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Planos de salvação ecológica têm de sair do papel, mas temos de celebrá-los

Joe Biden, candidato do Partido Democrata à eleição presidencial dos Estados Unido, durante discurso em Delaware - Alex Wong/Getty Images/AFP
Joe Biden, candidato do Partido Democrata à eleição presidencial dos Estados Unido, durante discurso em Delaware Imagem: Alex Wong/Getty Images/AFP
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

21/08/2020 04h00

Os ambientalistas já flertavam com o democrata Joe Biden, muito antes de ele ser formalizado como o candidato do partido a disputar a presidência dos Estados Unidos, em 3 de novembro. A paixão data do início da corrida presidencial americana, quando o arquirrival do presidente Trump afirmou que o meio ambiente seria uma de suas prioridades se chegasse à Casa Branca. Biden prometeu recolocar os americanos no Acordo do Clima de Paris, do qual foram retirados pelo adversário republicano. E avisou que, em sua gestão, nenhum acordo comercial seria fechado "sem que houvesse um ambientalista na mesa de negociações."

O namoro com a turma do verde ficou sério no mês de julho, quando Biden prometeu um plano ambicioso de combate às mudanças climáticas de US$ 2 trilhões, que poderia reformar o setor energético americano e desenvolver fontes de energia livres de carbono em apenas 15 anos. O candidato democrata foi além das fronteiras, lançando um olhar preocupado sobre o desmatamento em território brasileiro: "Eu estaria agora organizando o hemisfério (ocidental) e o mundo para fornecer US$ 20 bilhões para a Amazônia, para o Brasil não queimar mais a Amazônia, para que pudessem manter as florestas".

Mas Joe Biden ganhou de vez o coração dos ecologistas quando anunciou a senadora pela Califórnia Kamala Harris como candidata à vice-presidência. Integrante da ala moderada do partido, Kamala Harris chegou a apoiar o Green New Deal, proposta ressuscitada pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez e pelo senador Ed Markley para enfrentar as mudanças climáticas. O Green New Deal é um conjunto de diretrizes para nortear a política energética e econômica, e acelerar a migração de empregos para projetos renováveis, com o objetivo de zerar as emissões de carbono até 2030. O Green New Deal é uma referência ao New Deal, programa aplicado na economia americana para vencer a Grande Depressão na década de 1930.

Os especialistas se apressaram em dizer que não há como comparar um plano com o outro. Primeiro, porque a crise climática é muito maior do que a Grande Depressão de 1929, pois o próprio destino da humanidade é o que está em jogo agora. Segundo, porque a crise climática está sendo acelerada exatamente pelo que o New Deal ajudou a salvar: o capitalismo de combustível fóssil.

A economia do mundo é alimentada quase que inteiramente pela energia do carbono, que circula nas veias das redes de transporte, edifícios, infraestrutura de dados e cadeias de suprimento globais.

O Green New Deal precisaria, segundo os cientistas, se parecer menos com o New Deal e mais com a própria revolução industrial - mudando fundamentalmente a maneira como produzimos e distribuímos virtualmente todos os bens materiais, e construindo setores inteiramente novos, enquanto desmontamos os que já existem há muito tempo.

Não adiantaria, por exemplo, usar tratores a biodiesel e, ao mesmo tempo, manter os mesmos níveis de produção agrícola. De nada serviria aderir ao transporte elétrico em massa, se não há quantidade suficiente de minerais como cobalto, lítio e outros recursos necessários para eletrificar o sistema. Não daria para falar em preservação da biodiversidade, se não existe habitat selvagem suficiente para manter o desmatamento no ritmo atual, com sessenta campos de futebol da floresta sendo destruídos a cada minuto e dezenas de espécies sendo extintas todos os dias.

Mas se não temos margem no curto prazo para uma transformação rápida do atual estado de coisas, há uma esperança no horizonte.
O Green New Deal ou qualquer outro plano ambicioso contra o aquecimento global trazem uma oportunidade única de começar a estabelecer as condições políticas e culturais para uma transição possível.

O primeiro passo seria fomentar o assunto para além do governo norte-americano, fazendo com que esta agenda tenha importância internacional.

As propostas do New Deal Verde deveriam, portanto, pensar no todo, para forjar mais explicitamente os vínculos entre a ação local e a global. Os programas federais de conservação do New Deal do Presidente Roosevelt lá atrás só tiveram sucesso porque envolveram intencionalmente americanos comuns em todos os níveis. A ação local compartilhada em nível global é nossa única esperança.

O segredo é implementar o Green New Deal por meio de parcerias internacionais e em cooperação com iniciativas ambientais globais, em vez de colocar os Estados Unidos em primeiro lugar em tais esforços.

Por enquanto, os planos de salvação ecológica não passam de retórica dos políticos do Partido Democrata. Precisarão sair do papel. Mas temos que comemorar a semente lançada e a grande possibilidade de mudança de cor da Casa Branca. Ainda este ano, ela pode ganhar um tom mais verde. Para a Revista britânica "The Economist", Joe Biden tem 90% de chances de vencer a eleição!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.