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Fred Di Giacomo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você sabe o que é uma literatura de(s)colonial? Entenda em 10 pontos

A escritora Carolina Maria de Jesus - Acervo UH/Folhapress
A escritora Carolina Maria de Jesus Imagem: Acervo UH/Folhapress
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

21/09/2021 06h00

Raro leitor, rara leitora, depois de combater o bom combate desde o começo de 2020, essa coluna vai tirar suas férias e volta à ativa no começo de dezembro. Fico feliz de ter entrevistado grandes nomes de nossas artes nesse meio tempo, sempre procurando autores com raízes fora dos grandes centros econômicos, dando uma mapeada no que melhor tem se produzido ao redor do nosso Brasil.

Enquanto passo uma temporada "fechado para balanço", anoto aqui algumas reflexões que surgiram dessas entrevistas, pensando como podemos declarar nossa independência cultural e produzir uma arte descolonial por esses tristes trópicos:

1) A literatura de(s)colonial não é geracional, já existe nos romances "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves, e "Habitante Irreal", de Paulo Scott, no pensamento de Eliane Potiguara e Daniel Munduruku, nas escrevivências de Conceição Evaristo e na poesia de Miró.

2) O de(s)colonialismo não é um fenômeno pós-moderno, começou com o cacique Hatuey e o primeiro arawake que matou um dos invasores genocidas espanhóis liderados por Colombo.

3) Narciso está nu: todo autor/a branco/a que se identifica como de(s)colonial deve entregar as chaves e abrir todas as portas dos castelos, mansões, editoras, revistas literárias, feiras, prêmios e imprensa especializada para autores não-brancos.

4) Existe uma pretensão épica e uma preocupação em explicar/contar o Brasil nestas literaturas.

5) Brasil profundo é oposto ao Brasil raso. Brasil raso de Bolsonaro e de uma autofelação urbana, rica, sudestina e escrita dos mesmos para os mesmos

6) Toda literatura é regional. Toda região é centro.

7) Religiosidade popular, realismo mágico, prosa poética, violência estética, perspectivismo, polifonia, protagonistas marginalizados, não-humano, pós-humano; de(s)colonialismos.

8) A literatura de(s)colonial pode flertar com o cânone europeu, mas incorpora no mesmo status de grandiosidade a literatura oral, as gravuras, as cantigas, as espiritualidades e liturgias, o cordel, os gêneros híbridos, os quadrinhos, o xamanismo e as formas de comunicação que traduzam as almas dos seres viventes.

9) Há de haver nome melhor para tal literatura.

10) Um médium psicografou a presença espiritual das seguintes figuras em páginas recentes Umusï Pãrõkumu, Carolina Maria de Jesus, Guimarães Rosa, Stela do Patrocínio, Machado de Assis, Tia Ciata, Glauber Rocha, Oswald de Andrade, Maria Firmina e Graciliano Ramos.

P.S. Deleuze e Guattari que me perdoem, mas que toda literatura "menor" seja apenas literatura. E o que outrora foi chamado (grande) literatura seja reconhecido com alicerce do colonialismo cultural -- só acredito em um Kafka que saiba dançar. Volto em dezembro!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL