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Gestão pública

Como São Paulo se prepara para o impacto do maior Carnaval da sua história

Carnaval em SP terá aproximadamente 15 milhões de foliões  - HENRIQUE BARRETO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Carnaval em SP terá aproximadamente 15 milhões de foliões Imagem: HENRIQUE BARRETO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Bianca Borges

Colaboração para Ecoa

22/02/2020 04h00

Se antes o Carnaval paulistano não era valorizado, agora a situação é diferente. A Prefeitura de São Paulo estima que cerca de 15 milhões de pessoas passem pela cidade nesse período. Desde 2015, a quantidade de desfiles na capital cresceu 91%. Neste ano, serão 678 blocos espalhados pelas ruas do município, número quase 40% maior do que o de 2019, segundo os organizadores.

Para lidar com o seu maior Carnaval e, consequentemente, com o impacto, especialmente o ambiental, que o evento pode provocar, São Paulo passou e passará por alguns ajustes nos próximos dias, numa ação coordenada que envolve as secretarias de Cultura, Turismo, Saúde, Segurança, Mobilidade, Comunicação, Direitos Humanos e Cidadania, além das subprefeituras da cidade.

Segundo a comunicação da Prefeitura, o plano contempla os oito dias de festa entre o pré-carnaval (15 e 16 de fevereiro), o durante (de 22 até 25 de fevereiro) e o pós (29 de fevereiro e 1 de março). Um dos destaques é o incentivo ao descarte correto dos materiais recicláveis durante os blocos — foram instalados 247 Pontos de Entrega Voluntária (PEV's) com frases educativas sobre o descarte correto, inspiradas em famosas marchinhas de carnaval. Em 2019, São Paulo coletou 916 toneladas de resíduos durante o Carnaval de Rua e Sambódromo do Anhembi.

O planejamento paulistano

Um novo olhar para a cidade

Na opinião de Rosana Helena Miranda, professora de planejamento de edificações da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), o esquema traçado para o Carnaval pelo poder municipal foi "inteligente".

"A festa também dá vazão para a alegria. São Paulo é uma cidade que vive do trabalho, o ano inteiro. Então esse momento de descontração é super importante, porque ajuda as pessoas a enxergar a cidade de outra forma", afirma Rosana, que atuou na área de arquitetura e urbanismo da gestão pública por 30 anos.

A explicação é a de que o esquema de infraestrutura montado para o período cumpre um papel essencial na relação da população com os serviços e a malha urbana, já que ao enxergar a cidade de outra forma, os moradores passam também a adotar novos hábitos no dia a dia.

Carnaval SP - Marcelo Justo/UOL - Marcelo Justo/UOL
Para especialista, o Carnaval pode criar novas relações entre a população e serviços ofertados pelo poder público
Imagem: Marcelo Justo/UOL

Por passarem a andar mais a pé pelas ruas, os foliões acabam ocupando a cidade, o que cria um laço mais humanizado entre o urbano e o cidadão, formando novas relações entre a população e outros setores e serviços ofertados pelo poder público.

Rosana afirma, porém, que a infraestrutura ainda precisa melhorar na questão da oferta, com mais postos médicos e banheiros químicos. Juntamente com o policiamento que, para ela, precisa ser mais amistoso entre blocos e a própria população. "Além da presença, tem de haver diálogo. A polícia tem de amenizar o clima de qualquer violência que possa existir," observa.

Outro ponto importante a ser desenvolvido, segundo a especialista, é a comunicação, especialmente para moradores das áreas onde ocorrem desfiles. Apesar de muita gente ter computador e celulares, restringir a informação de endereço ou trajeto dos bloquinhos pode não ser suficiente.

"Os idosos, por exemplo, não dominam essa tecnologia. Seria importante ter faixas ou estandartes, sem ferir a legislação. Falta um projeto visual, desenhado especialmente para divulgar os eventos, até para a vizinhança ir se acostumando com a ideia do evento que vai acontecer perto dela", afirma a professora.

Pimp My Carroça - DiCampana/Foto Coletivo - DiCampana/Foto Coletivo
Ação do projeto Pimp My Carroça atuará no Carnaval de SP coletando materiais recicláveis
Imagem: DiCampana/Foto Coletivo

A ala dos catadores

A figura do catador é fundamental no controle do impacto ambiental. No Carnaval não é diferente. Durante os dias de folia em São Paulo, haverá uma ação realizada com 700 catadores, que atuarão em 74 blocos espalhados por São Paulo.

A ação foi estruturada pela Prefeitura, com patrocínio e parcerias, e conta com a participação do Movimento Nacional dos Catadores, a Associação Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e o aplicativo Cataki.

Haverá um movimento liderado pela ONG Pimp My Carroça, que atua desde 2012 em atividades de sensibilização e conscientização da sociedade, para dar visibilidade aos catadores e promover informação e serviços a esses profissionais.

Nas ações, são entregues kits com diversos itens de segurança, como calças e coletes com faixas refletivas, retrovisor, buzina e luvas emborrachadas. Mais de dois mil catadores já participaram de ações do projeto.

Carnaval SP - DiCampana/Foto Coletivo - DiCampana/Foto Coletivo
Kits com calças, coletes, faixas refletivas, retrovisor, buzina e luvas emborrachadas serão distribuídos para os catadores
Imagem: DiCampana/Foto Coletivo

Segundo Adriane Andrade, coordenadora do projeto Carnaval 2020 pelo Pimp My Carroça, é a primeira vez que realizarão um evento dessa dimensão. Os catadores receberão pela venda dos materiais coletados nos blocos, além do valor correspondente a uma diária.

"Normalmente, esses trabalhadores não recebem pelo serviço prestado de coleta, e isso é uma luta histórica, mas estamos tendo um avanço significativo para remunerá-los", afirma.

Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cada brasileiro produz cerca de 380 kg de resíduos sólidos por ano. Desse total, apenas 13 kg são reciclados - e 90% desse montante só passa pelo processo de reciclagem graças ao trabalho dos catadores e catadoras do Brasil.

Carnaval Lixo Zero: fantasia ou realidade?

Na última edição do carnaval paulista, a Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana) recolheu cerca de 916 toneladas de resíduos, somando os desfiles de rua e o Sambódromo do Anhembi. Desse total, metade foi destinada à reciclagem, ou seja, 458 toneladas. Segundo a Prefeitura, a expectativa para 2020 é coletar 5% a mais de resíduos.

Materiais como alumínio e vidro podem ser coletados e retornar à indústria, onde serão reutilizados, formando a chamada Economia Circular. É o que explica Francisco Nilson Moreira, diretor de Sustentabilidade do Carnaval no Parque, realizado em Brasília (DF).

Pimp My Carroça - DiCampana/Foto Coletivo - DiCampana/Foto Coletivo
700 catadores atuarão em 74 blocos espalhados pela capital paulista
Imagem: DiCampana/Foto Coletivo

O evento é o primeiro e único carnaval lixo zero certificado do Brasil. A certificação é concedida pelo Instituto Lixo Zero Brasil a eventos, empreendimentos e afins que possuem uma taxa de reaproveitamento dos resíduos maior que 90%.

Para o diretor, fazer a gestão de resíduos eficiente em um ambiente aberto, onde não se tem controle do tipo de material que pode aparecer na triagem, é um grande desafio. Mas ele considera, em um contexto como o de São Paulo, uma taxa de reciclagem de 50% um bom número.

"Isso mostra a eficiência difícil de ver no gerenciamento de resíduos sólidos urbanos no país. Mas poderia ser ainda melhor se a prefeitura se articulasse com as empresas que mais vendem produtos e serviços no carnaval de rua para que houvesse uma estratégia simples e clara de redução e reutilização de materiais, como copos retornáveis e menos embalagens. Se isso existe, seria muito importante incluir com destaque na campanha de comunicação prevista", sugere.

Ainda segundo o diretor, o sistema seria ainda mais eficiente se os resíduos orgânicos pudessem ser separados. Com isso, certamente a taxa de reaproveitamento de resíduos seria maior do que 50%.

"Seria fantástico se a Prefeitura de São Paulo conseguisse ainda mais eficiência ainda neste carnaval. Afinal, cada quilo de resíduo não enterrado, não incinerado e que é levado de volta à sua cadeia de valor original conta muito", afirma.

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