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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futurologia ou leitura de contexto? O cenário projetado se confirma

Hiraman/iStock
Imagem: Hiraman/iStock

11/02/2022 06h00

Uma cena comum durante a pandemia. O estudante em processo de alfabetização está em casa, compartilhando o computador ou celular com o restante da família. Tem dificuldade em manter uma rotina de estudos e a família, por vezes pouco letrada, não consegue apoiar nas atividades escolares em casa. A nota técnica do Todos pela Educação, emitida na última terça-feira, traz um número bastante alarmante sobre as consequências da covid-19 na educação pública do Brasil. Com o título "Impactos da Pandemia na Alfabetização de Crianças", o parecer confirma o que toda a comunidade de educação, de certa forma, já sabia: as históricas disparidades das nossas redes de ensino acentuaram-se de forma muito preocupante entre 2019 e 2021.

O dado mais impressionante é o que mostra ter havido um aumento de 66,3% no número de crianças entre 6 e 7 anos que, segundo declaração dos pais ou responsáveis, não sabiam ler e escrever. Essa estatística simplesmente saltou de 1,4 milhão para 2,4 milhões em dois anos. O contexto acentuou ainda mais as diferenças advindas da desigualdade econômica e social. Entre os mais ricos, o aumento no número de crianças de 6 a 7 anos incapazes de ler foi de 11,6% para 16,6%. Já entre os residentes nos domicílios mais pobres, foi de 33,6% para o espantoso número de 51%. Ou seja, mais da metade das crianças de famílias de baixa renda, na faixa de idade estudada, não sabem ler e escrever. Não há variáveis que permitam identificar os estudantes com deficiência, porém estima-se que as perdas sejam ainda piores para esse público. Essa situação é alarmante, já que a alfabetização é premissa para a criança seguir aprendendo. O atraso tem como consequência perdas futuras que vão se acumulando e, em alguns casos, gera sequência de reprovação. Conforme argumenta a nota técnica, esse cenário com frequência causa desinteresse e evasão escolar.

Reverter esse quadro não é tarefa simples, já que a ameaça representada pela pandemia ainda não nos deixou, embora tudo indique que haja um abrandamento dos sintomas nas novas cepas do vírus e um efeito claramente positivo da vacinação. Além de retomar suas atividades presenciais - o que implica medidas concretas de prevenção -, nossas escolas precisam criar e implementar estratégias voltadas à avaliação, redução das perdas e continuidade do desenvolvimento de nossos estudantes, independentemente de suas particularidades. A hipótese de, em 10 ou 15 anos, sofrermos as consequências de ter uma "geração perdida" na nossa já tão sofrida formação média do cidadão, precisa ser enfrentada como um cenário inaceitável para todas as camadas que compõem nosso tecido social.

Se a alfabetização representa o trecho inicial da caminhada da aprendizagem, o contexto da pandemia impediu as crianças, especialmente as mais vulneráveis, de participar desde a largada. Cabe agora ao poder público, escolas e sociedade oferecer condições para que toda criança recupere o tempo perdido e não desista de seguir aprendendo.