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Saída da crise global exigirá esforço de reconstrução como no pós-guerra

Qual será a relação entre agrotóxicos no Brasil e a geladeira de tantos países? - Repórter Brasil
Qual será a relação entre agrotóxicos no Brasil e a geladeira de tantos países? Imagem: Repórter Brasil
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

28/04/2020 04h00

Já cheguei a ouvir que o planeta Terra só seria um lugar economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto se houvesse um ataque de seres extraterrestres. A ameaça de outra civilização nos levaria à urgência de união contra o inimigo, teríamos que abolir as fronteiras entre os povos para nos tornar um só povo, na luta pela sobrevivência na vastidão do universo.

Já sofremos o ataque, mas o "Alien" que nos visita não tem pele acinzentada, cabeção, olhos grandes, boca fina, corpo pequeno e raquítico, nem garras com três dedos. O "Alien" da vez é terrestre, invisível, silencioso e voraz. É um vírus! E esperto. O novo coronavírus é particularmente inteligente, porque viaja a bordo de indivíduos insuspeitos: 80% dos infectados apresentam sintomas leves; em silêncio, ele vai alcançando números espantosos de contágio.

Vivemos uma dura experiência planetária que escancara o retrato de um mundo profundamente desigual, mas que nos iguala no sofrimento e no medo do futuro. Diante do coronavírus, o outro passa a ser qualquer um de nós.

Somos parte de um ecossistema único em que todos têm relações de interdependência. Assim, o planeta se transforma em uma casa comum, em que a ideia de nação, de países delimitados e díspares, com interesses próprios, não faz mais sentido.

O coronavírus inaugura os primeiros passos de uma única raça: a humana; a raça que deixará para trás um mundo dividido entre ricos e pobres, pretos e brancos, cultos e alienados, etc...

Há alguns motivos para a gente acreditar num futuro mais sustentável a partir da redução das desigualdades.

De cara, o coronavírus revelou que a pujança das economias depende, antes de tudo, de seus elos mais frágeis, da população em situação de vulnerabilidade. Já estamos percebendo uma grande preocupação com os desvalidos, os presos, as comunidades carentes, os moradores de rua. E não apenas por altruísmo, mas porque essas pessoas podem ser contaminadas e contaminar muitas outras. É muito provável, portanto, que as políticas macroeconômicas incrementem suas redes de proteção social, até para que a humanidade possa enfrentar futuras pandemias. Nesta linha, já ganha força uma renda mínima universal permanente.

Aliás, o mundo assistiu à maior intervenção do Estado na economia dos últimos tempos. Os EUA e a União Europeia mobilizam recursos que chegam a trilhões de dólares para refinanciar famílias e aumentar o gasto do Estado em saúde.

E a saúde será um dos primeiros setores a experimentar uma revolução mundial na sua engrenagem rumo ao fortalecimento dos serviços públicos. O coronavírus mostra que não bastam planos privados incríveis, que deem direito aos melhores hospitais, se estiverem lotados, enfileirando os mortos. Há que se pensar em um sistema eficiente que proteja a população como um todo. Analistas já enxergam no longo prazo, intervenção em setores privados para fazer as empresas terem uma participação maior na área de saúde, com ações que tornem a sociedade mais inclusiva e progressista.

Vejo também que o fortalecimento do mundo online imposto pela quarentena tem potencial de impulsionar a tecnologia e a inovação para ampliar a inclusão digital, sobretudo de crianças e jovens que hoje estão à margem da internet e das redes sociais. Cerca de um terço da juventude mundial - 346 milhões - poderá ter acesso à informação, à construção de habilidades para o local de trabalho digital e uma plataforma para se conectar e comunicar seus pontos de vista.

Nas relações de trabalho, a tendência também é de um mundo com menos desigualdade social por causa do efeito nivelador da economia que grandes epidemias provocam ao longo da história. Segundo o historiador Walter Scheidel, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, "quando muita gente morre, há uma redução de mão de obra, então trabalhadores podem vender sua força de trabalho por salários mais altos, e as pessoas ricas passam a ter uma renda menor".

A saída da crise global exigirá dos países um esforço de reconstrução semelhante ao do período pós-guerra. Tal esforço passará necessariamente pela ação coordenada e por uma reinvenção do multilateralismo.

O coronavírus mostrou que o que se come na China, pode ser "mal" digerido no mundo inteiro. Desta forma, há que se questionar como a proteção à saúde das pessoas dependerá do respeito ao meio ambiente. Será inexistente a relação tóxica entre um solo encharcado de agrotóxicos no Brasil e a geladeira de tantos países? Há que se pensar se vale a pena queimar a Amazônia, se o desmatamento causa seca em outro lugar.... O reconhecimento desta simbiose deverá redesenhar o tabuleiro geopolítico para minimizar o abismo sócio-econômico entre os países.

A pandemia traz o que um ataque alienígena traria: a consciência de que o mundo é um só! E não há outra forma de integrar senão pela capacidade de compartilhar, colaborar e cooperar.

Aos moldes do que ensina a Sustentabilidade, estamos sendo obrigados a reinventar processos, redesenhar trajetórias e produzir mais com menos.

Teremos um mundo mais justo e solidário, em que o capital vai girar em torno dos bens públicos, dos bens comuns.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.