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Manter datas do Enem é injustiça e negacionismo na contramão do mundo

O Ministério da Educação, liderado por Abraham Weintraub, confirmou as datas do Enem 2020 para 1 e 8 de novembro - PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA via BBC
O Ministério da Educação, liderado por Abraham Weintraub, confirmou as datas do Enem 2020 para 1 e 8 de novembro Imagem: PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA via BBC
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

11/04/2020 12h18

Por causa do novo coronavírus, a França cancelou o BAC, exame nacional de ingresso no ensino superior. A Itália tem como plano B abolir a prova escrita e fazer entrevistas por teleconferência. A Espanha adiou para uma data indefinida os vestibulares do meio do ano. Os Estados Unidos pararam tudo até junho e vão esperar para avaliar o que fazer dali para a frente. As principais universidades de Colombia, Peru e México também registram adiamentos de suas provas de admissão.

No Brasil é como se não houvesse uma pandemia que já fez 100 mil mortes no mundo. Está tudo normal. O Ministério da Educação (MEC) confirmou as datas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para 1 e 8 de novembro de 2020.

Para não dizer que o edital do exame ignora por completo a Covid-19, o documento faz uma única menção à doença, incluindo-a na lista de moléstias infectocontagiosas que permitem a eventuais doentes a reaplicação do exame em outra data. Está ao lado da coqueluche, difteria, poliomielite por poliovírus selvagem, sarampo, rubéola, varicela, doença invasiva por Haemophilus, influenza, varíola, influenza humana A e B, doença meningocócica e outras meningites.

A postura negacionista espelha o comportamento do ministro Abraham Weintraub. No sábado passado, publicou tuíte zombando do sotaque dos chineses e insinuando que o vírus poderia fortalecer geopoliticamente o país asiático.

O MEC aposta todas as fichas em que a epidemia estará controlada até novembro. Previsões do Ministério da Saúde ainda anteriores à subida atual dos casos de contágio e óbito apontavam setembro como mês de queda mais brusca. Ignora-se uma eventual segunda onda, fruto da dispersão regional em momentos diferentes ou do contágio de outra parcela da população, algo que aparece no radar dos especialistas.

Se isso acontecer, o exame representará risco à saúde pública. O Enem, nos dias de sua realização, mobiliza centenas de milhares de pessoas para ser aplicado. Além de milhões de participantes, que ficam fechados por horas em salas de aula.

Gestão pública não é cassino. Mas vamos supor que a aposta se pague. Ainda assim, a manutenção das datas é imprópria. Insistir no Enem para novembro amplifica as já enormes desigualdades educacionais do Brasil.

Bem ou mal, filhos de famílias privilegiadas seguem estudando por via remota. Desde o início da quarentena, escolas particulares e cursinhos de elite mobilizaram um complexo sistema de educação a distância, com videoaulas ao vivo, plantão de dúvidas, atendimento psicológico e simulados online. As redes públicas demoraram mais a se mobilizar. No estado de São Paulo, o conteúdo por celular só começou na segunda-feira, 6 de abril. As ferramentas são mais precárias e muitos alunos, sem internet em casa, simplesmente estão impedidos de continuar estudando. Para Weintraub, está tudo certo: "Quem não tem internet, vê os livros", afirmou em entrevista à TV Brasil no dia primeiro de abril. Infelizmente, não era mentira.

Como não há perspectiva de que as aulas presenciais retornem em breve, o fosso entre ricos e pobres se ampliará, assim como a distância na possibilidade de conseguir uma vaga em universidade pública. O ministro não vê problema. "O coronavírus atrapalha todo mundo. Como é uma competição, está justo", disse em vídeo no Twitter.

Tudo isso sem falar de algo que antecede a aplicação da prova: o seu desenvolvimento conceitual e sua montagem industrial. Desde agora, especialistas envolvidos na elaboração e aplicação do exame terão de trabalhar juntos em plena fase de expansão da pandemia.

O MEC e o Inep vão assumir a responsabilidade de expor servidores públicos, pesquisadores e professores de todo o país que se envolvem em intensas interações face a face por períodos longos, em ambientes fechados? Adotarão medidas para evitar que esses profissionais representem risco a seus familiares e comunidades? Serão testados e colocados em isolamento? Haverá logística de tratamento em caso de infecção? Se sim, onde estão os estudos, os planos e os contratos com o detalhamento dessas ações?

Tantas dúvidas e objeções poderiam ser contornadas se houvesse um plano alternativo, a previsão de uma edição de contingência em casos de força maior, a possibilidade de revisão de datas atrelada ao avanço da epidemia ou simplesmente canais de diálogo razoáveis entre o MEC e a sociedade. Na entrevista à TV Brasil, Weintraub admitiu postergação no caso de "um meteoro cair na Terra e destruir o planeta". Há tempos deixou-se de imaginar que o ministro possa agir como um gestor minimamente responsável. O mínimo que se poderia esperar é que a principal autoridade educacional do país não faça troça da ansiedade de milhões de vestibulandos enquanto segue sua insensata caminhada na contramão do mundo. Talvez até isso seja pedir demais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.