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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Acre como metáfora

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Imagem: iStock
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

10/05/2022 06h00

Um mapa é uma forma de enxergar o mundo. Lembro-me do estranhamento quando vi pela primeira vez um mapa-múndi que descentralizava o continente europeu. Tratava-se de uma representação usada durante a Guerra Fria, onde o Estreito de Bering ocupava o centro, enfatizando a proximidade entre os EUA e a URSS. Ou ainda aquele sob o lema de "Nosso norte é o Sul", que inverte o mapa tradicional, deixando o extremo sul do continente americano tomar o lugar mais alto da imagem.

Quando viajo e assisto à previsão do tempo em outro país, tenho alguns instantes de estranhamento. Como muitos, estou acostumado a ver o mapa do mundo preenchido, como se o território de cada país fosse uma peça em um grande quebra-cabeça global. Isoladamente, reconheço poucas nações além do Brasil. Tirado do contexto cartográfico, o esboço das fronteiras de um país estrangeiro é difícil de ser reconhecido.

Como paulista, reconheço facilmente também o contorno do meu estado, reproduzido até nas calçadas das cidades. Tenho dúvidas, contudo, se reconheceria os traços que desenham o contorno do estado do Acre. É possível que eu distinguisse o corte quase reto em sua fronteira norte, com o estado do Amazonas, mas não posso afirmar com certeza.

Atualmente, o Acre é percebido como um território esquecido. No sudeste do país, é relativamente popular uma brincadeira que questiona a própria existência do estado, tão desconhecido que ele é dos habitantes das capitais mais próximas da costa. Essa ‘dúvida’ é sintomática de um país que olha pouco para a Amazônia e para os demais países do sul do continente. Contudo, o estado dispõe de algumas características que fazem dele uma metáfora interessante.

Do ponto de vista geográfico, o Acre detém o ponto mais a oeste do país e, portanto, mais próximo do Oceano Pacífico. Além disso, tem extensas fronteiras com a Bolívia e o Peru. Politicamente, sua fundação é tida como uma conquista diplomática, razão pela qual a capital homenageia o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Na esfera socioeconômica, a região tem uma relação histórica com a floresta, a exploração de cadeias da sociobiodiversidade e o ambientalismo.

Nos últimos anos, a perspectiva de uma unipolaridade global, liderada pelos EUA, tem perdido força diante da ascensão chinesa. Dessa forma, um entendimento atual das relações internacionais pressupõe considerar o jogo de forças que se estabelece entre as duas maiores economias do globo. Nesse contexto, o Oceano Pacífico ganha nova relevância.

Outro movimento internacional importante é a desglobalização. Diante da pandemia e mais recentemente da guerra na Ucrânia, há uma percepção crescente de que os países precisam depender menos de cadeias de fornecimento globais e, portanto, apostar em respostas regionais ou nacionais. De forma análoga, há uma redução na confiança do sistema financeiro internacional, estruturado a partir dos EUA e Europa. Esse movimento poderia ser ilustrado pelo artigo recente de Fernando Haddad e Gabriel Galípolo, na Folha de São Paulo, tratando da criação de uma moeda sul-americana.

Ao apontar para o Pacífico e para a integração regional, o Acre é, assim, uma metáfora de uma nova direção geopolítica.

Considerando nosso posicionamento diante dessa nova ordem mundial, outro aspecto relevante é a Amazônia. Em artigo recente publicado na revista Piauí, Oliver Stuenkel discute a necessidade de tornar a floresta amazônica um trunfo diplomático brasileiro. Tornar o país uma superpotência ambiental nos garantiria a força política necessária para navegar em uma nova ordem cada vez mais incerta.

Mais uma vez, o Acre é uma metáfora interessante. Além do fato óbvio de que seu território integra a Amazônia, o estado é uma lembrança do potencial diplomático brasileiro, simbolizado pelo Barão do Rio Branco.

Do ponto de vista socioeconômico, a bioeconomia amazônica se apresenta como uma solução amplamente discutida. A relação histórica do estado com o extrativismo florestal, incorporado ao imaginário nacional por meio de líderes como Chico Mendes, é mais um elemento nessa metáfora acreana.

O Acre é, assim, uma metáfora de uma nova situação global. O equilíbrio de influências internacionais entre o Atlântico e o Pacífico, o potencial da floresta como trunfo político e econômico e ainda a integração regional. Além disso, é uma metáfora das ameaças que cercam essa visão de mundo. A região sofre cada vez mais pressões do desmatamento e conta atualmente com um rebanho bovino que já supera em quatro vezes a população humana.

Nessa metáfora, o Acre é o potencial de uma floresta amazônica relevante política e economicamente e de um entendimento geopolítico atualizado. É ainda um lembrete dos riscos que nos submetemos ao ignorar seu potencial e realidade.