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Com hip hop, projeto dá nova identidade e perspectiva de futuro a egressos

Fernanda Bassani com participantes do projeto MC"s para a Paz durante apresentação cultural - Arquivo Pessoal
Fernanda Bassani com participantes do projeto MC's para a Paz durante apresentação cultural Imagem: Arquivo Pessoal

Danilo Casaletti

Da República.org

13/10/2021 06h00

A psicóloga gaúcha Fernanda Bassani se lembra bem da felicidade que sentiu quando, ao buscar um estágio durante a faculdade, em 2001, conseguiu uma vaga em uma ONG que atendia mulheres vítimas de violência. Mas a satisfação de ter encontrado um trabalho, ainda por cima relevante socialmente, durou pouco. Quando o estágio estava para começar, a organização fechou.

Mãe solo, com um filho de 2 anos, ela procurou outra vaga na secretaria de seu curso. Ali, descobriu que havia uma única que não havia ainda sido preenchida. Era para estagiar em uma unidade prisional para mulheres, o antigo CAF (Casa Albergue Feminino) de Porto Alegre (RS), com 60 internas em regime semiaberto. Foi selecionada. Pudera. Era a única candidata. "Eu gosto de contar essa história. Quando você acha que é o fim de tudo, na verdade, é o começo", afirma Bassani, hoje com 43 anos.

Logo, ela percebeu que a maior preocupação de quem chegava ao local era com os filhos. Uma de suas funções, que extrapolavam as atribuições de um psicólogo, era tentar encaminhar as crianças que ficaram sozinhas do lado de fora e, com isso, diminuir angústia de uma mãe. Um trabalho de escuta e acolhimento.

Ela conta que esse primeiro contato com o sistema prisional a transformou - mesmo que já tivesse uma visão mais voltada para o ser humano. "As universidades não enfocam o sistema carcerário. Então, não passa pela sua cabeça que você pode trabalhar em um presídio", diz Bassani. Atualmente, ela é mestre e doutora em psicologia social, especializada em segurança cidadã e, desde 2015, funcionária da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. É autora do livro "Visita íntima: sexo, crime e negócios nas prisões" (Editora Bestiário), fruto da pesquisa de mestrado.

Para explicar o sentimento dessa primeira experiência, ela toma emprestado um pensamento do líder sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), que ficou preso por quase 30 anos em seu país. "Todo ser humano deveria frequentar um presídio por pelo menos 15 dias. O nosso nível de civilidade, de democracia, está diretamente relacionado com a forma com a qual tratamos nossas prisões. Tem-se a ideia de que o cárcere está fora da sociedade", afirma. "Porém, gosto de lembrar também Michel Foucault (filósofo francês), que dizia que em sociedade não existe o 'fora'. Esse processo de apagamento do sujeito que a sociedade pratica é péssima."

Fernanda Bassani, criadora do projeto MC's para a Paz - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Fernanda Bassani, criadora do projeto MC's para a Paz
Imagem: Arquivo Pessoal

Entusiasmada com o estágio na CAF, Fernanda prestou concurso para a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) do Rio Grande do Sul. Aprovada, sua primeira colocação foi trabalhar na Penitenciária Estadual de Jacuí, a maior do Estado, que fica em Charqueadas, a uma hora da capital Porto Alegre.

Alguns fatores chamaram a atenção de Fernanda na instituição administrada pela Brigada Militar (a PM gaúcha), com 2.500 homens que cumpriam pena em regime fechado. O primeiro era o fato de que os internos eram em sua maioria jovens, entre 18 e 24 anos, e integrados a uma das duas facções rivais que dominavam o presídio. Estavam ali principalmente por crimes praticados por conta da dependência química de drogas. Em terceiro lugar, vinham majoritariamente da periferia. E, por fim, a questão racial. Dados atuais mostram que a população negra corresponde a apenas 18% no Rio Grande do Sul. Mas entre a população carcerária esse percentual é de 38%.

Bassani percebeu que muitos desses jovens não participavam dos programas educacionais oferecidos pela unidade, como aulas e cursos profissionalizantes. Um dos problemas, segundo ela, se devia ao fato de estarem ligados a uma das facções - quem faz parte delas dificilmente adere a algum programa educacional oferecido pelo Estado, pois pode ser visto como um "leva e traz" pelos companheiros, já que estará em contato direto com os agentes educacionais.

A ideia, então, foi criar algo que de fato pudesse atrair esses jovens. Foi aí que, em 2007, nasceu o projeto Multiplicadores de Cidadania Para a Paz, ou o MC's para a Paz, totalmente inspirado na cultura hip hop.

