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Rodrigo Hübner Mendes

Diante do revés, precisamos mirar em boas práticas

Diante do revés, precisamos mirar em boas práticas - rodnikovay/Getty Images/iStockphoto
Diante do revés, precisamos mirar em boas práticas Imagem: rodnikovay/Getty Images/iStockphoto

Rodrigo Hübner Mendes

30/01/2021 04h00

Em meio ao instável e assimétrico processo de reabertura das escolas, acaba de ser lançado um livro com grande potencial de trazer colaborações aos amplos desafios impostos à educação pela pandemia. A publicação, intitulada "Leading Educational Change During a Pandemic - Reflections of Hope and Possibility" (em tradução livre, "Conduzindo a Mudança na Educação Durante uma Pandemia - Reflexões sobre Esperança e Possibilidades"), apresenta experiências de 24 autores, desenvolvidas em várias regiões do mundo.

Seu autor, Fernando Reimers, é professor da Harvard Graduate School of Education e tem desempenhado um papel de protagonismo nas discussões sobre como a educação para o século 21 deve ser concebida. Em uma de suas definições, proposta em um texto publicado pela Unesco em 2018, Reimers aborda a educação como "a construção de oportunidades para as pessoas desenvolverem as habilidades e a mentalidade que as ajudarão a viver de forma a ter objetivos que valha a pena alcançar". Para colocar essa ideia em prática, propõe mudanças fundamentais nos currículos das escolas - mais do que isso, nos objetivos desses currículos. Segundo ele, os estudantes precisam ser envolvidos na criação de projetos que dialoguem com sua realidade, seja a produção de um teatro de marionetes, a estruturação de um plano de negócios ou de um empreendimento social.

Em 2009, tive a sorte de ser aluno do Fernando durante um curso sobre políticas públicas para 70 lideranças que atuavam em regiões bastante distintas do planeta. A intensa diversidade sociocultural do grupo representava um ótimo laboratório para que nós vivenciássemos a experiência de uma sala de aula profundamente heterogênea. Reimers nos inspirava com suas explanações visionárias sobre o papel da educação para o futuro da humanidade, resgatando a origem da escola pública e os largos impactos por ela causados.

O livro está, de certa forma, alicerçado na ideia de que boas práticas podem contribuir muito para que ganhemos escala na qualidade da educação. Sempre é bom lembrar que, um dos motivos que fizeram com que a espécie humana conseguisse sobreviver foi nossa capacidade de aprender com os exemplos dos outros. Em outras palavras, nossa vida nesse planeta teria sido muito mais difícil se tivéssemos que aprender tudo o que sabemos isoladamente pela experiência direta, sem poder aprender com o que outros já viveram. Sem poder acessar o estoque de conhecimento que vai se acumulando ao longo da nossa existência.

Apesar dos cuidados necessários à aplicação dessa lógica às ciências humanas, sem dúvida a educação e a história dessa área do conhecimento têm sido baseadas no compartilhamento sistemático de conhecimento. Isso intensificou-se quando alguns pensadores tiveram a transformadora ideia de que pessoas comuns poderiam, por meio da educação, governar suas vidas e contribuir para a melhoria do mundo. Uma ideia iluminista que se fundamenta no conceito de igualdade, de que todos temos os mesmos direitos e que, por meio da razão, podemos evoluir como espécie.

A referida tese sobre o potencial das boas práticas ganha novos contornos em vista do inimaginável cenário instituído pela Covid-19. As inovações subjacentes às narrativas presentes no livro nos iluminam por sua virtude em apontar rotas possíveis. Cada uma marcada por sua idiossincrasia. Todas orientadas pelo norte do direito universal à educação.