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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A dieta do ponto de ônibus

Emmanuel Pinheiro/Metro BH
Imagem: Emmanuel Pinheiro/Metro BH
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

16/02/2021 11h03

"Nossa, como você emagreceu! Tanto tempo que eu não te vejo. Quase não te reconheci."

Éramos três mulheres esperando o ônibus que nos levaria até o centro da cidade. A que chegou por último parecia ter uns trinta anos. A que se espantou com a sua perda de peso devia ter uns quarenta e poucos. Eu não conhecia nenhuma das duas, mas acompanhei a conversa muito interessada em saber o que viria.

"Conta como você conseguiu!"

Quem pedia a dica era uma mulher gorda, pele morena manchada de sol, cabelos curtos e enrolados. Roupa simples. Parecia um uniforme de alguém que trabalhava com limpeza. No ombro, uma bolsa de pano com uma logomarca desenhada. Eu tive medo do que ela ouviria da moça jovem que chegara, mas confesso que o desenrolar da prosa foi uma sequência de gratas surpresas.

"É que tem muito tempo que você não me vê, boba. Por isso você está espantada. Eu tô emagrecendo há quase 1 ano. Devagar. Sem pressa. Sem exageros."

"Mas você tá tomando remédio? Foi em algum médico? Me passa! Tô precisando tanto tomar vergonha na cara e emagrecer. Meu médico vive me xingando. Falou que, mais um pouco, ele vai me encaminhar pra cirurgia bariátrica. Nem tenho ido lá por que sei que se eu for ele vai acabar comigo por que não comecei a dieta que ele me passou."

"Estar gorda não é falta de vergonha, não, Claudete. Às vezes, o que a gente precisa é da informação certa. Eu não tomei remédio e não fiz nenhuma loucura. Eu fui tomando consciência devagar. Fui em uma nutricionista que atende lá perto do meu serviço."

"Então me dá a cópia da dieta que ela te passou. Tô apertada agora. Não posso pagar consulta."

"Não tem dieta, não, menina. Vou te explicar como eu fiz. Mas antes, me conta como que é a sua rotina."

Meu ônibus se aproximava e eu torcia para que fosse o delas também. Eu me levantei sentindo não poder acompanhar o desfecho do assunto. Caminhei até a porta e espiei com o canto do olho para ver se elas haviam se levantado. Era o mesmo ônibus das duas!

Deixei que passassem na minha frente para que eu não perdesse nada. A curiosidade matou o gato.

Elas seguiram e eu fui junto. Sentei ao lado.

Nessa brincadeira acabei perdendo parte importante desse enredo, a rotina da moça de uniforme. Poxa vida! Como médica de família, quase interrompi o papo pra pedir que repetisse. Como entender sua demanda sem saber sobre o seu dia a dia?

"Você pode começar entendendo se o que você come te faz sentir bem ou não." Sugeriu a moça mais jovem. "Escuta o seu corpo. Almoçou, comeu muita carne, muita gordura? Sente como você fica depois. Vai ajustando para se sentir bem. Tenta reduzir a quantidade e vê como você se sente."

"Entendi." Respondeu a outra com cara de muito interesse.

"Quando você descobrir o que te faz sentir melhor, e qual quantidade é suficiente, então você começa a acrescentar saladas bem variadas. Não alface e tomate todo dia. Coloca coisa diferente. Coisa que você gosta, que te lembra comidinha de casa. Couve refogadinha, farofinha de cenoura, almeirão, chuchuzinho refogado, moranga."

"Adoro essas coisas."

"Depois você começa a fazer uma ginástica que você gosta. Eu tô fazendo caminhada. Por isso eu não tenho pegado ônibus essa hora. Também comecei a fazer ginástica de um aplicativo que baixei no meu telefone. Esse aqui."

E mostrou a tela do celular.

Era uma mistura de ciência e acolhimento. Cuidado com a alimentação, evitar produtos industrializados, manter-se ativa, fazer coisas que tragam bem-estar e prazer. Isso é a base de qualquer boa orientação para o cuidado de qualquer pessoa. Na correria alucinada das consultas, nós profissionais de saúde mal temos tempo de ouvir sobre a rotina de cada paciente. Não sabemos quais são suas dificuldades e suas possíveis saídas. Via de regra, acabamos dando orientações que não levam em conta a singularidade de cada indivíduo.

Ao final da conversa, Claudete, a ouvinte interessada, agradeceu e disse que ia se organizar para caminhar na ida para o trabalho. Na despedida, disse olhando pra mim.

"Quando eu posso escolher o que eu quero comer, tudo fica mais fácil. Eu consigo me organizar e seguir o que planejei. Quando tiram da gaveta aquela dieta que oferecem pra todo mundo, sem saber se aquilo cabe na minha vida, eu sinto é raiva."

Em um mundo com menos dietas, com menos produtos ultraprocessados nas nossas refeições, com mais tempo para cozinhar, com mais contato com os alimentos de verdade e com uma vida mais ativa, seguíamos mantendo um peso mais saudável e que nos trazia menos problemas.

Em um mundo cheio de restrições, dietas, publicações sobre emagrecimento, conhecimento científico sobre obesidade e seu tratamento, cirurgias para redução do volume do estômago, treinamentos funcionais, medicamentos redutores do apetite, estamos cada vez mais incapazes de lidar com o aumento de peso da população e suas consequências.

Talvez estes sejam sinais de que devemos falar menos de grelina, colecistocinina, leptina, técnicas cirúrgicas e hipnose para falar mais de soberania alimentar, redução da jornada de trabalho, direitos trabalhistas, tempo livre, cultura e lazer.

A dieta do ponto de ônibus parece promissora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL