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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Livro de Yamê Reis disseca o agronegócio agrotóxico do algodão

A autora Yamê Reis - Divulgação
A autora Yamê Reis Imagem: Divulgação
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

09/12/2021 06h00

A pressão internacional pelo corte de emissões de carbono pode fazer com que a produção brasileira de algodão abandone o greenwashing e busque a sustentabilidade real. É uma esperança que emerge da leitura de "O Agronegócio do Algodão: meio ambiente e sustentabilidade", da socióloga, designer de moda e professora Yamê Reis.

Fundadora do Rio Ethical Fashion, o maior fórum de moda sustentável da América Latina, e coordenadora do curso de Design de Moda do Istituto Europeo di Design no Rio de Janeiro, Yamê Reis está lançando em formato de livro sua tese de mestrado em Sociologia Política.

No trabalho, ela faz uma radiografia concisa e didática do sistema de produção do algodão no país, com informações públicas e oficiais e metodologia de análise das ciências sociais.

O livro mostra como a valorização do algodão no mercado internacional, que foi alimentada pela indústria acelerada do fast fashion na virada dos anos 2000, em todo o planeta, se refletiu no Brasil com a expansão do cultivo para o Cerrado, para prejuízo da vegetação nativa, da ocupação fundiária e do ecossistema do bioma.

A produção foi se concentrando cada vez mais nas mãos dos proprietários de terra que já cultivavam a soja. Conscientes de que era necessário ter parâmetros para a exportação, empresas do agro e associações do setor produtivo construíram um discurso de sustentabilidade socioambiental baseado em uma certificação (a BCI - Better Cotton Initiative) que não proíbe o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos.

Grifes, designers de moda brasileiros e todo o sistema de grandes eventos e semanas de moda compraram o discurso e ajudaram a difundir o marketing de uma agricultura que se anuncia como modernizadora e verde, mas que vem contribuindo para envenenar o solo, os rios e cristalizar um sistema não inclusivo no campo.

Vale lembrar que o Brasil é hoje o segundo maior exportador global de algodão e o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Os relatórios internacionais, segundo Yamê, mostram que o Brasil pulveriza mais agrotóxico que os demais produtores de algodão.

"A moda absorveu o discurso da sustentabilidade como verdade, sem nenhum questionamento. Acho que o greenwashing é a grande ameaça do desenvolvimento sustentável. Tem muita maquiagem, muito marketing, porque as empresas estão buscando financiamentos verdes. Querem dinheiro para continuar devastando", diz. "Nós como consumidores temos de estar muito atentos", afirma.

E como o país poderia ter um algodão realmente sustentável? Para a autora, há dois caminhos possíveis e não excludentes. De um lado, que as cadeias produtivas de grande escala reduzam o uso de agrotóxicos. Daí a esperança que a pressão internacional possa contribuir. De outro, que os grandes varejistas criem mercado para o algodão que vem da agroecologia, um modelo de produção que combina a cultura do algodão com o alimento.

Para que os grandes produtores cortem o uso de agrotóxico é necessário que a sociedade não tome o discurso da certificação como verdade e exija transparência. "O próprio BCI global contratou uma consultoria para fazer a contagem de emissão de carbono. O relatório mostrou que o Brasil gasta 17% das emissões em agrotóxico, muito mais que outros produtores de algodão", diz Yamê.

O relatório aponta que os agrotóxicos contribuem com 17% das emissões totais do cultivo de algodão, variando de 11% em Minas Gerais até 24% e 25% no Maranhão e Mato Grosso do Sul. A aplicação de fertilizante contribuiu com 15% do total das emissões, variando de 11% em Minas Gerais a 16% no Piauí.

"Com a COP26, as empresas estão tendo que se mexer para apresentar seus compromissos. Então, pela primeira vez, o BCI abriu os dados de quanto estão usando. E acho que vai pressionar pela redução", diz Yamê.

"É como está acontecendo hoje com a pressão internacional contra o desmatamento, que indica não comprar couro. Isso vai chegar no algodão", afirma.

Segundo a autora, no Brasil, as marcas ainda não estão fazendo a lição de casa. "Falta o primeiro passo. Elas têm de saber primeiro quanto emitem para poder criar políticas de redução. O que eu vejo hoje é um movimento para compensar, mais do que olhar para sua cadeia e reduzir, o que é um entendimento equivocado", analisa.

"Considero que o livro é uma pausa para refletir e trazer um novo olhar para o que é de fato sustentabilidade no setor da moda. Estava todo mundo feliz, falando que o algodão é sustentável e vem o livro e diz que o buraco é mais embaixo. Não podemos chamar de sustentável, porque não é", finaliza.

LANÇAMENTO

No sábado, 11, Yamê participa de lançamento coletivo no Museu da República no Catete, no Rio, junto com André Carvalhal, que lança "Como salvar o futuro", Fe Cortez com seu "Homo Integralis: uma nova história possível para a humanidade" e Giovanna Nader com "Com que roupa?".