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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Folclore brasileiro versus Literatura Indígena: entenda a diferença

Capa do livro "As pegadas do Curupira" - Reprodução
Capa do livro "As pegadas do Curupira" Imagem: Reprodução
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

25/08/2021 06h00

No dia 22 de agosto é celebrado no Brasil o Dia do Folclore. Esta data foi outorgada pelo decreto nº 56.747, em 1965, na Ditadura Militar, em alusão à carta de William John Thoms, publicada no dia 22 de agosto em 1846, que cunhou o termo Folk-lore, cuja etimologia traduz-se como conhecimento/saber do povo.

Buscando a identidade nacional brasileira na literatura, os estudos folclóricos se voltaram nos séculos 19 e 20 para narrativas consideradas populares e regionais com vistas a firmar a brasilidade da cultura nacional. Enquanto os corpos negros e indígenas eram assassinados nos séculos passados - e o são ainda hoje -, as narrativas, os seres, as propriedades intelectuais desses povos eram tomados como símbolos da nacionalidade do país.

Como eugenistas, Romero e Lobato defendiam o mito da democracia racial, isto é, a ideia de povo brasileiro formado pelas três "raças". O projeto colonizador previa o extermínio físico desses povos. Paradoxalmente, usavam a apropriação dos conhecimentos imemoriais negros e indígenas para forjar a identidade brasileira como produto das três "raças".

O estudo folclórico, já próximo das ciências humanas e sociais no país, graças a Mário de Andrade, ganhou fôlego na década de 1940, com a UNESCO que recomendou o estudo e preservação do folclore nacional. Para o país, isso significou a criação da Comissão Nacional do Folclore, na data de 1947. O desdobramento da Comissão foi a organização do I Congresso Brasileiro de Folclore, em 1951, em que participam Câmara Cascudo e Florestan Fernandes, cânones da academia e literatura brasileira. O documento resultante do I Congresso ficou conhecida como Carta do Folclore Brasileiro, onde se estabeleceu que o estudo do folclore era parte das ciências antropológicas e culturais.

Folclore e antropologia

No início do século XX, a antropologia insistia que os povos indígenas eram pré-modernos (tradicionais, daí a razão de eu refutar o termo), a-históricos, "categoria transitória", isto é, povos que na linha evolutiva da humanidade estavam no estágio inicial, mas com assistência do Estado, chegariam à civilização, ao posto de "integrados" à sociedade nacional, seriam, enfim, civilizados. A visão racista proporcionou ao Estado a desarticulação de sociedades e fomentou o ataque à identidade indígena que só seriam superadas juridicamente em 1988, com a promulgação da Constituição Federal.

O Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais, apenas em 1918 seria reduzido a sigla para SPI, criado pelo decreto nº 8.072/1910 foi a instituição responsável por acompanhar os povos indígenas na pseudo "transitoriedade". Roquette-Pinto, antropólogo, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Brasileira de Letras, Associação Brasileira de Antropologia, também era eugenista. A antropologia e a literatura caminharam para a formulação de tradição popular e oral, a partir dessa visão eurocêntrica e excludente.

As características do folclore, elencadas por Câmara Cascudo como antiguidade, persistência, anonimato e oralidade são espelhos das narrativas e saberes indígenas. Os povos indígenas, porém, foram impossibilitados de qualquer reivindicação autoral de seus conhecimentos e espiritualidades porque eram desprovidos compulsoriamente de humanidade e direitos civis. Quando a Carta Folclórica diz que o folclore é a "maneira de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular", ela está defendendo o sentir e pensar do povo brasileiro, definida como identidade dominante (de ascendência europeia), que não reconhece os indígenas e negros como autores das suas narrativas, espiritualidades e propriedades intelectuais, reduzindo-as à "tradição popular".

Na lógica do capitalismo, essa "tradição popular", do povo, é tomada por escritores (com afinidade ideológica colonizadora) que insistem no apagamento da autoria e das origens desses saberes. Tais obras publicadas como folclore reiteram a identidade nacional da literatura brasileira e sub-repticiamente o mito da democracia racial. Abdias Nascimento e Rodney William vão mostrar como tal apagamento e folclorização (muitas vezes demonização) das espiritualidades negras e indígenas vão alimentar no imaginário nacional o racismo contra eles/nós (indígenas e negros).

Literatura Indígena

Desde a década de 1990, com a conquista de direitos civis e as identidades indígenas, os escritores indígenas disputam por meio da narrativa as origens de seus encantados e de suas propriedades intelectuais. Na literatura indígena emergem obras que mostram a diferença nítida do pertencimento dos seres boto, curupira, saci aos povos indígenas. A seguir indico algumas obras que deveriam ser utilizadas de forma comparada na sala de aula e nos estudos folclóricos, para evitar a prática da história única, ou da identidade única na literatura nacional.

1 - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "Kumiça Jenó" de Márcia Kambeba
Imagem: Reprodução
  1. Kumiça Jenó: narrativas poéticas dos seres da floresta (Editora Underline Publishing, 2021), da escritora Márcia Kambeba, traz o Saci, Mapinguari, Curupira e outros seres desde a perspectiva indígena Omágua/Kambeba. Disponível em: Kumiça Jenó: Narrativas Poéticas dos Seres da Floresta.

2 - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "A cidade das águas profundas" de Darebu Manhuari
Imagem: Reprodução
  1. A cidade das águas profundas (Editora Melhoramentos, 2013), de Marcelo Manhuari Munduruku, apresenta o ser boto para além da mistificação do homem que se metamorfoseia em peixe e vice-versa engravidando meninas, mas a partir da crença do povo Munduruku nesses seres que tem humanidade, vivem em sociedade e ligação espiritual com o território do povo. Disponível em: Cidade das Águas Profundas - Marcelo Manhuari Munduruku - Livraria Maracá

3 - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "Ajuda do Saci" de Olivio Jekupé
Imagem: Reprodução
  1. Ajuda do Saci, de Olívio Jekupé (Editora DCL, 2006). A obra traz o encantado que pertence à cultura Guarani na contemporaneidade, mostrando por meio da literatura como a espiritualidade se mantém entre o povo independente do espaço e tempo em que vivem os indígenas guaranis. Disponível em: Ajuda do Saci. Kamba´i

4 - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "As pegadas do Curupira"
Imagem: Reprodução
  1. As pegadas do Kurupyra, de Yaguarê Yamã (Editora Mercuryo Jovem, 2008), defende que este encantado é na cultura maraguá um protetor da floresta, com pertencimento ao povo, com família, especificidades próprias. A obra sinaliza que a degradação da floresta é também a destruição da morada dos encantados. Disponível em: Livro - Pegadas do Kurupyra, As em Promoção | Ofertas na Americanas;

5 - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "Awyató-pót"
Imagem: Reprodução
  1. Awyató-pót: histórias indígenas para crianças, de Tiago Hakiy (Editora Paulinas, 2011). Aqui conhecemos a origem da cobra-grande para o povo Sateré-Mawé e a sua ligação com o território ancestral. Disponível em: Awyató-Pót: histórias indígenas para crianças - Tiago Hakiy - Livraria Maracá.

Plantando sementes

A literatura indígena é uma expressão dos povos originários. É a reivindicação da identidade invisibilizada no Estado-nação Brasil. No Brasil, estima-se que há 60 escritores indígenas, pertencentes a povos indígenas diversos, falantes de 274 línguas. Cada povo tem uma memória, história e ancestralidade. Tais valores irão aparecer na literatura indígena porque os escritores têm essa identidade coletiva. Para avançarmos numa democracia, nos últimos tempos mais ameaçada, é preciso cada vez mais reconhecermos a diversidade étnico-racial existente no país.

Percebemos que a política nacional conduziu a produção cultural brasileira, traduzindo suas mais perversas decisões. Nesse sentido, o folclore foi - e é - uma ferramenta de dominação cultural. Se o folclore é constituído de etnocídio indígena e negro, não podemos mais aceitar ingenuamente sua expressão literária na sala de aula. Urge uma educação étnico-racial na formação dos educadores e o estudo comparado do folclore com a literatura indígena e negra.

Quando defendemos o reconhecimento das identidades e literaturas marginalizadas, buscamos a reapropriação política, conceito formulado por Rodney William, que pretende ser uma resposta às opressões, ao poder hegemônico. A reapropriação política é a afirmação dos valores culturais como instrumentos de luta por direito e cidadania, tão caros aos povos originários.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, Sílvio Romero não foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo. Ela foi fundada após sua morte.
Ao contrário do informado anteriormente, Mário de Andrade não participou do I Congresso Brasileiro de Folclore, em 1951.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL