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App reduz sintomas de depressão leve em pacientes com doenças crônicas

Aplicativo desenvolvido por pesquisadores da USP em parceria com instituições internacionais foi capaz de ajudar a reduzir pela metade os sintomas de depressão leve em pessoas com hipertensão e diabetes - iStock
Aplicativo desenvolvido por pesquisadores da USP em parceria com instituições internacionais foi capaz de ajudar a reduzir pela metade os sintomas de depressão leve em pessoas com hipertensão e diabetes Imagem: iStock

Lígia Nogueira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

23/06/2021 06h00

Um aplicativo desenvolvido por pesquisadores da USP em parceria com instituições internacionais foi capaz de ajudar a reduzir pela metade os sintomas de depressão leve em pessoas com hipertensão e diabetes. É o que aponta um estudo inédito realizado durante seis semanas com pacientes em Lima (Peru) e São Paulo cujos resultados foram publicados em maio na revista científica "Jama".

O app Conemo —sigla para Controle Emocional— foi desenvolvido por pesquisadores da USP, do King's College, de Londres, da Universidad Cayetano Heredia, no Peru, e da Northwestern University, nos Estados Unidos, com financiamento do National Institute of Mental Health (NIMH). O estudo foi realizado por meio de uma parceria entre os cientistas e os serviços de saúde onde as pessoas com diabetes e hipertensão recebem acompanhamento nas duas cidades.

Foram incluídos na pesquisa 880 participantes em 20 unidades de saúde da família (UBSs) da zona leste de São Paulo (em parceria com a Irmandade Santa Marcelina) e 420 participantes em Lima, de serviços da seguridade social para pessoas com diabetes e hipertensão. Em Lima os participantes foram sorteados —metade para receber smartphone com o aplicativo, metade para ser do grupo controle. Em São Paulo foram sorteadas as 20 UBSs, metade para oferecer os smartphones com o aplicativo e a outra para ser controle.

Os participantes receberam explicações sobre os sintomas da doença e como podem ser afetados. As sessões foram planejadas para serem feitas de forma progressiva, começando pelas atividades mais simples, como fazer uma refeição, até as mais complexas, como organizar as finanças, por exemplo. Além disso, eles poderiam realizar atividades de rotina listadas no app, como ouvir música, fazer uma caminhada ou ligar para um parente.

Se o paciente deixasse de interagir com o aplicativo ou perdesse sessões, um enfermeiro entrava em contato para auxiliá-lo a dar continuidade às atividades. Após três meses, os pesquisadores observaram uma maior proporção de pessoas com redução importante de sintomas no grupo que usou o aplicativo, em comparação ao grupo de controle.

Segundo Paulo Rossi Menezes, professor de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e responsável pelo projeto, a experiência de atuar em conjunto com outros especialistas possibilitou que cada grupo colaborasse com sua expertise e experiência. "Prof. Ricardo Araya, do KCL, especializado em estudos de intervenções em saúde mental em países de renda média e baixa; Prof. David Mohr, da Northwestern University, especializado em intervenções digitais em saúde mental; Prof. Jaime Miranda, da UCH, especializado em doenças crônicas; e eu em epidemiologia dos transtornos mentais e atenção primária", conta.

"As equipes interagiram intensamente para desenvolver o sistema Conemo, testar em estudo piloto, conduzir os ensaios clínicos em Lima e São Paulo, analisar e interpretar os resultados, resultando na publicação na revista 'Jama'", diz ele.

Sintomas ainda não recebem atenção adequada

A escolha do público-alvo levou em conta a constatação de que muitas pessoas que apresentam sintomas de depressão não recebem um cuidado adequado para esse tipo de sintoma.

Menezes explica que pessoas com doenças crônicas apresentam o dobro de chances de desenvolver sintomas de depressão, comparadas com a população geral. "Um dos principais motivos é a limitação, o estresse e a necessidade de tratamento crônico para essas condições. Além disso, elas estão em acompanhamento nos serviços de saúde, o que facilita a identificação e a oferta de cuidados para os sintomas de depressão também."

Tecnologia tem boa aceitação

Para ele, o que o estudo mostrou de mais surpreendente foi a alta aceitação do smartphone com o aplicativo por aqueles que foram sorteados para receber. "Eles ficavam com o smartphone oferecido pela equipe de saúde, por seis semanas, e depois tinham um último encontro com o(a) profissional de saúde para devolver o aparelho. A satisfação deles em geral foi muito boa e a adesão também", diz o pesquisador.

Vale lembrar que o aplicativo facilita o acesso a um tratamento de baixa intensidade, mas não funciona como uma solução única para todos os casos. Pessoas que apresentam sintomas mais severos de depressão devem continuar o tratamento com acompanhamento especializado e o uso de medicamentos.