PUBLICIDADE
Topo
Meio ambiente

Meio ambiente

Pauta climática vira plataforma para disputa da presidência dos EUA

Joe Biden e Kamala Harris fazem primeira aparição juntos após nomeação de Kamala como vice de Biden - Olivier DOULIERY / AFP
Joe Biden e Kamala Harris fazem primeira aparição juntos após nomeação de Kamala como vice de Biden Imagem: Olivier DOULIERY / AFP

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

15/08/2020 04h00

"Quando Trump pensa sobre mudanças climáticas, a única palavra que ele consegue dizer é 'farsa'. Quando penso sobre mudanças climáticas, a palavra que me vem à mente é 'empregos'. Empregos com bons salários para trabalhadores".

A fala é de Joe Biden. O candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos quer matar dois coelhos com uma cajadada só: ao anunciar a defesa ao meio ambiente como uma de suas prioridades, o democrata responde à pressão mundial de ativistas e tranquiliza boa parte dos americanos, que estão preocupados com a recessão econômica causada pela pandemia de Covid-19.

"Durante o governo Trump, acompanhamos a ascensão de um movimento internacional sobre mudança climática, principalmente entre os mais jovens. E o Partido Democrata vem se revitalizando justamente por um ativismo de rua e pelo ingresso de uma nova geração, cujo maior símbolo é a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Agora, obviamente, o Biden não é parte dessa renovação. Ele é um político tradicional", comenta Mauricio Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A escolha da senadora Kamala Harris para ser vice de Biden, segundo Santoro, acontece muito pela necessidade do partido em construir pontes com movimentos sociais que se fortaleceram nos últimos anos. "Ela é uma mulher, filha de duas minorias étnicas, pai jamaicano e mãe indiana, e sua trajetória e posicionamento dialogam bem no atual cenário".

A senadora democrata Kamala Harris, companheira de chapa de Joe Biden - Yuri Gripas/Reuters - Yuri Gripas/Reuters
A senadora democrata Kamala Harris, companheira de chapa de Joe Biden
Imagem: Yuri Gripas/Reuters

Apesar de ter uma conexão maior com movimentos sociais e ser filha de ativista de direitos civis, Harris tem um histórico bastante ambíguo em termos políticos. Enquanto no senado foi progressista, já como procuradora foi bastante rígida em questões de segurança pública. Essas características, mais uma vez, beneficiam Biden na corrida presidencial.

"Ao mesmo tempo em que Harris é uma maneira de Biden se relacionar com o movimento Black Lives Matter, por exemplo, ele também se mostra preocupado com um público mais centrista, um eleitor que tem uma radicalização política. É como se ele dissesse: 'Kamala é ligada a movimentos, mas é uma procuradora linha dura, tem um histórico firme com relação a segurança". E o que ele diz com isso? Que ela não vai pleitear um desinvestimento da polícia, por exemplo".

Já Trump, nessa disputa, vai fazer o que já tem feito na presidência. "Se mostrando como defensor da lei e da ordem, dizendo que os democratas defendem o caos e representam uma ameaça ao estilo de vida da classe média americana".

Plano ambicioso

Em seu plano de combate às mudanças climáticas, Biden prevê o investimento de US$ 2 trilhões (R$ 10,8 trilhões) em infraestrutura de energia limpa nos setores de transporte, energia e construção civil ao longo de quatro anos.

"É um grande desafio. Porque o próprio cotidiano dos americanos no contraste com os europeus é muito mais voltado para a economia do carbono. Os americanos, em geral, usam muito o automóvel, e não o transporte público, por exemplo. É um ritmo diferente da Europa em questões envolvendo meio ambiente, por fatores culturais mesmo. Mas acredito que é uma tendência a ser seguida. Eles já têm, por exemplo, carros elétricos. Ainda são muito caros? Sim, mas já conquistaram também uma classe média alta que está olhando pra esse futuro".

A ideia de Biden é que o país produza 100% de eletricidade limpa até 2035, adiantando a meta original em 15 anos.

Impacto no Brasil de Bolsonaro

Vice de Biden, Kamala Harris coleciona críticas ao governo Bolsonaro muito antes de ser companheira de chapa do democrata. Em 2019, a senadora criticou publicamente a postura do presidente brasileiro com relação ao desmatamento na Amazônia.

"O presidente Bolsonaro do Brasil deve responder por esta devastação. A Amazônia gera mais de 20% do oxigênio do mundo e é o lar de um milhão de indígenas. Qualquer destruição afeta a todos nós", escreveu Harris em suas redes sociais. Já em setembro passado, chegou a cobrar a suspensão de negociações comerciais com o Brasil até que a Amazônia fosse, de fato, protegida.

"Enquanto a Amazônia queima, o presidente do Brasil, como Trump, que permitiu que madeireiros e mineradores destruíssem a terra, não está agindo. Trump não deve buscar um acordo comercial com o Brasil até que Bolsonaro reverta sua política catastrófica e resolva os incêndios. Precisamos de liderança americana para salvar nosso planeta".

Para Santoro, a questão ambiental se tornou um ponto frágil da política externa de Bolsonaro e pode se agravar ainda mais com um vitória de Biden. Nos últimos meses, o Brasil vem sofrendo um forte impacto econômico. As críticas, que antes se limitavam apenas às notas de repúdio ou cartas de parlamentares estrangeiros, agora se tornaram um empecilho para a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia e ao ingresso na OCDE, além de ter virado motivo de boicote por parte de empresas e instituições financeiras a produtos brasileiros.

Donald Trump e Jair Bolsonaro durante encontro bilateral no G20, em Osaka, Japão, em 2019 - Kevin Lamarque/Reuters - Kevin Lamarque/Reuters
Donald Trump e Jair Bolsonaro durante encontro bilateral no G20, em Osaka, Japão, em 2019
Imagem: Kevin Lamarque/Reuters

"Por enquanto, essa pressão têm ocorrido na Europa, com declarações no Reino Unido, com a maior rede de supermercados anunciando que não compra mais carne no Brasil, ou do HSBC, principal banco britânico, aconselhando seus clientes a não investirem na JBS. Tudo isso por conta do desmatamento na Amazônia. Agora, com uma vitória do Biden e Harris nos Estados Unidos, teríamos o próprio governo americano se engajando da mesma maneira crítica com relação ao Brasil, o que é algo que ainda não acontece justamente porque as posições de Trump sobre meio ambiente, em particular sobre mudança climática, são muito parecidas com as do Bolsonaro, que tem o presidente americano como referência".

Na opinião do especialista, mesmo alvo de boicote e pressões, a questão ambiental tem forte potencial para voltar a crescer no país e se tornar ativa em termos políticos. "No cenário atual, com toda crise política e econômica que o Brasil viveu nesses últimos anos, o tema ambiental é ainda a grande cartada. É o ponto da agenda global em que o Brasil tem mais influência, tem mais voz, justamente por conta da Amazônia. É claro que com o governo Bolsonaro isso virou um problema, mas com uma mudança de política ambiental e diplomática, o meio ambiente pode voltar a ser o que ele já foi para o Brasil, um ativo diplomático importante e útil para o país".

Meio ambiente