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Rosana Jatobá

Mercado está acordando para as oportunidades da descarbonização

Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

22/11/2020 04h00

A descarbonização é uma tarefa difícil, que exigirá uma combinação cuidadosa de estratégias e tecnologias, e vai pesar no bolso, especialmente entre quatro setores que contribuem com 45% de suas emissões de dióxido de carbono: cimento, aço, amônia e etileno.

A consultoria McKinsey estima o custo de descarbonizar esses quatro setores em cerca de US$ 21 trilhões até 2050.
A boa notícia é que a maioria das tecnologias de que precisamos está disponível e são cada vez mais competitivas. A energia solar e a eólica fornecem agora a energia mais barata para 67% do mundo. Os mercados estão acordando para essas oportunidades e para os riscos de uma economia com alto teor de carbono.

Até empresas de petróleo e gás se comprometem com as emissões zero. Gigantes da energia como Shell, Total e Chevron, estabeleceram recentemente suas próprias metas climáticas. A Repsol, por exemplo, ambiciona em 2050 ver a quantidade de CO2 que emite se igualar à quantidade que capta do ar.

Aqui no Brasil, a tendência é a mesma. A multinacional do ramo da metalurgia Tupy já está trabalhando para trocar sua matriz energética e, assim, avançar no processo de descarbonização dos motores que fabrica. Sua rota rumo às baixas emissões mira no gás natural, biocombustíveis e eletrocombustíveis.

Nos setores em que a Tupy atua, os caminhões respondem por 3% das emissões e o setor de máquinas de construção, de mineração e agrícolas são responsáveis por menos de 1%, de acordo com Fernando de Rizzo, CEO da Tupy.

"Temos um projeto interno de deixar de usar coque e substituir por gás. É experimental, mas nossas emissões de CO2 cairiam de 30% a 40% em relação ao nível atual. As emissões de material particulado acabariam. O gás natural é muito mais limpo nesse aspecto", afirmou o CEO da Tupy, durante live da Trígono Capital.

Segundo o executivo, se o mundo substituir toda lenha, carvão, óleo de navio e gasolina, para os quais já existem alternativas, as emissões cairiam em cerca de 40%. Ele lembra que a produção de eletricidade lidera a emissão de gases de efeito estufa no mundo, sendo responsável por 24% do total, por causa do carvão. Nesse caso, a energia eólica, solar e o gás podem melhorar bastante. Na indústria, a produção de aço, ferro e cimento respondem por 8%.
Todos os automóveis do mundo produzem 6% dos gases de efeito estufa.

A transição para o verde é oportunidade

Mas todo esse frenesi de compromissos com o meio ambiente, por parte de governos e empresas, tem levantado dúvidas entre os ativistas ambientais, que alegam "green washing".

Para muitos especialistas, essa desconfiança não faz sentido, uma vez que definir metas de redução de carbono resulta em operações mais eficientes, redução de custos, novas margens, menor risco para os acionistas da empresa, para investidores, e representa uma vantagem competitiva.

Estudo divulgado em novembro de 2019 pela Morgan Stanley Research, revela que os custos econômicos para descarbonizar são substanciais. E estima que as emissões "líquidas zero" exigirão US $ 50 trilhões em investimentos até 2050.

"Mas existem oportunidades claras para reduzir as emissões e o benefício de escolher o caminho certo também pode significar retornos significativos sobre o investimento ", disse Jessica Alsford, chefe de Pesquisa em Sustentabilidade do Morgan Stanley.

Inventários públicos

O registro público das emissões tem auxiliado os agentes privados e públicos na definição de estratégias para mitigação dos gases de efeito estufa. E acaba por evidenciar as empresas entre os consumidores, cada vez mais atentos à responsabilidade socioambiental corporativa.

De maneira voluntária, 156 empresas sediadas no Brasil publicaram em setembro deste ano, seu relatório de emissões de emissões ao participar do Programa Brasileiro GHG Protocol, o maior banco de dados de inventários corporativos da América Latina. Essas companhias respondem por 7,8% das emissões no país. Destas, 33 empresas são de grande porte como Petrobras e Vale, cada vez mais cobradas a aderir à cultura corporativa de mensuração, publicação e gestão voluntária de emissões. A plataforma online para consulta e publicação de inventários está disponível no site FGV.

Somadas, as emissões diretas das 35 empresas correspondem ao estoque de carbono de 356 milhões de árvores da Amazônia.

"A iniciativa pretende ser o primeiro passo na preparação das companhias para os futuros marcos regulatórios de mitigação dos impactos ambientais das cadeia produtivas e de adaptação às exigências legais de programas nacionais para gestão ambiental e mudança climática", afirmou Raquel Biderman, coordenadora adjunta do GVces.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.