O gênero musical era apenas um pretexto para atraí-los. A ideia era que essa população pudesse participar de psicoterapia em grupo e receber aulas de educação cidadã. O conteúdo incluía temas como consciência racial, paternidade responsável, prevenção do uso de drogas, cultura periférica, violência e redes de apoio, inclusão social, entre outros assuntos que deveriam ser abordados nas músicas produzidas pelos assistidos.

O primeiro passo, depois da autorização do estado para que o programa fosse implementado, foi conversar com os "plantões da galeria" - internos que exercem o papel de representantes de cada ala da penitenciária - para que identificassem e sugerissem nomes de colegas com talento para escrever música, cantar, pintar ou dançar. Dessa forma, todos se sentiam pertencentes ao projeto.

A psicóloga relata o resultado do programa MC's para a Paz: "Eles entram no programa como bandidos — essa é a identidade que a sociedade dá para eles. Porém nós mostramos que eles são o melhor MC, o melhor cantor ou o melhor dançarino. Com isso, se distanciam da identidade de criminosos e se aproximam da qualidade de multiplicadores de cultura e da cidadania."

Em função do grupo, os assistidos voltam a estudar, a cuidar da saúde e, em um movimento importante, buscam e são aceitos por suas famílias, justamente por assumirem essa nova identidade na sociedade.

De 2007 a 2015, foram feitos grupos em outras três instituições de regime fechado e três em regime semiaberto - cujos internos podem fazer shows e palestras do lado de fora. Ao todo, Fernanda estima que 500 jovens foram beneficiados pelo projeto MC 's para a Paz. Dois CDs foram gravados com os participantes.

Rodrigo Sabiah - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rodrigo Sabiah transformou sua vida após participar do projeto MC's para a Paz
Imagem: Arquivo pessoal

Um dos beneficiados foi Rodrigo Sabiah, hoje com 38 anos. Quando conheceu o programa, em 2008, cumpria pena no regime fechado. Antes do projeto, já escrevia letras e participava de grupos de MCs. "O projeto me capacitou e ajudou na minha formação. Ele me abriu os olhos para questões importantes da sociedade, mudou o modo de olhar a vida. Aprendi sobre políticas públicas, questões raciais. Foi impactante", afirma Sabiah, hoje educador social.

Sabiah se tornou um multiplicador de tudo que aprendeu no MC's para a Paz. Hoje, além de trabalhar como assessor parlamentar, coordena a instituição Reciclando Vidas, que busca melhorar a vida de comunidades em situação de vulnerabilidade e prestar apoio a pessoas egressas do sistema penal. Além disso, dá palestra por todo o Brasil.

Ele conseguiu levar o irmão, que também estava em privação de liberdade, para o MC's para a Paz. Eles se reencontraram por conta do projeto. "Promoveu a mudança do meu irmão, que, a princípio, estava mais resistente. Ele achava que o crime seria a saída para as dificuldades financeiras", diz. Quando cumpriram suas penas, ambos foram trabalhar com reciclagem. Em pouco tempo, abriram um galpão próprio e passaram a acolher outros egressos que precisavam de trabalho.

Sabiah prepara agora um livro em que vai misturar sua história de vida com suas poesias —algumas ele mostra em seu canal no YouTube. Planeja ainda lançar o documentário "Apenas um Menino" em março de 2022. Nele, quer mostrar o quanto é importante dar oportunidades para a população carcerária e egressos do sistema.

Com a transferência de Bassani para a Polícia Civil em 2015, o MC's para a Paz foi encerrado pouco depois, mas inspirou o projeto Sagaz, da ONG Cidade Segura, que será implantado em municípios do Rio Grande do Sul. O Sagaz será voltado para jovens que cumprem medidas socioeducativas e prisionais. A primeira cidade a recebê-lo será Lajeado, a cerca de 110 km de Porto Alegre, no ano que vem.

Essa nova versão também vai fazer uma avaliação de impacto mais detalhada, com controle de dados desde a triagem dos participantes. Bassani vai atuar como consultora e contribuirá para a formação dos facilitadores.

Para ela, a sociedade como um todo deveria contribuir para que o sistema prisional fosse, de fato, capaz de recuperar quem passa por ele. "Quando mais unirmos o universo carcerário com a sociedade, melhor. Que os presos, por exemplo, façam hortas comunitárias e distribuam os alimentos para a população, mas em um processo totalmente consciente, de que ele é importante e parte daquilo."

A psicóloga também sugere que as universidades levem turmas de estudantes para rodas de conversas dentro dos presídios conduzidas por técnicos. "Dessa forma, a relação fica humanizada. São esses alunos que comandarão o futuro", afirma Bassani, que por conta do projeto MC's para a Paz foi uma das vencedoras no ano passado do Prêmio Espírito Público, concedido pela Parceria Vamos, que reconhece os servidores públicos que se dedicam a transformar a sociedade brasileira.

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a Republica.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.

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