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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Greve geral e os caminhos de mobilização popular

Manifestantes levam bandeira em defesa de uma greve geral durante manifestação contra o presidente Michel Temer na avenida Paulista, em São Paulo em 2017 - Marcelo Justo/UOL
Manifestantes levam bandeira em defesa de uma greve geral durante manifestação contra o presidente Michel Temer na avenida Paulista, em São Paulo em 2017 Imagem: Marcelo Justo/UOL
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

29/06/2021 12h43

Parece inequívoco que uma nova cena política se desenha a partir dos últimos fatos ocorridos na CPI da Pandemia, em Brasília. Não bastasse o marco assombroso das 500 mil mortes e a agudização da fome e de outras tragédias sociais, as fortes suspeitas de corrupção no coração do executivo federal trouxe para o centro do debate público a suspeita de prevaricação por parte do próprio mandatário do planalto. Sim, o morador da casa de vidro, Jair Messias Bolsonaro, ao que parece, sabia e nada fez para evitar a compra superfaturada de vacinas sem comprovação de sua eficácia.

Como se fosse pouco, há também suspeitas de envolvimento do líder do governo na câmara, o deputado Ricardo Barros, nas negociações com a Precisa Medicamentos, empresa brasileira investigada por sobrepreço na venda de testes para covid. A Precisa intermediou a compra da vacina Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech.

Em 29 de maio e 19 de junho, os atos de rua pelo 'Fora Bolsonaro e Mourão', por vacina no braço e por enfrentamento à fome foram capazes de mudar o tom dos discursos e das práticas no tabuleiro antes apático e excessivamente paciente dos poderes e dos atores políticos. Com o novo cenário e a antecipação das próximas manifestações para o dia 3 de julho, os movimentos sociais e os partidos de esquerda que constroem as grandes manifestações de rua avançaram algumas casas e querem ir além. Querem e podem.

Diante de uma realidade de desemprego e superexploração da mão de obra, falar da construção de uma greve geral que mobilize trabalhadores em todas as regiões do país e gere impacto onde a burguesia sente (no bolso) pode parecer um desatino. Contudo, uma análise cuidadosa da conjuntura mostra que, sim, é possível.

Abrir esta discussão não significa menosprezar a desarticulação do sindicalismo brasileiro e a crise financeira dos sindicatos provocada pelo fim do imposto sindical. Considerar esta realidade é condição primeira para enfrentar os desafios que esta organização demandará.

A partir de 2015, o ajuste fiscal antipopular comandado por Joaquim Levy no segundo mandato da presidenta Dilma e as ações da Lava Jato dobraram a taxa de desemprego. Desde então, graças ao aprofundamento do ajuste fiscal, o desemprego segue crescendo. O sindicalismo sofreu duros golpes com a contrarreforma trabalhista e o ataque sistemático aos marcos legais de "proteção" do trabalho. A contrarreforma administrativa e o ataque ao funcionalismo público, pretende ser o golpe final no sindicalismo brasileiro.

Ocorre que, em abril de 2017, mesmo sob ataques e já experimentando taxa de desemprego semelhante à que vemos hoje, a classe trabalhadora brasileira conseguiu realizar uma exitosa paralisação nacional que envolveu 35 milhões de trabalhadores. Mesmo em um cenário desfavorável, a mobilização conseguiu atrasar em alguns anos a aprovação da contrarreforma da previdência. Fato é que uma grave geral exitosa foi organizada e construída em um cenário em que desemprego já batia na casa dos 12% e o movimento sindical seguia na defensiva. Lamentavelmente, porém, a mobilização não foi continuada. Na ocasião, as centrais sindicais optaram por realizar pressão parlamentar em Brasília e esfriar a temperatura das ruas.

Ensinamentos da greve geral de 2017

Aquela greve geral de 2017, foi possível por uma combinação de três fatores:

Primeiro, que houve um trabalho político direcionado para as categorias estratégicas do transporte (rodoviários, metroviários, etc.). Parado o setor de transportes, os outros setores param em sequência. E foi isso que ocorreu. Sem ônibus e metrô, os trabalhadores não chegam ao trabalho.

Segundo, que houve mobilizações de rua com os partidos e movimentos populares liderando trancaços (travando grandes rodovias e estradas) e impedindo o fluxo de pessoas e mercadorias.

Terceiro, que houve intensa preparação prévia para a paralisação nacional, a partir de debates, assembleias de categorias, ações de rua, panfletagem e divulgação nas redes sociais.

O cenário atual e os desafios para organizar a resistência hoje

O funcionalismo público e os trabalhadores assalariados das empresas estatais têm motivos de sobra para aderir a uma paralisação. Muitos já estão em greve ou em estado de greve, resistindo aos ataques privatistas do governo federal.

Os trabalhadores do transporte público nos centros urbanos estão expostos a altíssimo índice de contaminação, adoecimento e mortes por covid. Não bastasse estarem sem equipamentos de proteção adequados, dentro de veículos superlotados, em muitas cidades motoristas ainda assumiram funções de cobradores para reduzir custos das empresas. Uma situação que coloca todos em risco e representa uma piora significativa das condições de trabalho desta categoria.

Esses podem ser os dois núcleos centrais de uma paralisação nacional acrescida com a adesão conseguida no setor privado e outras categorias, como construção civil, comércio e serviços. Mobilizar e politizar essas categorias, combinando ações de trancaço, piquetes e barreiras em estradas, rodovias e pontos centrais dos grandes centros de circulação de pessoas e mercadorias. A paralisação nacional estaria armada.

Vale lembrar que caminhoneiros estão em profundo antagonismo com o Governo Federal. Sentem-se traídos, estão insatisfeitos com os aumentos constantes do diesel e não viram qualquer melhora de sua situação econômica desde a paralisação feita no governo Temer. Mesmo considerando as dificuldades em relação à configuração ideológica da categoria, não seria impossível conseguir a adesão desse segmento da classe trabalhadora a um movimento de greve geral.

Sim, caros leitores, parece mais fácil falar do que fazer. Contudo, acreditamos que o clima político do país, o crescimento das manifestações de massa, o aumento do cerco ao bolsonarismo, o derretimento da popularidade do presidente e os fatos políticos mais recentes apontam para a possibilidade de construção deste caminho político.

As manifestações são, ao mesmo tempo, um momento de mostrar forças e de acumular forças. A ideia central é reunir forças para ampliar a base de apoio ao "Fora Bolsonaro e Mourão". Foi isto que nos levou às ruas em meio a uma pandemia. Desde o princípio, frear o genocídio, enfrentar a fome e garantir vacina para todos foi o que nos moveu.

É preciso envolver mais trabalhadores e trabalhadoras, disputar as camadas médias da sociedade, ampliar a força dos atos nas cidades médias e pequenas e dar direcionamento prático para as manifestações para que a força da organização popular se converta em garantia de direitos e melhorias imediatas na vida das pessoas, especialmente daquelas mais vulnerabilizadas.

Esse direcionamento prático deve apontar três caminhos.

Primeiro, como já falamos em um texto anterior, construir um calendário de lutas com ações direcionadas a temas específicos, como a fome, o aumento do custo de vida e o desemprego. Sem calendário de lutas, atuando na lógica de pular de ato em ato, a luta popular pouco avança.

Segundo, começar a construir uma paralisação nacional. Um contra ataque do mundo do trabalho ao capital. Uma ação unida do sindicalismo com os movimentos populares, partidos de esquerda e movimentos de massa.

Terceiro, encaminhar a construção de uma marcha para Brasília. Construir um grande ato nacional, concentrando forças na capital e buscando pressionar ao máximo o Congresso pela abertura do processo de impedimento de Bolsonaro.

A ação combinada dessas três iniciativas, adentrando o mês de julho e sendo concluída em agosto, pode significar a ofensiva popular definitiva para enfraquecer esse governo e criar a correlação de forças para o seu fim. Está em nossas mãos fazer isso acontecer agora., não em janeiro de 2023.

Faltam dezoito longos meses para o fim do mandato de Jair Bolsonaro. Parar o escandaloso genocídio em curso, salvar vidas, dar um basta na destruição do Brasil e do nosso futuro é a tarefa que se impõe. É possível. Podemos fazer mais. E agora é o momento de ousadia e radicalidade. É momento de planejamento, de minucioso cuidado com a manutenção da segurança sanitária, de buscar e ampliar o respaldo de massas e de nunca esquecer o compromisso com a classe trabalhadora, o compromisso com a vida e o compromisso com o nosso país.

Amanhã só vai ser outro dia se começarmos a construí-lo no hoje.

* Este texto foi escrito por Júlia Rocha e Jones Manoel, historiador e educador popular

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL