o perfil e o alcance que os sete integrantes da banda têm. Segundo suas pesquisas, ela acredita que cerca de dez milhões de pessoas fazem parte do fandom internacional do grupo, composto em sua maioria por pessoas LGBTs, não-brancas, e com uma diversidade de faixa etária e profissão. É essa a força que tem impulsionado o movimento no Brasil.

O nascimento do Army Help The Planet

"Army" foi o nome escolhido pela banda em 2013 para o seu fã-clube. Além de significar "exército" em inglês, também é sigla para "Adorable representative M.C of youth", ou "Adorável representante M.C da juventude", em tradução livre.

Já o movimento Army Help The Planet foi criado pelos fãs brasileiros do BTS em agosto de 2019, durante as queimadas que aconteceram na Amazônia. "Foi uma situação calamitosa, e de uma forma muito espontânea, dentro do fandom do BTS, a gente levantou uma tag no twitter que chamava #ArmyHelpThePlanet com o objetivo de trazer visibilidade internacional para o que estava acontecendo aqui no país", conta Mariana.

A tag fez sucesso na rede e foi compartilhada pelo ator Leonardo DiCaprio, o que lhe deu um alcance internacional ainda maior. Segundo a diretora, "a partir da percepção desse poder de mobilização que o fandom tem, vários fãs resolveram que não queriam que esse impacto fosse algo passageiro, mas que conseguisse tornar isso algo perene".

Foi assim que surgiu a organização Army Help The Planet. Uma das idealizadoras da iniciativa, Mariana é advogada e mestre em Direito e Desenvolvimento pela USP. Ela conta que o AHTP conta com mais de 50 voluntárias de diferentes áreas, incluindo designers, social media e engenheiras ambientais, com idades entre 17 e 45 anos, espalhadas pelo Brasil.

Com a organização formada, o grupo começou a mobilizar diversas campanhas e a levantar fundos para ajudar causas sociais e ambientais. Em 2021, com a tag #ArmyHelpThePantanal, o AHTP arrecadou mais de R$50 mil em doações. A campanha foi premiada pela plataforma de crowdfunding Benfeitoria, com o 1º Prêmio do Financiamento Coletivo na categoria ambiental. No mesmo ano, eles arrecadaram R$ 60 mil na campanha "Army Contra a Fome", realizada em parceria com a Fiocruz para distribuição de cestas básicas para pessoas em situação de rua. Mutirões para plantar árvores e fazer coleta de resíduos sólidos em locais públicos também estão na lista.

Incentivo ao voto

Quézia e a amiga Ana Júlia, de 16 anos, afirmam que o fato de a campanha #TiraTítuloArmy ter sido feita por um fandom do BTS é o que realmente as inspirou a querer votar pela primeira vez. Mas isso não quer dizer que elas não se interessem por causas sociais e ambientais. A Ecoa, as duas contaram que suas principais bandeiras são a luta antirracista, as causas LGBTQIA+, o combate à desigualdade social e a preservação do meio ambiente. "Eu creio que ninguém está muito satisfeito com o governo atual", comenta Quézia. Fazendo coro ao lema do "Speak Yourself" do BTS, Ana Júlia enfatiza: "a nossa voz é muito poderosa, a gente precisa aprender a usá-la".

A campanha pelo título começou no ano passado. "Em setembro de 2021, nós trouxemos questões práticas para tirar o título de eleitor, mas também alguns conteúdos informativos de pontos importantes sobre golpe, democracia representativa e a função dos poderes", conta Mariana. "Para 2022, estamos intensificando as nossas ações em duas etapas: esta primeira, que vai até dia 4 de maio para incentivo do alistamento eleitoral, e uma segunda, depois disso, focada em conteúdos de conscientização com mais explicações a respeito dos poderes, suas funções e tudo mais".

Como parte da campanha #TiraOTítuloArmy, grupo realizou projeções em diferentes lugares do Brasil, incluindo Brasília, no DF - Divulgação - Divulgação
Como parte da campanha #TiraOTítuloArmy, grupo realizou projeções em diferentes lugares do Brasil, incluindo Brasília, no DF
Imagem: Divulgação

As projeções realizadas nos eventos foram feitas com o Projetemos, que faz projeções no Brasil e no exterior a fim de espalhar mensagens e denúncias sobre o atual contexto da situação econômica, política e social do país. "O Projetemos surgiu como uma rede, com um viés antifascista. A gente se encontrou durante a pandemia e um dos nossos principais focos é combater as fake news. É um trabalho contínuo", comenta Felipe Spencer, um dos criadores do grupo.

Apesar de não ter um levantamento mais preciso de quantas pessoas já fizeram o título desde o início da campanha, Mariana conta que, no tutorial do site do AHTP, o link para a área online do TSE (o Título Net) já alcançou mais de cinco mil cliques. Para ela, esse é um movimento importante para a democracia e a representatividade. Mas ainda é preciso fazer mais.

"A gente ficou sabendo que várias comunidades indígenas não estão conseguindo tirar o título de eleitor porque hoje em dia você só consegue o documento através do Título Net, que exige o comprovante de residência e eles não têm comprovante como o restante da população. Então a gente precisa ajudar para que mais pessoas tenham a participação delas garantida nos processos eleitorais", comentou.