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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nova Califórnia, Rondônia

Distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho (RO) - Divulgação/Prefeitura de Porto Velho
Distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho (RO) Imagem: Divulgação/Prefeitura de Porto Velho
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

12/04/2022 06h00

Nova Califórnia é um distrito do município de Porto Velho, em Rondônia. Apesar de compartilhar de uma mesma divisão administrativa com a capital do estado, os dois pontos se encontram a mais de trezentos quilômetros de distância. Ao consultar o mapa, nos vemos em uma região de fronteiras, entre os territórios do Acre, Amazonas e Bolívia.

Antes de visitar Nova Califórnia, já havia escutado algumas vezes a comparação entre dois diferentes projetos de ocupação. Aquele iniciado pelos militares no Norte do Brasil e a corrida para Oeste, um século antes, durante a expansão norte-americana rumo à costa pacífica.

Aprofundando-se nessa analogia, João Moreira Salles, em sua série Arrabalde, aponta para o que considera uma das maiores diferenças entre as duas situações: a ausência, no caso brasileiro, de uma épica compartilhada. Segundo o autor, "a paisagem do Oeste (norte-americano) se tornou parte do patrimônio comum da nação. É uma geografia que confere pertencimento". Para ele, o contraste com o Brasil amazônico não poderia ser maior.

Partindo dessa ideia, podemos pensar que no caso de Nova Califórnia procurou-se superar a ausência de uma narrativa compartilhada por meio de um topônimo. O nome escolhido para o distrito parece ter como objetivo associar, em nosso imaginário, ambas as histórias. O esforço, contudo, extinguiu-se no momento de batismo.

Quando fundaram a RECA, em 1984, seus cooperados encontraram em Nova Califórnia uma terra devastada. Eles haviam sido recentemente assentados pelo INCRA, cuja política à época era assentar desmatando. Os fundadores da RECA tentaram seguir o caminho inverso. Ao invés de derrubar, resolveram recuperar.

O nome da organização é um acrônimo para Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado. Para recuperar a região, a cooperativa investiu em Sistemas Agroflorestais, os SAFs. Esses sistemas procuram arranjar diferentes espécies de plantas em uma mesma área, explorando suas complementaridades.

Plantas que precisam de sombra são cultivadas ao lado de outras de crescimento rápido e folhas largas. Um exemplo é a combinação entre a pupunha e o cupuaçu, explorada pela RECA. Outras espécies como o açaí, andiroba e abacaxi vão se somando e contribuindo para a diversidade da produção.

Minha visita à RECA em Nova Califórnia foi marcada pelo contraste entre a cooperativa e seu entorno. Normalmente, o adjetivo ?novo? produz em quem o escuta uma sensação positiva. Com ele, enxergamos uma possibilidade de deixar aquilo que estava desgastado para trás e iniciar algo do zero, prenhe de futuro. Em Nova Califórnia, pelo que pude ver, não há nada de novo. Apenas o velho modelo de destruição da floresta.

A RECA conta com uma ampla rede de doadores e clientes. Já receberam recursos do Fundo Amazônia, da cooperação internacional alemã e muitos outros. São os maiores produtores de cupuaçu do Brasil, vendem as polpas de suas frutas dos SAFs em quase todo o país, além de óleos e manteigas como insumos para a indústria de cosméticos. Contam com cerca de trinta funcionários, uma pequena indústria de processamento, um edifício inteiro para congelamento e refrigeração das polpas.

Saí da visita impressionado pela estrutura da cooperativa e pelo comprometimento das pessoas envolvidas. Depois de nos despedirmos, entrei outra vez no carro e voltamos pela estrada que nos levava a Rio Branco. Uma vez mais, observei a extensa paisagem composta exclusivamente de pasto. O contraste era desolador.