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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Zumbi, Marielle e a memória que se quer preservar

Paulo Lima, o Galo, criador do grupo Entregadores Antifascistas, luta pelos direitos do entregadores de comida - Felipe Larozza/UOL
Paulo Lima, o Galo, criador do grupo Entregadores Antifascistas, luta pelos direitos do entregadores de comida Imagem: Felipe Larozza/UOL
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

10/08/2021 14h02

Paulo Galo segue preso. Militante que se levantou contra a exploração dos entregadores pelas empresas de entrega por aplicativos, Galo de Luta, como é conhecido, organizou paralisações que mobilizaram não só os trabalhadores explorados da categoria mas consumidores destes serviços de entrega.

Foi por meio da luta de Galo que muitos ouviram pela primeira vez sobre a revolucionária possibilidade de organização dos trabalhadores contra a sua própria exploração e sobre como isto poderia se tornar potente mesmo diante da força monumental dessas empresas que os exploram até a última gota de sangue.

Galo e Thiago Zem seguem presos, acusados de atear fogo à estátua de Borba Gato no dia 24 de julho, em São Paulo.

A justiça brasileira me intriga. Borba Gato, representado por uma estátua de 13 metros de altura, materializa em si um fetiche colonizador, escravagista e dominador que encontra muitos ecos na sociedade brasileira atual.

O ataque a esta memória mobilizou de forma exemplar o aparato repressor do estado. O objetivo último é mostrar a todos em volta que revoltar-se não é bom.

Veja que há um zelo destemido que avança sobre a liberdade de pessoas que não representam qualquer risco para a sociedade. Assim, além de calar uma liderança que desponta contra poderosos, o estado e as classes dominantes calam, desmobilizam e enfraquecem qualquer grupo que ache manifestações como aquela razoáveis.

Para quem domina e explora, há uma memória pela qual se deve zelar.

Há três anos, Daniel Silveira e Rodrigo Amorim, então candidatos a deputado estadual e federal no Rio de Janeiro pelo antigo partido do presidente,Bolsonaro, arrancaram e quebraram a placa que homenageava Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de mil dias, num crime que segue sem solução. Uma homenagem tímida, quase singela, a uma mulher negra, lutadora, silenciada pelas balas de poderosos.

Saindo daqui, quando puder, busque por três palavras na internet: vândalos, estátua, Zumbi. Você vai encontrar dezenas de reportagens registrando as várias depredações sofridas por monumentos que contam a história de resistência organizada do povo negro no Brasil. Ninguém fica preso por isso.

Trata-se de uma luta violenta pela memória que se quer preservar. Contar a história também é forma eficiente de dominação das mentes e dos corações.

São mitos como o de Borba Gato que povoam nossas subjetividades. Não é a força organizativa e mobilizadora de Zumbi que nos inspira ao caminhar pela cidade. Não é a voz de Marielle que ecoa altiva dentro de nós. É Borba Gato quem nos domina, nos amordaça e nos mata. E ai de quem ousar queimá-lo.

Liberdade para Galo e Biu!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL