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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De Angola à medalha de ouro, pelo Brasil

O atleta Maurício Dumbo - Reprodução/Facebook
O atleta Maurício Dumbo Imagem: Reprodução/Facebook

Rodrigo Hübner Mendes

05/11/2021 10h18

Nessa semana, tive o prazer de conversar com o paratleta Maurício Dumbo durante uma live sobre educação física inclusiva em que participei a convite do SESC. Por trás de sua simpatia e alegria, há uma trajetória de vitórias por meio da educação e do esporte.

Nascido em Angola, Maurício ficou cego aos cinco anos de idade, como consequência de sequelas de um sarampo. Com o país conflagrado por uma guerra civil que durou quase 30 anos, o garoto perambulava de um canto para outro, sem perspectivas, e até os 11 anos era analfabeto. Um convênio entre Brasil e Angola deu a Maurício uma oportunidade inestimável: ele foi chamado a participar de um grupo de 18 jovens, entre 7 e 14 anos de idade, que viriam ao nosso país para integrar um projeto de alfabetização.

Uma vez aqui, foi muito além de aprender a ler e escrever. Conheceu o esporte ainda nos primeiros anos, e logo se destacou. Disputava o campeonato de futsal para cegos em Porto Alegre, onde chegou a ser artilheiro. Em 2014, naturalizou-se brasileiro e, em 2016, foi convocado para a seleção brasileira que disputou os Jogos Paralímpicos realizados no Rio. Ganhou a medalha de ouro. Mas a verdadeira consagração tinha vindo no ano anterior, quando se formou em Direito e logo conseguiu trabalho no Tribunal de Justiça de Curitiba, apesar de ter enfrentado diversas dificuldades no percurso, já que o governo de Angola havia decidido cortar o auxílio àquele grupo e determinar sua volta ao país de origem.

É curioso pensar que, ao mesmo tempo em que esse talentoso esportista estava construindo sua vida aqui, eu estava pessoalmente dedicado a apoiar o Ministério da Educação de Angola na criação de uma política nacional de educação inclusiva. O projeto começou em 2015, quando estive em Luanda para conhecer a equipe do Instituto Nacional de Educação Especial e iniciar um projeto que durou 2 anos. Em 2017, o então presidente angolano assinou a política que vem sendo implementada com o objetivo de permitir que crianças com deficiência estudem em escolas inclusivas, em convívio com os demais alunos.

Nossos povos têm em comum não apenas a língua portuguesa e o amor pelo futebol. Temos também profundas desigualdades que precisam ser reduzidas para que consigamos, ambas as nações, construir sociedades mais justas e efetivamente desenvolvidas. Maurício Dumbo, de muitas formas, simboliza esse futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL