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Rosana Jatobá

Cutucada de Biden no governo brasileiro pode virar sacudida daquelas

02 nov. 2020 - Joe Biden, candidato Democrata à presidência do EUA, discursa em comício em Pittsburgh, Pensilvânia - Drew Angerer/Getty Images
02 nov. 2020 - Joe Biden, candidato Democrata à presidência do EUA, discursa em comício em Pittsburgh, Pensilvânia Imagem: Drew Angerer/Getty Images
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

06/11/2020 09h56

Ainda no começo da campanha presidencial norte-americana, em março, uma declaração do candidato Joe Biden mexeu muito com o Brasil. Em entrevista ao site da publicação independente "America's Quarterly", o democrata disse que não sossegaria até o presidente Jair Bolsonaro entender o valor do meio ambiente.

"O presidente Bolsonaro deve saber que se o Brasil deixar de ser um guardião responsável da floresta amazônica, minha administração reunirá o mundo para garantir que o meio ambiente seja protegido".

Não foi a única vez que o candidato democrata tocou no assunto.

Durante o primeiro debate eleitoral, no começo de outubro, Biden prometeu se juntar com outros países e oferecer US$ 20 bilhões (R$ 112 bi) para ajudar na preservação da região. "Parem de destruir a floresta e, se não fizer isso, você terá consequências econômicas significativas", completou, indicando possíveis retaliações ao governo brasileiro.

Bolsonaro rebateu: "A cobiça de alguns países sobre a Amazônia é uma realidade. Contudo, a externação por alguém que disputa o comando de seu país sinaliza claramente abrir mão de uma convivência cordial e profícua".

A narrativa do presidente brasileiro tem sido a de negar que a floresta corre riscos sob sua gestão. O Brasil registra índices recordes de desmatamento e queimadas, segundo dados do próprio governo divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas Bolsonaro prega que o governo "está realizando ações sem precedentes para proteger a Amazônia".

O chefe da nação se diz vítima de uma campanha por causa de interesses econômicos da Europa.

Não cola. O Brasil segue sendo alvo de frequente pressão internacional pela preservação da Amazônia, conservação do meio ambiente e respeito aos direitos humanos.

Ainda no início de outubro, o Parlamento Europeu indicou que, sem mudanças na agenda ambiental, o acordo UE-Mercosul não deveria ser ratificado. O Brasil, como membro do Mercosul, ficaria de fora do jogo, perderia as oportunidades de comércio entre os blocos, se não fosse capaz de garantir que tem os mesmos padrões de sustentabilidade da cadeia de produção europeia, como, por exemplo, a implementação do Acordo de Paris e as respectivas normas de execução.

Em setembro, embaixadores de sete países europeus — Alemanha, Dinamarca, França, Itália, Holanda, Noruega e Reino Unido — enviaram uma carta ao governo brasileiro cobrando medidas para conter o desmatamento na Amazônia. E alertaram que a devastação poderia dificultar a importação de produtos brasileiros.

Na época, especialistas em comércio exterior alertaram que os produtos brasileiros já estavam perdendo espaço no mercado internacional. E esse cenário poderia piorar se o país não freasse o desmatamento.

Em junho, investidores institucionais de 29 fundos internacionais que administram cerca de US$ 3,7 trilhões em ativos, solicitaram videochamadas com autoridades no Brasil para discutir aumento do desmatamento e violação dos direitos de grupos indígenas na Amazônia. Os gestores de ativos disseram que o fracasso do governo brasileiro em proteger as florestas poderia obrigá-los a reconsiderar seus investimentos.

"Se o Brasil prosseguir assim, empresas associadas à política poderão perder acesso ao mercado internacional de capitais; os títulos soberanos brasileiros também devem ser considerados de alto risco", disseram os fundos na carta.

No mesmo mês de junho, outro alerta. Desta vez do Comitê de Assuntos Tributários da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, que se opôs a expandir os laços econômicos com o Brasil, sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, dado seu histórico no que diz respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente.

"Nós nos opomos fortemente a buscar qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro no Brasil. O aprimoramento do relacionamento econômico entre os EUA e o Brasil, neste momento, iria minar os esforços dos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais brasileiros para promover o estado de direito e proteger e preservar comunidades marginalizadas", disse o presidente do Comitê, Richard Neal.

Segundo o ex-embaixador Rubens Barbosa, a pressão sobre o Brasil e sua política ambiental tende a aumentar na comunidade internacional caso Joe Biden vença a disputa. E que o zelo com o meio ambiente se tornará decisivo nas relações dos Estados Unidos com o Brasil.

"Se Biden for eleito, a política ambiental americana vai mudar. Os Estados Unidos se alinharão à Europa em torno da política de mudanças climáticas, que, goste ou não, é um tema global. O Brasil deve estar atento à possível mudança no governo americano e ter uma resposta adequada com políticas mais eficazes para o meio ambiente".

A cutucada que Joe Biden deu no governo brasileiro durante a campanha, pode virar uma sacudida daquelas se o Partido Democrata tingir de verde a Casa Branca.