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Toneladas de plástico deixam de ir para o lixo com sumiço de canudinhos

Getty Images
Imagem: Getty Images

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

08/04/2021 06h00

Você mal percebeu e os canudinhos de plástico sumiram do seu delivery, do fast food e até de prateleiras. Nos últimos dois anos, marcas que entregavam toneladas de canudos por mês optaram por versões em papel ou biodegradáveis. Foi uma forma de criar produtos mais sustentáveis e também se adiantar às leis que proibiram e elegeram o canudinho como grande vilão da natureza.

Agora é a vez da Nestlé tirar 300 milhões de canudinhos de circulação ao mudar as embalagens descartáveis da versão pronta de Nescau vendidas no mercado brasileiro. Segundo a empresa suíça, são 128 toneladas por ano. Ou seja, o equivalente a 43 aviões E190 da Embraer lotados de canudinhos.

Mesmo minúsculo, o canudinho deu dor de cabeça para a multinacional instalada em 190 países. A rejeição de ambientalistas tornou-se mundial e houve uma corrida para evitar a má reputação. Pesquisas estimam que a versão plástica demora até 200 anos para se decompor. Ainda é incerto quanto tempo o modelo em papel demora para se decompor.

"O canudo é um ícone de uma conversa maior", explica Fabiana Fairbanks, vice-presidente de bebidas da Nestlé Brasil.

Em 2019, a Nestlé no Brasil incentivou clientes a empurrar o canudo para dentro da embalagem no descarte. A ideia era não perder o componente menor por aí e facilitar a reciclagem. À época, ela ainda estudava a produção mais responsável com o meio ambiente, mas o fim do modelo antigo só se concretizou no fim de 2020.

Um centro de pesquisa da empresa na Suíça desenvolveu um modelo de papel que, segundo a Nestlé, se desgasta mais fácil no meio ambiente. Porém não há dados e ainda se desconhece quanto tempo o canudo de papel dura na natureza.

Em nota, a Nestlé afirma que conduz estudos para determinar o tempo exato do canudo de papel na natureza, mas diz que o item se fragmenta rapidamente no contato com a água e é produzido a partir de florestas certificadas.

Oceano de plástico: impactos do meio ambiente

A ONU afirma que mais de 12 milhões de toneladas de plástico formam os "oceanos de plástico". O material prejudica a vida marinha devido aos "microplásticos", pedacinhos de plástico que são engolidos pelos animais.

A ONU estima que 100 mil animais do mar morrem anualmente devido ao material e que cerca de 99% dos pássaros vão ingerir microplástico até 2050. No meio dos números, algumas vítimas ganharam os holofotes. Em 2015, tartarugas foram resgatadas na Costa Rica com canudos nas narinas. As imagens foram vistas quase 80 milhões de vezes. (A Nestlé doou para o Projeto Tamar. Os valores não foram informados).

Aos poucos, cidades pelo mundo atendiam às demandas ambientais para proibi-lo em restaurantes ou limitá-los a pessoas com deficiência.

A cidade de Seattle, nos Estados Unidos, baniu o canudo em 2018 pela primeira vez nos EUA. Em 2019, o estado de São Paulo fez o mesmo.

Cerca de 50% de todo o plástico consumido no mundo é descartável, diz a ONU. A estimativa de quantos canudos poluem os mares é incerta. Em 2017, um estudo americano conclui que 8 bilhões de canudinhos estão nos oceanos.

Empresas se mobilizam para diminuir item

Grandes produtores de alimentos ultraprocessados costumavam vender toneladas de canudos, mas precisaram se adequar às novas regras ao impacto ambiental e ao público.

No Brasil, o Burger King afirma ter retirado canudinhos de plástico em 2018 e os substituído por modelos de papel, que levam entre 2 a 6 semanas para se decompor.

A rede afirma ter retirado 31 milhões de canudos plásticos ao ano nas unidades do Burger King e do Popeyes, ou cerca de 105 toneladas só em canudinhos. No Pará e no Distrito Federal, afirma ter banido garfos plásticos para uma opção de plástico biodegradável que, segundo a rede, se decompõe entre 3 a 5 anos.

"Passamos a produzir os nossos próprios canudos de papel para milk-shakes", conta Fábio Alves, vice-presidente jurídico e de compliance da BK Brasil. No mundo, a empresa se compromete a acabar com o plástico em brinquedos vendidos com sanduíches até 2025.

A Nestlé, que tem outros produtos em plástico, afirma que também retirou 278 toneladas do plástico usado para embalar o Nescau pronto.

Já a Arco Dorados, empresa à frente do McDonald's no Brasil, não quis se pronunciar. A rede McDonald's deixou de oferecer canudos de plástico e mudou embalagens para economizar 200 toneladas de plástico no Brasil desde o início de um projeto de sustentabilidade em 2018, de acordo com release. No Reino Unido em 2019, a empresa teve problemas com o canudo em papel após rejeição dos clientes, mas especialistas alertaram que o novo modelo não era mais reciclável.

A Abiplast, Associação Brasileira da Indústria de Plástico, afirma que apenas 0,3% da produção de plástico brasileiro é canudo. O presidente da associação já chegou a afirmar que ativistas ambientais colocariam canudos na boca de baleias.

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