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"Grupo de risco da Covid-19 são os marginalizados", diz comissária da ONU

4.set.2019 - A chilena Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, durante entrevista coletiva em Genebra - Fabrice Coffrini/AFP
4.set.2019 - A chilena Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, durante entrevista coletiva em Genebra Imagem: Fabrice Coffrini/AFP

De Ecoa, em São Paulo

06/05/2020 19h25

"As pessoas mais impactadas pela pandemia são as já impactadas por outros desafios da vida diária. O grupo de risco são os marginalizados de sempre, afinal, a marginalização é que cria vulnerabilidades", afirmou Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para direitos humanos, em seminário transmitido nesta quarta-feira por Ecoa e organizado pelo Pacto Global, da ONU.

Participaram ainda da transmissão o ministro da Justiça de Bangladesh, Anisul Huq, e o CEO da empresa brasileira Natura, Roberto Marques. Os três discutiram as lições que ficam do combate ao coronavírus em relação às populações vulneráveis e o que governos, empresas e órgãos multilaterais podem fazer em situações semelhantes.

Bachelet contou que freada econômica deixou 2,7 bilhões de trabalhadores sem empregos, o que representa 81% da força de trabalho do mundo. E a ex-presidente do Chile também apontou que as necessidades básicas para evitar o contágio são inacessíveis para grande parte da população mundial: 2,2 bilhões não têm acesso a água limpa, e 1,8 bilhão é considerado sem-teto.

"A covid-19 nos fez ver novamente o que já sabemos: as enormes desigualdades do mundo, mesmo em países poderosos. Mulheres, imigrantes, refugiados, LGBTs, indígenas, idosos, pessoas com deficiência e todo tipo de minoria são os mais afetados", analisou a alta comissária.

Huq relatou como o governo de Bangladesh está lidando com a pandemia. "Aqui três milhões de trabalhadores das confecções de roupa ficaram sem emprego, mas eles vão ter três meses de auxílio por parte do governo. As crianças de rua, mulheres abandonadas e lavradores também estão sendo ajudados. Além da minoria rohingya, que vivem em nossas fronteiras", contou o ministro, sobre o grupo de muçulmanos que fugiram de perseguição na vizinha Mianmar.

Já Marques lembrou que a empresa Natura priorizou a fabricação de sabão nesses tempos em que o item virou item essencial para o combate do vírus. "Direcionamos nossa produção, aumentamos em 30% e doamos milhões de unidades para autoridades de saúde e entidades", disse o executivo brasileiro.

Segundo Bachelet, a pandemia serviu como uma oportunidade para que os direitos humanos voltem a ganhar importância devida. "Quando vim para a ONU em 2018, fiquei surpresa com tanta contrariedade em relação ao assunto. Muitos líderes falavam: `Direitos humanos? Ok, mas só quando for possível'. Tanto é assim que já comentei que se tivéssemos de aprovar hoje em dia a Declaração Universal dos Direitos Humanos talvez não conseguíssemos. Mas agora estamos vendo o que é realmente importante, vendo que estamos todos conectados neste mundo e que ninguém vai se salvar sozinho", disse.

Ela enfatizou que só a ajuda e a solidariedade global e uma ação coordenadas dos países vão conseguir lidar com essa e outras pandemias. "Cada país querendo resolver só seu problema não vai funcionar. Esse é um momento importante para entender o multilateralismo e sua eficiência", afirmou Bachelet.

Marques falou do papel das parcerias entre empresas e governos. "Tem que haver uma abordagem mais coordenada, afinal, teremos que fazer a mesma estratégia na questão da mudança climática. As empresas têm que perceber que não podem só priorizar seus acionistas. Elas têm que pensar na sociedade, no meio ambiente e nos acionistas, afinal, sem sociedade e meio ambiente não vamos ter um mundo para fazer negócios", disse o executivo.

Ecoa