PUBLICIDADE
Topo

Mari Rodrigues

A não-binaridade posta em xeque

Bandeira Orgulho Não-Binário - Getty Images/iStockphoto
Bandeira Orgulho Não-Binário Imagem: Getty Images/iStockphoto

Mari Rodrigues

19/12/2020 04h00

Há alguns meses escrevi sobre o uso da linguagem neutra e também sobre as reações absurdas que este uso causa. Isso causou repercussões também no meu círculo de pessoas, quando um amigo me desafiou a convencê-lo a entender a não-binaridade de gênero, vista aqui como a completa abolição dos padrões de gênero, sob um viés econômico e do próprio direito. Argumentei e, sem sucesso, deixei a conversa para lá, pois seria dar murro em ponta de faca, e poderíamos facilmente nos ofender.

Corta para semana passada. Em avaliação de uso de cotas em uma universidade na Bahia, uma pessoa teve sua matrícula cancelada por ter usado de forma fraudulenta a autodeclaração como pessoa trans. E isso me deixou em alerta: a pessoa em questão disse que sua vida foi destruída e sua identidade invalidada.

Isso traz várias discussões acaloradas. Algumas pessoas travestis e transexuais colocam as pessoas não-binárias como "impostoras" de suas condições e acreditam que é apenas um subterfúgio para que pessoas "privilegiadas" mantenham opressões a pessoas realmente oprimidas. O que traz problemáticas questões. O que é ser trans? Há pessoas mais trans que outras? A pessoa não-binária é trans ou é outra categoria? O não-binário realmente existe?

Eu particularmente ainda não entendo muito bem essa questão da não-binaridade, mesmo conhecendo pessoas que se consideram não-binárias, o que me deixa bastante incomodada. Queria ouvir dessas pessoas o que a não conformidade de gênero causa em sua vivência, nas opressões que vive, não de uma forma abstrata, mas sim na prática real de vida. Porque é isso que vai importar para o restante da sociedade, que sequer deve saber o que é não-binaridade.

Trazemos também mais uma polêmica para a já polêmica discussão das cotas para pessoas trans nos vestibulares: como saber se as pessoas abarcadas por essas cotas realmente precisam delas ou estão apenas falseando uma condição para atingir um objetivo egoísta? A autodeclaração deveria bastar, mas uma avaliação constante da condição dessas pessoas que utilizaram as cotas deveria ser feita, para avaliar se essa condição de pessoa trans realmente a oprime e a coloca em desvantagem perante outras pessoas.

Desejo a todo mundo um feliz Natal, com muita comunhão e reflexão. Este ano foi bastante difícil e espero que o que passamos sirva de experiência para que o próximo seja vivido de forma mais segura e consciente.