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Júlia Rocha


O corpo flácido de uma mãe e a estética do não humano

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

12/07/2020 14h06

Sem grandes pretensões, rolava a tela do celular num daqueles intervalos raros do trabalho no posto de saúde, quando subitamente, uma mulher me afrontou. Ao ver a foto dela e do filho ainda com meses, parei o tempo e revisitei meu corpo de mãe. Ela, uma amiga querida, linda como sempre, feliz com o filho nos braços, o sol, um sorriso largo, uma banheirinha de plástico cheia de água e sua barriga. Intacta.

Em uma fração de segundo, a foto se tornou a foto de sua barriga. Não mais me importava o sorriso da amiga querida e a sua satisfação em poder passar a manhã ensolarada com o filho no quintal da sua casa. Pra mim, era uma afronta pessoal. Uma afronta a uma pobre mãe flácida cuja barriga segue impublicável três anos depois de parir.

Voltei a cena com a ponta dos dedos, ampliei a imagem buscando os defeitos, até poder ver seus poros. Todos perfeitos.

"Como é possível?" Perguntei em voz alta enquanto ampliava, com a lupa de enxergar os meus defeitos, todas as marcas que gestar minha pequena me deixou. Embora pareça, o sentimento que me invadia não era a inveja. Era a culpa. Outra vez a culpa. Igualzinho lá atrás, quando, horas depois de parir, me vi nua na frente de um espelho. Lembro de perguntar ao meu companheiro que me trazia o que comer: "Anotou a placa desse caminhão que me atropelou?

Ele sorriu e falou, poético como sempre: "Besta!!"

Minha história com o meu corpo de mãe começou antes de engravidar. Das incontáveis vezes que examinei o abdome flácido e marcado de estrias de outras mulheres mães, sempre pensava no quanto elas deviam estar arrasadas por carregar aquelas marcas. Levou um tempo até eu enxergar que elas tinham mais o que fazer, como por exemplo tentar ser feliz diante da realidade duríssima de uma periferia.

Antes, eu achava que aquilo era um imenso problema para uma mulher. Talvez por que eu via meu corpo como uma moeda. Achava que era com ele que eu podia comprar amor, sexo, respeito social e outras coisas. Quanto mais próximo de um padrão meu corpo estivesse, mais ele valeria e mais amor eu poderia comprar.

Grande parte da tristeza que eu sentia ao olhar meu corpo de mãe no espelho era a de pensar que, com aquele corpo daquele jeito, eu poderia comprar menos amor, menos reconhecimento, menos prazer. Não ter o corpo de antes me deixou mais pobre de felicidade.

Das maiores certezas daquele tempo, a de que eu faria uma ou várias cirurgias para consertar o que a vida havia estragado era a maior de todas. Definitivamente, não dava pra ser feliz carregando o fardo que aquilo representava. O peito, a bunda, as coxas, a barriga. Diante do espelho, havia muito a ser corrigido se eu quisesse comprar, com o meu corpo de agora, a vida que eu tinha antes. Eu precisava pagar caro para assim poder deitar minha barriga estragada numa maca fria de um centro cirúrgico, onde homens me apagariam para que, em seguida, outro homem, com sua lâmina de corrigir corpos, de padronizar gente, de consertar erros, de amputar histórias, retirasse de mim qualquer vestígio de tudo que eu vivi por nove meses.

A espera virou um peso imenso. Com minha filha ainda bebê, eu calculava várias vezes ao dia: "Vou amamentar dois anos, enquanto isso junto a dinheiro da cirurgia, o dinheiro para poder ficar um dois meses sem trabalhar, o dinheiro das coisas que eu vou precisar comprar para a recuperação, o dinheiro de pagar uma outra pessoa para nos ajudar com a casa e com a filha e enfim vou me submeter a uma cirurgia ou quantas forem necessárias para voltar a ter o corpo que eu tinha antes." Nunca o amei como ele merecia, sempre o achei inadequado, gordo e barrigudo, mas o queria de volta com todas as minhas forças.

Na busca por amenizar a tristeza que eu sentia ao me olhar no espelho, estive em uma maca de um consultório no centro da cidade. Era um procedimento extremamente doloroso que me fazia suar e tremer de desespero mas que prometia melhorar o aspecto das estrias que tanto me incomodavam. Foi ali, deitada, me contorcendo com a aquela dor que fazia o meu trabalho de parto parecer um passeio no parque que eu ouvi as palavras da linda moça que me torturava consentidamente:

"Logo que pari, meu marido foi embora e me deixou com meu filho e um corpo horroroso. Eu vendi tudo que eu tinha pra pagar a cirurgia da barriga e do peito."

Eu ouvi aquilo como quem se ouve. Era ela que falava mas eu me senti novamente no espelho. Sua última frase ainda me chacoalharia ou me reviraria mais:

"Você sabe, né? Não dá pra voltar pra esse mercado de paquera com um peito caído e uma barriga daquela."

Era isso. Eu perdi minha moeda. Meu corpo já não valia mais o amor que eu queria ter, a admiração que eu desejava inspirar, o encantamento que eu sonhava despertar. Era um corpo marcado, estragado, destruído, que aguardava conserto.

Nunca mais voltei lá. Era um avanço? Sim! Eu me recusava a sentir tanta dor novamente mas eu seguia me culpando por ter engordado 12 e não 8 ou 9 quilos na gravidez. Parar de tentar corrigir o corpo foi só um capítulo dessa história. Eu queria voltar a gostar de mim, a me achar merecedora dos carinhos que recebia e inclusive queria acreditar que se eu quisesse um dia voltar para o tal mercado dos afetos não precisaria amputar parte do meu passado pra isso.

Essa minha história não tem um fim. Não, ainda. Um fim que diga: então, chegou o dia que ela se amou, amou seu corpo flácido de mãe, ignorou essa estética humanamente impossível que sequer existe em alguém real, e foi ser feliz.

Tenho olhado para o meu corpo com mais ternura e amor. Tenho percebido como essa ideia de competição entre mulheres sustenta um mundo de opressões, de consumo e de insatisfação contínua, que gera mais consumo, mais opressão e nunca acaba. Vivo hoje a beleza de não me cobrar um corpo que não condiz com a minha história. Um corpo que criou dentro de si uma pessoa e depois a amamentou nunca será igual ao que era.

O rolar das minhas fotos se tornou uma sucessão de ângulos bons e ângulos ruins, dias bons e dias ruins. Aos poucos, se achega uma consciência singela, pueril, de querer sorrir sem cobranças, de querer aceitar a pele como ela é hoje, mole, flácida, de me amar muito hoje e gostar só um pouco amanhã. Um olhar que às vezes revisita a possibilidade de uma cirurgia pra depois dizer: nem a pau.

Meu corpo de mãe me conta uma história. Eu quero tê-la toda em mim. Por que eu acho a minha amiga linda, mas me acho linda, também.

Júlia Rocha