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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Todo mundo fala como ele faz falta': o obituário de Marcelino, morto no PA

Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

21/06/2022 06h00

José Marcelino de Sousa morreu no dia 14 de maio dentro de sua casa em Altamira, no Pará, vítima de uma onda de violência na região.

Marcelino, como era conhecido, tinha 31 anos. Deixou a esposa, Ingrid, e cinco filhos.

Ao longo dos últimos três anos, esteve trabalhando com a Rede de Cantinas da Terra do Meio, um arranjo que reúne comunidades locais para a comercialização de produtos da floresta. Havia iniciado seu envolvimento dando suporte ao manejo da castanha-do-pará. Dedicado, logo passou a gerenciar o estoque dos produtos, trazidos pelas comunidades indígenas e ribeirinhas que vivem na região.

Os colegas contam que o galpão era como se fosse sua casa. Marcelino "estava crescendo muito em suas funções, era um ávido aprendiz e um jovem de responsabilidade extrema em seu trabalho", informa nota publicada pela Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri (Amoreri).

Sua esposa conta que a primeira imagem que lhe vem à cabeça é o sorriso do marido. "Marcelino era tudo para mim, pra família, para as pessoas do trabalho. Todo mundo fala como ele faz falta", conta Ingrid.

Ele era sorridente e dedicado. Nas horas vagas, varria a casa e lavava o quintal. Marcelino foi morto em um sábado, em sua casa, enquanto consertava o esguicho que usava para dar banho nos cachorros da família. "Depois dessa tragédia, a única coisa que me conforta é saber que agora ele está com o pai", me disse Ingrid.