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Imagina se você engravidasse agora?

Grávidas, gravidez, gestação, maternidade, parto - Getty Images
Grávidas, gravidez, gestação, maternidade, parto Imagem: Getty Images
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

06/04/2020 09h25

Se o título desta coluna deu frio na barriga, corre aqui para a gente conversar. (Aviso: A autora não recomenda a leitura deste texto por mulheres grávidas.)

Em meio a tantas incertezas e a uma expectativa real de sobrecarga do sistema de saúde no país prevista para os próximos dias, semanas ou meses, é razoável que todas nós mulheres repensemos nosso planejamento familiar e nossos sonhos de uma nova gravidez. Precisamos desta breve reflexão sobre os métodos contraceptivos que usamos ou que não usamos mas gostaríamos de usar. Estamos falando de um momento de crise econômica e sanitária sem precedentes na história recente, e isso deve, no mínimo, nos chamar a reconsiderar alguns fatos.

Começam a surgir relatos de casos de adoecimento grave e mortes em mulheres gestantes e que recém-pariram. Até este momento, não havia evidências de que este grupo era de maior risco para desfechos ruins na Covid-19. Há bem pouco tempo, acreditávamos que mulheres em uma gestação de risco habitual estariam sob o mesmo risco que mulheres não-gestantes. Mesmo neste contexto de dúvidas e ainda necessitando de mais dados para fazer recomendações mais fortes, ao redor do mundo, diversas sociedades médicas de ginecologia e obstetrícia manifestaram preocupação e sugeriram um adiamento destes planos. A preocupação chega por outros motivos.

Nós simplesmente não sabemos com precisão qual será o cenário da assistência à saúde no Brasil em dois ou três meses. Haverá escassez de exames, de profissionais? Haverá tranquilidade para se deslocar para clínicas e postos de saúde? Haverá aumento da violência urbana secundária às desigualdades? Haverá fácil acesso às unidades de saúde capazes de atender mulheres com complicações que podem ocorrer durante a gravidez?

Para quem ainda não entendeu o que eu quero dizer, basta imaginar o que é ser uma mulher no meio de uma gestação de alto risco na Itália ou na Espanha de hoje.

Minha intenção aqui não é criar alarde. De forma alguma! Quero apenas provocar esta reflexão. Para algumas mulheres, estas orientações podem soar descabidas. Elas não estão de todo erradas. Trata-se de um cenário de incertezas. Pode ser que tudo seja manejado com mais tranquilidade do que prevemos, não sabemos. Porém, para algumas mulheres, isso pode fazer muito sentido, sim.

Além dos casais que estão tentando e vão decidir parar de tentar ter filhos, existem as mulheres que não querem nem pensar em uma gestação neste momento. E com as recomendações de sociedades médicas de que é prudente repensar e adiar tais planos, é importantíssimo que a responsabilidade e o peso deste planejamento não seja colocado, como tradicionalmente é, nos ombros da mulher. O SUS e os serviços privados de saúde precisam pensar em formas de garantir acesso aos métodos contraceptivos, principalmente os de longa duração, conhecidos como LARC. Entre eles, o DIU de cobre e o de progesterona que tem índice de falha muito baixo e duram de 5 a 10 anos.

Sabemos que em qualquer crise, seja ela econômica, sanitária ou política, as primeiras a terem seus direitos cerceados somos nós, mulheres, em especial, as negras e pobres. E é por isso que venho aqui, inspirada por iniciativas de outras colegas médicas feministas brasileiras para abrirmos este debate. Como faremos isto no SUS? Como garantiremos a todas o direito de planejarem sua vida reprodutiva? Como reduziremos índices de gestações não-planejadas? Isto é seríssimo. Mulheres protegidas destas situações poderão cuidar melhor de si e dos seus, terão renda familiar per capita maior. Isso reduz pobreza! E tudo que não precisamos agora é de um agravamento da vulnerabilidade social das nossas populações mais pobres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.