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Júlia Rocha

Feliz dia das mães

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

29/11/2020 10h44

Todo mês de maio repetimos que dia das mães é todo dia, mas parece que só lembramos disso em maio. Então, hoje eu queria falar da minha mãe. Durante os últimos meses, tenho tentado alertar sobre desigualdades, riscos, injustiças agudizadas pela pandemia, mas hoje eu quero pensar sobre aquelas mulheres que estão falantes e alegres nas cozinhas de suas casas e que seguem recebendo a família uma ou duas vezes por semana para o almoço de domingo ou o café da tarde dos dias úteis.

Como alguns leitores aqui sabem, eu sou médica de família e isto significa estar sentada na primeira fila da vida. Antes que as coisas saiam nos jornais eu já costumo tê-las visto em consultório. E é por isso que preciso contar a vocês que nossas mães estão caindo. Uma a uma, estão buscando a ajuda de medicamentos para dormir, antidepressivos e analgésicos para as tantas dores musculares que cuidar dos outros traz.

Não imagine que falo isso de forma ríspida ou mal educada. Eu estou calma. Não quero te colocar contra a parede. É apenas um alerta. Nossas mães estão esgotadas, e pasmem, já normalizaram isto. E se já sentem que é normal, não veem motivo para pedir ajuda ou reclamar.

Na última semana, uma paciente muito querida, daquelas que se gaba de manter os pintinhos debaixo das asas todo domingo e que sempre deu conta da casa e do pelotão inteiro, como ela mesma costuma dizer, caiu. Chorou, pediu remédio para dormir, anti-inflamatório para a dor nas costas, remédio para a ansiedade e disse estar no seu limite.

Ainda nos últimos dias, outra paciente, dessas vovós que a gente trata feito mãe da gente, disse que "melhor seria morrer desse vírus" pois não queria mais seguir sozinha em casa com o marido que a cerceia de falar o que deseja, de fazer o que bem quer e até de escolher o cardápio do almoço que ela própria vai fazer. "Mas ele nunca me bateu." Dizia, querendo justificar o que não tem razão de ser.

São muitas as mulheres que nunca falam sobre isso com os filhos, com os netos, mas chegam em pedaços em nossos consultórios. Eu me peguei a pensar se eu mesma, conversada que sou, dou espaço, tempo e atenção verdadeira para que minha mãe conte o que está se passando com ela entre um almoço de domingo e outro. Descobri que não.

Estamos convivendo de forma superficial e formal com mulheres que nos apoiaram a vida toda. Elas, com seus sessenta e muitos anos estão fisicamente cansadas. Já trabalharam muito, cuidaram de todos e agora estão limpando casa, lavando roupa, preparando as refeições, lavando a louça absolutamente sozinhas.

Hoje é domingo. Avise sua mãe que você e seus irmãos vão levar o almoço pronto. Depois de comer, quando bate aquele sono gostoso e todos levantam da mesa pensando no melhor cantinho para tirar aquela soneca, lembre-se que o mesmo sono que te pega também chega para sua mãe. Junte todas as vasilhas, lave, seque e coloque tudo nos armários. Guarde os alimentos nos potinhos e coloque tudo na geladeira. Varra o chão. Limpe o xixi do seu cachorro e sente-se no quintal para conversar com sua rainha. Deixe que ela fale. Não interrompa. Não julgue. Não critique. Não queira se justificar. Não queira impor suas soluções. Só escute. De verdade. Com interesse genuíno.

Mais tarde, passe um cafezinho fresco. Corra na padaria, compre um bolinho e um pão de queijo, chame sua rainha para tomar um café. Seja melhor para ela hoje. E daqui por diante. Por todos os domingos.