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Lamento que o Brasil não tenha um presidente da república

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

07/05/2020 04h00

Começo esse texto ouvindo o disco novo da Ludmilla, que é uma mistura de orgasmo com cerveja gelada. Recomendo. Se puder, escute Ludmilla também, neste momento. Em muitos dias, sozinha em casa, poucos sorrisos e muitos sentimentos, ouvir e pensar sobre as coisas têm sido formas de não enlouquecer.

Semana passada não teve texto, na verdade teve, mas o planeta se encontra em um momento bem complexo de acertos e erros. Meu texto era um esboço do que me atravessa, uma revolta absurda com um choro preso e uma vontade de botar fogo nas coisas e nos poucos que sobraram no poder. Mas obviamente é apenas vontade, não será possível.

Oscilar sobre quem eu sou e quem eu me torno diante do que estamos vivendo é dolorido e confuso demais, e sem swingue nenhum. Só uma cervejinha gelada ao final do dia.

Quando era criança, pisei em um formigueiro gigante no quintal de casa. Nunca vou esquecer o quanto foi horrível descobrir uma alergia em meio à experiência de quase morte (tô "chorindo" por dentro). Eu ando descalça desde sempre. Saia de dentro de casa e ouvia meu padrinho gritar: "Colooooca o chinelo, Mariana. É tempo de muita formiga no quintal e na terra elas se misturam". As palavras se dissolveram no vento, automaticamente. Gritei um "tá" e segui buscando coisas pra fazer pelo quintal. Ao subir um degrau de terra para me sentar na caixa de luz para ver a rua, pisei no maior formigueiro que já tinha visto no universo.

Meu pé tomado de formiga - e escrevendo isso sinto elas em mim -, acompanhado de um choro entalado. Meu padrinho corria com a mangueira. Choro só de lembrar a dor. Era insuportável. Desmaiei e acordei no pronto-socorro de Parelheiros. Ao abrir os olhos, enxerguei, no canto, meus padrinhos (super bravos) e minha tia, Cássia. Eu nem sentia a perna, mas comecei a chorar e pedir desculpas.

E como vocês podem imaginar, meu padrinho me olhou e disse: "Eu avisei, não avisei?".

O começo da semana passada foi absurdamente ruim. Uma crise de ansiedade, briga sobre política com amigo, descontrole emocional pesado e esse misto de sentimento aqui dentro de casa, muito trabalho, muito tempo comigo mesma e muito desespero em ver o país ruir e não poder resolver. Presidente acorda e vai dar tiro, diz que não lê o que assina e não está nem aí para a quantidade incontrolável de pessoas morrendo a cada instante no Brasil.

Dentro de mim, sinto o fígado descontrolado e um ódio absurdo da gente viver isso assim e ver pessoas próximas morrendo e passando fome. As cidades amanhecem com filas na Caixa Econômica para pegar a renda emergencial de R$ 600. Por que já não basta o sofrimento diário, tem que ser com requintes de crueldade até o fim da vida. Pobre precisa sofrer, né?

Não ser o Estado neste momento é absurdamente ruim. Eu queria ser o Estado junto com pessoas competentes. E cada vez mais entendo que é sobre isso, também, o que precisamos buscar em nossas novas utopias. A gente quer ser Estado, de novo, e ser ainda melhor, bem melhor. Ser grande e melhor.

Não dá.

Temos um governante totalmente fora de controle e que desenha a política do extermínio da população periférica, preta e indígena. Eu já falei sobre isso aqui, e não estou só: é só reparar (e ler!) o monte de artigo e análise, o monte de ação e... nada acontece.

NADA acontece e todo dia o número de mortes aumenta no país, e NADA acontece, NADA acontece, NADA!

E ao mesmo tempo, tudo acontece. O que pode parecer falta de ação, é uma ação genocida de quem escolhe o que faz e o que deixa de fazer, sendo presidente de um país.

Um presidente da república que nem de longe sabe o significado da palavra democracia. E assim o país caminha para a morte de milhares de pessoas e de uma democracia já em coma.

Como disse meu padrinho, no episódio da formiga, "Eu avisei" ou "Eu sabia". E antes que seja tarde, todos que apoiaram esse projeto precisam reagir, com urgência.

Meu texto da semana passada era sobre como meu fígado está. E em uma semana cansativa e desmotivada, quis gritar. Mas respirar também é importante.

No sábado peguei o telefone, liguei em casa, lá em Parelheiros.

Meu padrinho demorou, mas atendeu. Ele, como eu, odeia bastante falar no telefone - perda de tempo, né? Começamos com a parte burocrática da conversa.

- Oi pai, é a Mariana, tá bem?

- Eu sei quem é, vi no bina, Mariana.

- Tá bem?

- Tô ótimo, não sei bem porque tanto desespero. Sinto muito, continuo indo conversar com meus amigos e tomar uma cerveja no bar depois do almoço.

- Eu não liguei pra dizer nada, quero saber se você está bem. Hahaha. E pra pedir cuidado nas saídas e entradas em casa, poxa. É momento de se cuidar, né?

- (barulho com a boca que não sei definir e descrever, mas que ele faz desde que eu sou criança) Tá, que mais? Minha pressão tá ok, meu coração tá ok, saúde zerada. Coisas piores já aconteceram nessa casa e no mundo. Você sabe.

- Eu sei, pai. Mas o senhor já tem idade e eu sou chatona mesmo. É mais cuidado, não tô cuidando da sua vida. Ô pai, lembra quando eu pisei no formigueiro? E você brigou? Por que você tinha avisado?

- Lembro (com um tom de desconfiado). O que você fez? Pisou de novo?

- Nãoooooo. Não tem nem onde fazer isso aqui, né? Mas tenho pensado sobre o que você me disse antes e eu apaguei da cabeça para correr no quintal. Você pediu para eu usar o chinelo e tomar cuidado. Lembra? E depois mandou um "eu avisei". Então eu tô agora fazendo o caminho inverso e pedindo para você se cuidar, para eu não precisar usar um "eu avisei". Espero só usar "eu avisei" para os eleitores do Bolsonaro, pai.

- HAHAHAHA, ai Mariana. E você? Tá bem aí dentro da caixa de sapato?

- Tô, com saudade de vocês.

E por aí foi, mas rápido. Por que, lembra? Falar no telefone não é algo que gostamos muito.

Tá tão difícil.

Saudade das pessoas, do toque, do cheiro, de pisar na rua e circular. Posso escrever um texto inteiro sobre isso depois, mas que saudade de encostar em alguém, esbarrar sem querer e nos olharmos para um pedido de desculpa. Beijar alguém na boca e na bochecha. E do litrão no bar do Mauro.

Cada semana um sentimento, um olhar pra tudo, mas com a absoluta certeza de que precisamos de novas utopias e boas conversas, todas sem conclusões. O agora é sobre quem vamos conseguir salvar. O amanhã é sobre como estaremos se ainda existirmos aqui e sobre o que reconstruiremos.

Mariana Belmont