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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Onde só há açaí, não tem bem-te-vi

Brasil2/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Brasil2/Getty Images/iStockphoto
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

01/03/2022 06h00

"No contexto amazônico, a bioeconomia traz consigo uma grande ambiguidade: pode ser tratada como panaceia para os problemas da região ao mesmo tempo em que pode significar uma ameaça à floresta em pé."

A frase acima, elaborada pelo Grupo de Bioeconomia da Concertação pela Amazônia, traz um pouco da complexidade da ideia de bioeconomia. Como ela revela, o conceito pode ser visto tanto como uma bala de prata para os problemas atuais, quanto como um potencial tiro no pé.

Uma das tensões ligadas à bioeconomia, capaz de convertê-la em uma ameaça à floresta, está associada à superexploração dos recursos naturais. Diante do sucesso comercial de alguns produtos, o risco é que a alta demanda force um aumento da produção, ameaçando uma das ideias centrais da bioeconomia: a diversidade.

Atualmente, entre os produtos florestais, aquele que apresenta maior risco nesse sentido é o açaí. Sozinho, ele representa cerca de ¾ da receita total de uma seleção de produtos florestais não madeireiros no bioma amazônico, de acordo com estudo realizado pelo IBGE. Esse sucesso tem levado a um aumento da produção, ao surgimento de monoculturas de açaí e contribuído para a redução da biodiversidade na floresta.

É exatamente esse o processo que a Amazonbai procura evitar. A Cooperativa dos Produtores Agroextrativista do Bailique tem como principal foco a produção sustentável do açaí. Amiraldo Picanço, presidente da Amazonbai, conta que a estratégia é mostrar na prática que "é melhor manter a floresta do que derrubar tudo pra plantar açaí."

Para Amiraldo, menos é mais: "quando temos muitas estirpes de açaí, elas competem pelos nutrientes e prejudicam umas as outras". A solução, nesses casos, é cortar alguma das palmeiras. Segundo ele, a produção acaba sendo maior com menos árvores. Nesse processo, aproveitam para derrubar as árvores mais altas, com mais de doze metros. Como a colheita exige que os produtores subam nas palmeiras, a altura apresenta um risco à segurança da atividade.

Mas talvez o exemplo mais palpável seja o dos bem-te-vis. Nas capacitações organizadas pela Amazonbai, eles contam que não é possível encontrar ninhos de bem-te-vi nas palmeiras do açaí. Contudo, o pássaro é vital para sua sobrevivência, uma vez que é o responsável pelo controle de pragas da espécie. "Com isso, conseguimos demonstrar a importância de manter a floresta em equilíbrio", diz Amiraldo, "a planta precisa de sombra e precisa de sol, precisa das abelhas, para polinizar, e dos pássaros, que se alimentam dos besouros. Ela precisa estar no meio da floresta."

Só o tempo dirá o que vai acontecer com as estratégias de bioeconomia para a Amazônia e os impactos que o açaí terá sobre a floresta e as pessoas. Mas os cooperados de Bailique, esse pequeno arquipélago composto por oito ilhas no encontro entre o rio Amazonas e o oceano Atlântico, distantes dez horas de barco da capital do Amapá, procuram fazer a sua parte.