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Você escuta para compreender ou responder?

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

05/08/2020 04h00

Qual foi a última vez que você, antes de tecer uma crítica ou comentário sobre algo que discorda, se permitiu ter um olhar de curiosidade genuína pelas coisas importantes que o outro busca cuidar a partir de seus posicionamentos?

Em minhas andanças pela vida, e nas navegações diárias nesse universo virtual, tenho percebido que a busca por compreensão da perspectiva do outro tem se tornado cada vez mais escassa, por vezes inexistente, diante da tentadora disputa pelo troféu de "mais dono da razão". Antes mesmo da primeira interação, o objetivo já está delineado: encontrar as melhores palavras para subjugar o outro e ganhar a disputa do breve espaço que se cria entre nós.

Não pense que sou o santo iluminado que veio para julgar esse comportamento. Pelo contrário. Se vos escrevo, saibam que é porque, primeiro, percebo esse comportamento em mim. E, por percebê-lo, tenho me dedicado a identificar padrões e gatilhos que me levam a esse lugar de disputa, a fim de adotar novos hábitos que me possibilitem a busca por pontes de conexão em meio às aparentes indialogáveis e inconciliáveis divergências que emergem nos esbarrões da vida.

Aliás, gostos da palavra esbarrões. A depender de quem esbarra, da intensidade do choque, de nosso estado de espírito, e alguns fatores mais, a gente reage aos esbarrões de forma diferente. E quanto mais doloroso e/ou intenso o impacto desse esbarrão, maior a probabilidade de entrarmos no modo defesa e ataque, nos fecharmos para a escuta, e reivindicarmos a razão.

Tendo isso em mente, comecei a me fazer uma pergunta:

- O que de importante você quer cuidar, Sérgio, ao reivindicar a razão em situações em que esses esbarrões causam um impacto desconfortável, doloroso, indesejado?

Ao responder a essa pergunta tirando as lentes da disputa e, por um momento, deixando de apontar dedos para o outro, algumas vozes internas começam a surgir:

- Ah, eu fico incomodado demais ao ler determinada fala da outra pessoa. Quando leio, chega como uma generalização e me rotulando com algo que ignora tantas partes de mim, que me recuso a aceitar. Gostaria de mais consideração pela minha história.

- Quando vejo determinado discurso tenho um medo danado de que eu não tenha espaço para ser eu mesmo e precise me adaptar ao que os outros acham correto. Não acho justo eu precisar me calar para que o outro exista.

- Não consigo compreender, por mais que me esforce, palavras que chegam como uma agressão gratuita a valores tão importantes pra mim. Não percebo interesse do outro em respeitar que eu não tenho o mesmo olhar pra vida que ele.

Quando comecei a olhar para essas minhas respostas, decidi me fazer uma segunda pergunta:

- Se eu não precisasse disputar uma verdade nesse momento, e tentasse compreender o que é importante para o outro, o que poderia emergir?

Então, percebi na prática algumas mudanças nas minhas relações.

Ao invés de bater e receber uma porrada de volta, eu me permitia ser curioso com o outro. E, para minha surpresa, escutava da pessoa palavras semelhantes às que trouxe acima. Expressões que diziam sobre algo importante pra elas que não viam que estava sendo cuidado. Vez ou outra, ao exercitar essa curiosidade genuína, havia uma abertura do outro para escutar o que era importante pra mim.

É muito interessante perceber esse espaço entre nós sendo ocupado por ambas as pessoas. Perceber que na superfície a gente tá defendendo, cada um, sua verdade mais preciosa. E quando aprofundamos um pouco, estamos ambos a cuidar de algo importante pra nós. Cada um ao seu jeito.

Claro que, ao mesmo tempo, é desafiador. Nem tudo são flores. Também existe um monte de tensão no meio. Como eu disse, quanto mais intenso o impacto do esbarrão, mais trabalhoso é sustentar esse espaço de escuta em uma relação. Às vezes é preciso, inclusive, um terceiro para mediar essa interação.

Tem vezes que a pessoa sai mais certa ainda do que ela acha. Nesses casos, eu saio de alma um pouco mais tranquila por ter escolhido não entrar no jogo da disputa por verdades. Afinal, se eu tivesse me estressado pra cacete com aquela pessoa, e a gente tivesse se xingado horrores, o que teria mudado? A merda possivelmente estaria um pouco mais revirada, apenas.

Também quero honrar aqui a importância de sustentar as verdades que trazemos, principalmente quando estamos falando sobre sistemas de opressão, onde a narrativa predominante tem papel fundamental na forma como vivemos em sociedade. Eu mesmo o faço, quando percebo a importância disso. Mas, nem sempre é a única estratégia a ser escolhida.

Sem trazer uma resposta certa, deixo uma última provocação:

Enquanto não nos dispusermos a escutar para compreender, sem a ânsia por responder, seguiremos reforçando um único caminho de existir, numa eterna e constante queda de braço pela razão.

Suponha que você topasse esse desafio: - O que você, e a sociedade, ganharia ao escutar o divergente, para compreender? E quais novos desafios surgiriam?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.