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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma pausa para falar do meu pai

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

23/06/2021 06h00

Peço licença a você cara leitora, leitor, que me acompanha por aqui falando de outros caminhos para a construção de um mundo melhor, porque hoje eu vim falar do meu pai.

Não, não se preocupe. Ele está ótimo. Falo dele por que hoje é seu aniversário e eu quero que este texto chegue como um abraço bem carinhoso, lhe traga doces lembranças e lhe provoque um sorriso.

Meu pai é o Tonho. O Tonho da Tininha, já que onde ele nasceu todo mundo tem uma dona. O filho é da mãe, o marido é da esposa, e assim os vínculos são construídos e desenhados. Pra você ter uma ideia, lá na pequena Itapecerica, cidadezinha linda do centro-oeste de Minas, eu sou a Júlia - da Vanda - do Tonho - da Tininha - do Zé Rocha. Haja possessividade!

Desde criança nutro um certo orgulho de poder dizer em qualquer canto que eu sou filha do Tonho da Tininha. As pessoas abrem um sorriso e dizem: "Eu conheço seu pai. Ele operou fulano. Ele salvou Sicrano." Tem coisa mais gostosa? Tem não.

O Tonho da Tininha que eu tenho a honra imensa de chamar de pai foi o médico que me inspirou a lutar pelo SUS. Lembro de admirar sua dedicação aos pacientes de uma maneira que superava as obrigações do cargo. O telefone da nossa casa era o número que ele entregava para aquelas famílias com doentes graves. E, assim, eu o via atender o antigo aparelho vermelho que ficava ao lado da sua cama, ainda com voz sonolenta e, em seguida, cochichar para minha mãe. "Vou dar um pulinho ali na casa de um paciente que está precisando de mim."

Se arrumava cambaleando de sono e saía de madrugada dirigindo sua Belina barulhenta para emitir o atestado de óbito de algum paciente próximo ou para fazer as vezes de motorista de ambulância e levar alguém para o hospital.

Tenho uma prima muito querida que sempre que pode o agradece, pois nos idos de 1990 e poucos, era o Tio Toninho que a socorria nas suas piores crises de asma.

Meu pai também me ensinou a ser resiliente. Quando o diabetes lhe rendeu pontes de safena e um AVC, ele comprou uma bengala e com ela seguiu fazendo suas caminhadas diárias. Quando a visão prejudicada lhe impediu de estudar, coisa que ele ama fazer, meu pai comprou um abajur e uma lupa e seguiu lendo avidamente! Quando os passos foram ficando lentos, ele começou a caminhar no quintal ou de mãos dadas com a minha mãe na rua de casa. Quando não dava mais para caminhar até a banca do jogo de bicho, seu único e irremediável vício, ele logo conseguiu o celular do rapaz que fazia suas combinações e agora meu velho se gaba de jogar no bicho "online".

Com sua bengala ele joga bola com Gabi, a única neta. É certo que ele chama meus irmãos de preguiçosos já que mais ninguém quis encher a casa do vovô de criança. De um jeito amoroso ele resolveu essa escassez de netos adotando carinhosamente o neto alheio, enteado de minha irmã, que não é neto biológico, mas que depois de tanto carinho trocado e tanta insistência, também o chama de vovô Tonho e toma a benção.
Em tempos tão duros em que tantas pessoas sofrem pela ausência antecipada de seus pais, ter o Tonho da Tininha tão pertinho é um imenso privilégio. Ora rabugento, Ora cheio de graça, meu pai segue sendo pra mim um exemplo de solidariedade, de luta e de amor.

Esse ano não vai ter festa junina pra você, velhinho, mas me espere no quintal pra gente tomar nosso café. Amo você de um tanto que você nem sabe. Obrigada por ser o melhor pai e o melhor avô desse mundo.

Sua filha,
Júlia

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL