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Coronavírus: Atitudes para pensar no coletivo em tempos de pandemia

Coronavírus: Pessoas utilizando máscara na Rua 25 de Março em São Paulo  - Willian Moreira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Coronavírus: Pessoas utilizando máscara na Rua 25 de Março em São Paulo Imagem: Willian Moreira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Paula Rodrigues

de Ecoa, em São Paulo

17/03/2020 14h04

Passaram-se três semanas desde a quarta-feira de cinzas em que o país acordou com a confirmação da primeira contaminação por coronavírus no Brasil. Em 21 dias, vimos a contagem subir exponencialmente de um único caso para 234 confirmados e 2.064 suspeitos até a publicação desta reportagem.

A notícia de transmissão comunitária no país aumentou a preocupação especialmente entre a população da capital paulista, cidade que tem o maior número de doentes, com 152 pessoas infectadas e a primeira morte confirmada na manhã de hoje (17).

Se por um lado isso se traduziu em uma corrida imediata a supermercados e farmácias para estocar de álcool gel a papel higiênico, por outro ações mais coletivistas também começaram a surgir, tais como propostas para ajudar pessoas em situação de rua, bem como idosos ou quem tem a saúde debilitada, grupos de riscos da Covid-19. Perguntas também foram feitas: como as empregadas domésticas vão trabalhar? E os trabalhadores informais? E quem não tem água e sabão?

Pensando nisso, Ecoa elencou quatro atitudes que você pode tomar e têm impacto coletivo, bem como ações inspiradoras que têm sido tomadas pelo país. Entender quem são os mais vulneráveis, usar bem a tecnologia e conhecer os seus direitos é fundamental.

Ações coletivas corona - Marcelo Bittencourt/Futura Press/Estadão Conteúdo - Marcelo Bittencourt/Futura Press/Estadão Conteúdo
Imagem: Marcelo Bittencourt/Futura Press/Estadão Conteúdo

Se cuidar é cuidar dos mais vulneráveis

Apesar de ser uma questão essencialmente coletiva, tudo começa pelo individual. Ou seja, esse papo de "não sou do grupo de risco", ou mesmo tentativas de minimizar o problema, dizendo que esse é só mais um "resfriado fraco", não dão a dimensão da Covid-19.

"Realmente, isso pode não acontecer com você. Você pode não pegar, e se pegar, pode ser bem tranquilo. Mas isso pode chegar no seu pai, na sua mãe, no seu irmão, no seu vizinho. E o que é tranquilo para você, pode não ser para eles. De uma forma geral, todo problema de saúde pública é coletivo", diz Max Lopes, infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O médico diz que quanto mais a pandemia é pensada pela população a partir do próprio umbigo, pior a situação pode ficar. Não se sabe exatamente o que vai acontecer no futuro próximo, a única certeza é que quanto maior a circulação de pessoas, maior é o risco de transmissão da doença. "E dizer isso não é ser alarmista. É uma forma de mostrar que nós temos a oportunidade de conter o problema se tomarmos a devida precaução agora", diz.

Isso quer dizer que são essenciais ações combinadas entre Estado, empregadores e empregados para que as pessoas circulem menos pela cidade, bem como cuidados redobrados com higiene, por exemplo.

Além disso, tem algum sintoma? Ficar em casa, sem entrar em contato com mais pessoas, é uma boa. "Quanto menos saímos de casa, menos expostos nós estamos e menos pessoas colocamos em risco."

Práticas coletivas corona - Divulgação - Divulgação
Dispoível para Android e IOS, aplicativo do SUS indica qual posto de saúde ir caso alguém tenha sintomas de coronavírus
Imagem: Divulgação

Tenha a tecnologia como aliada

Outro ponto importante que diz respeito a responsabilidade que cada um tem com o outro é a ida a hospitais e postos de saúde. Apesar de ser uma situação que deve ser levada a sério, não existe necessidade de todos correrem para conseguir atendimento médico.

Se você não tem mais de 60 anos ou não possui outra doença que possa agravar o quadro, ir ao médico não é a única opção para saber se sofreu o contágio. O Ministério da Saúde lançou um aplicativo para celular chamado "Coronavírus - SUS", em que é possível responder um questionário simples sobre como está sua saúde e quais sintomas você tem no momento.

Ao fim das perguntas, aparecem recomendações sobre o que deve ser feito, junto a uma lista de postos ou hospitais, mapeados a partir da sua localização, onde você pode ir se estiver com suspeita de ter a doença. O intuito é evitar a superlotação e não sobrecarregar o Sistema Único de Saúde (SUS) com casos que não são graves. Até sexta-feira (13), 1,6 milhão de pessoas haviam baixado o app.

"Nós vemos muitas pessoas correndo para fazer o exame, ou até mesmo empresas pedindo para testar funcionários que nem sintomas têm. Isso causa uma pressão no sistema de saúde, fazendo com que quem realmente precise de ajuda não consiga o tratamento adequado", diz o infectologista Max Lopes.

Com o aplicativo, o órgão federal de saúde consegue passar informações sobre o coronavírus, instruir a população sobre as melhores formas de se prevenir e apontar o que deve ser feito caso os sintomas descritos pelo usuário batam com os da doença.

"A ideia do app é democratizar a informação. Acho que se todo mundo trabalhar de forma preocupada com o outro, as coisas tendem a melhorar", diz o infectologista.

Práticas Coletivas Corona - iStock - iStock
Caso haja algum tipo de violção, trabalhadoras domésticas podem procurar o sindicato para conseguir apoio jurídico
Imagem: iStock

Conheça os seus direitos

Quanto menos gente na rua, menos o vírus se espalha. Mas como faz para trabalhar? E como evitar aglomerações se é preciso pegar o ônibus diário para chegar ao trabalho? Quem paga as contas no final do mês, se nem todos podem trabalhar de casa? Até agora, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não tem nenhum ponto que fale sobre como agir em situações de pandemias como a que o mundo vive hoje.

O que existe é a Lei 13.979, aprovada pelo Congresso em fevereiro deste ano, que estipula que "será considerado falta justificada ao serviço público ou à atividade laboral privada o período de ausência decorrente das medidas previstas neste artigo". Traduzindo, caso o trabalhador falte por conta do contágio do coronavírus, a ausência é justificada e o patrão não pode descontar os dias do salário do empregado, nem pode haver demissão por isso. Para Aderson Bussinger, advogado trabalhista da Associação Fluminense de Advogados Trabalhistas (AFAT) e da OAB/RJ, isso no entanto "não quer dizer muita coisa".

"Essa medida diz respeito a funcionários já infectados. O que acontece é o seguinte: a pessoa que se contagiar tem que ter um atestado médico para conseguir uma licença", explica. Para ele, o empregado também pode recorrer caso o ambiente de trabalho seja inadequado e vá contra as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), como a necessidade de haver janelas abertas para circulação de ar e a higienização do local.

Se esse for o caso, é necessário que seja feita uma denúncia para que haja uma fiscalização e se comprove ou não que há condições de manter pessoas trabalhando no ambiente. "Além disso, a Organização Internacional do Trabalho [OIT] prevê que, em situações de perigo, você pode se recusar a trabalhar. Talvez esse possa ser um recurso aplicado em situação de pandemia para defender o trabalhador", diz o advogado.

Já no caso das trabalhadoras domésticas, a dificuldade está em como o trabalho se dá: em âmbito residencial, individual e com uma relação direta com o patrão.

A rigor, não se pode exigir que um empregador flexibilize a presença do funcionário, a não ser pelo consenso da classe ou se for uma exigência do Ministério do Trabalho. Mas não é uma obrigação legal, e sim moral, ética e profissional.

Márcia Soares, diretora executiva da Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos, organização de advogadas e cientistas sociais que lutam contra a discriminação de mulheres no ambiente de trabalho

Junto à Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), a Themis está pensando em como agir para orientar as empregadas domésticas a lidarem com a situação trabalhista em meio a pandemia.

As duas organizações estão em diálogo com o Ministério do Trabalho para pensar ações. "Nós conscientizamos as trabalhadoras, e o MPT deve recomendar aos empregadores que liberem, flexibilizem a presença, deem o EPI a elas", conta. O EPI é o Equipamento de Proteção Individual, como luvas e máscaras, por exemplo.

Caso ocorra algum tipo de violação ou a trabalhadora doméstica sinta-se pressionada a trabalhar em ambiente impróprio, ela pode procurar tanto a Themis quanto a Fenatrad, ou o sindicato regional para receber ajuda jurídica.

Práticas Coletivas Corona - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O carioca Rafael Soares e a filha Laura distribuíram 100 frascos de álcool gel para quem não conseguiu comprar
Imagem: Arquivo Pessoal

Tente ajudar quem mais precisa

"Bom dia, gostaria de me colocar à disposição aos mais idosos para ajudar. Posso ir à farmácia, ao mercado. Não cobro nada", foi a mensagem postada por Maria Rosário no grupo do bairro do Tremembé, na zona norte de São Paulo, no último domingo (15). "Eu senti a necessidade de ajudar, tem muito idoso aqui no bairro. Como é perigoso para eles saírem de casa agora, eu me ofereci. Um senhor de 71 anos me procurou já", relata.

Ações como a de Maria começaram a aparecer mais pela internet e em grupos de WhatsApp. Ontem (16), no Rio, o empresário Rafael Soares fez uma postagem dizendo que tinha comprado litros de álcool gel e iria distribuir para quem precisasse em Copacabana, onde mora. "Eu cheguei a ver um frasco de 400 ml por R$ 84. Isso é quase covardia em época de uma pandemia dessas", diz. Vale lembrar que o Procon está recebendo denúncias e fiscalizando lojas que vendem álcool gel com preço abusivo.

Outro motivo que levou à ação de Rafael foi a escassez do produto no comércio, e a preocupação com a quantidade de idosos de sua vizinhança. "Eu encontrei uma loja que vendia um galão de quatro litros. A princípio, queria ajudar as pessoas do meu prédio. Mas aí comprei quatro garrafas e pensei: vou distribuir para quem não conseguiu ou não tem condições de comprar", conta. A "confecção" em pequenos frascos foi realizada em parceria com a filha, Laura, de 9 anos. Os dois encheram 100 recipientes e distribuíram. A ideia é seguir a distribuição no bairro.

Ações como as de Maria e Rafael são endossadas e incentivadas por uma figura que há anos dedica a vida ao trabalho com pessoas que não têm um lar. "Cada um também pode individualmente, ou por meio de grupos organizados, entregar para um irmão de rua um tubinho de álcool gel, por exemplo, ou conversar com ele sobre o que está acontecendo no mundo", recomenda o padre Júlio Lancellotti.

Práticas Coletivas Coronavírus - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Padre Júlio Lancellotti disponibilizou um andar da Casa de Oração do Povo da Rua para atender pessoas com coronavírus
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Além de abrir a Casa de Oração do Povo da Rua, que administra no bairro paulistano da Luz, para que todos possam lavar as mãos e realizar a higienização, o padre está recebendo doações de sabão e álcool gel. Ele também disponibilizou um andar do prédio da Casa para a Secretaria de Saúde e a de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo.

"Ofereci caso haja necessidade de acolher pessoas que não têm onde ficar se contraírem o vírus. A Secretaria da Saúde já foi avaliar o espaço e está pensando em como organizar o que é necessário ter ali para atender essas pessoas", conta.

A capacidade máxima do local é de 50 pessoas, segundo o padre. As doações de produtos de higienização podem ser entregues na rua Djalma Dutra, 3, na Luz; na Catedral da Sé e na Paróquia São Miguel, na Mooca.

"Há muitas pessoas vulneráveis nas ruas, e isso é um problema de saúde pública que atinge a todos. Hoje mesmo falaram para mim: 'isso não é doença de pobre, em nós não vai pegar'. Eles estão tão sem proteção. A gente precisa buscar não só os próprios interesses e cuidados consigo mesmo, mas também com os irmãos em mais necessidade", diz.