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O aborto revolta mais que o estupro: voltamos à Idade Média?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

18/08/2020 04h00

Ao longo da minha atuação como psicóloga, atendi algumas mulheres que sofreram abuso quando meninas. Também atendi crianças vítimas de exploração sexual comercial na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Escutei histórias muito tristes e difíceis, que deixaram sequelas para a vida toda. O abuso e a violência não são algo apenas físico, mas também psicológico e moral, e afetam a vida da pessoa como um todo. A forma como a sociedade e a família lidam com a violência sofrida contribui para a retraumatização ou para o início de um processo de cura. Infelizmente enquanto sociedade ainda temos muito a caminhar e aprender nessa direção.

Às vezes me parece que voltamos à Idade Média. Além do contexto de pandemia, a emergência cada vez maior no espaço público do pensamento retrógrado e conservador no âmbito político e religioso nos conecta a esse período sombrio da história humana.

Domingo (16) um grupo de manifestantes religiosos se reuniu em frente a um hospital e "queimou" na fogueira moral uma menina de 10 anos que vinha sendo estuprada pelo tio desde os 6. Rezam por ela ao mesmo tempo em que violam seus direitos ao divulgar seu nome e local onde foi realizado (legalmente) o aborto, resultado dos estupros. Chamam o médico de assassino, constrangem a menina e sua família, se posicionam contra a garantia dos direitos dessa criança, aumentando o estigma, o trauma, a culpa. São "a favor da vida" do feto, mas não se importam com a vida da menina, sua gravidez de risco e seu direito à privacidade e ao sigilo. A moral religiosa absoluta se coloca acima de tudo. Esse mesmo discurso moralista justificou na Idade Média o assassinato de milhares de mulheres na Europa.

Já não estamos mais na Idade Média, embora me pareça que muita gente ainda gostaria que estivéssemos. Nas mídias sociais outros "cidadãos de bem", que se dizem contra a pedofilia, questionam se a culpa não seria da menina, que nunca disse nada porque, na verdade, desde os 6 anos, deve ter seduzido o tio, de 33.

Enquanto o abusador segue foragido, a interrupção de uma gravidez infantil de risco parece gerar mais revolta e mobilização pública que o próprio estupro de vulnerável.

Falta ainda muito conhecimento e consciência da população em geral para tratar desses assuntos com a ética, o cuidado e a responsabilidade necessárias.

Os últimos dados registrados pelo Ministério da Saúde mostram recorde de abusos sexuais infantis no Brasil. São mais de três casos por hora, fora os que não são registrados. A cada 3 ou 4 casos, pelo menos em um deles o abusador faz parte do círculo de amigos ou conhecidos da vítima e em 23% é o pai ou padrasto. Por isso é tão importante o papel da escola no trabalho de prevenção a partir da educação sexual desde a primeira infância, com conteúdo adequado a cada faixa etária.

Além disso, a conscientização e a participação da sociedade como um todo são essenciais para a garantia dos direitos e para o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.

Veja o vídeo da Campanha Nacional Maio Laranja, promovida pela Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, e denuncie anonimamente casos de abuso discando 100, pelo app "Direitos Humanos Brasil" ou no site https://ouvidoria.mdh.gov.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.