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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Viver é uma arte de quem vive (Amaélia - parte 4)

Viver é uma arte de quem vive  - Victor Balde
Viver é uma arte de quem vive Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

25/07/2021 06h00

Viver é uma arte de quem vive

Quando você estiver bem, mesmo que seja na merda, continue de bico calado.

Quem tá na merda não canta!

Ao dar seguimento na saga, não me demorarei muito na própria gestação dado que: Estas conversas com Amanda aconteceram durante mais de 10 anos, todas ali num novo tempo.

A sombra da nossa própria liberdade, ocupando espaços lindos e racistas pela cidade. Uma vizinhança que nos tolera nos seus cafezinhos patriarcais.

Porque ao contrário de suas famílias falidas, quatrocentona, nóiz pagamos pelo café que tomamos.

Inóspitas e medrosas de perder seus lugares.

E pra qualquer entendimento sobre a gestação de 1988, vide os autos, o menino venceu a vontade abortiva da vizinhança. Vencemos ali toda a dor de nunca ser entendido. A dor é uma viagem pra dentro da gente. O medo é um farol que apaga e cresce. E eleva o sentido a algum lugar tentando salvar casa e corpo. Sabe o que é isso?

É a existência dizendo: Enfrente-os, o que eles têm é medo que você os enfrente.

Aborta mulé, aborta!

Você já tem problemas demais, e além do mais, olha quanta gente que tem dinheiro e não deu sorte na criação de filhos.

Que tipo de gente você acha que vai dar uma criança que tem como exemplo seu Jeremias e uma mãe como tu?

Jeremias preguiçoso, notívago era sim.

Mal pai não era, parecia mais outro filho, tanto que não dava bronca e nem punha reparo em nenhuma reinação.

Adorava se fazer de besta, tirar o corpo fora.

Dizer pras crianças, isto é com sua mãe, o que ela resolver tá feito.

Uma vez a menina chegou em casa dizendo que brigaram com ela na escola, ele foi lá tirar satisfação.

- Fia minha ninguém bate!

É desta pessoa que estou falando, sem dinheiro, guloso, sem perspectiva de vida, sem afeto, jamais.

Ele na verdade era um sonhador, gostava de fazer baile e dançar, virou alcoólatra quando não conseguiu ir além.

Eles podem ter este pai, que pai a gente não escolhe, mas pai nem pode deixar de ser,

marido pode.

Nunca vou criar um filho pra ser inimigo ou virar bandido. E não vou deixar que façam a eles o que fizeram comigo, esta é minha luta.

Dorinda Hafner, uma escritora africana, diz em seu livro Sabores da África que:

Nunca conseguiu entender porque as mulheres mais novas tinham direito ao amor e as mais velhas nem tanto.

Mas entendia o porque cada uma tinha um posto de rainha no comércio, no mercado, era pra não passar necessidade.

E por não ter direito ao amor do país e dos homens, principalmente na velhice, ela amava ainda mais.

Era a solução que ela tinha, eu sou como essas mulheres.

Entregar seu amor de corpo e alma aos filhos é o que lhe resta e cada uma o fará do seu jeito.

Assim são todas as mulheres no Ataliba, todas.

Por esta razão orientam as meninas a ter um ganhame já muito cedo pra nunca passar necessidade.

Ermi Panzo diz que de onde ele vem as mamas são sagradas, e em caso de precisar de socorro não há um nome de santa caucasiana que substitua o nome de mama.

Chamar pela mama é invocar uma linhagem materna extensa que compõe toda mulherada junta.

Quer força maior que um clã inteiro de mamas?

É o mesmo que tá vendo a gente aqui na vila.

Mas entre o hoje e o futuro tem um fator importante que é a espera, viver demanda tempo.

E a cada dia será preciso vencer demandas, sair de baixo das cobertas, lugar de conforto, e enfrentar o mundo lá fora com suas opiniões contraditórias, suas negações, todos os seus senões.

Viver não é fácil e nunca foi coisa de gente fraca e sem propósito, e embora Amaélia fosse desacreditada como filha caçula, pra dentro de si ela era altiva, ativa e resolvida, ela sabia que poderia fazer muito.

Só não sabia como, por enquanto ficava alí introspectiva.

Como poderia tirar as ideias de dentro de si e oferecer ao mundo? A escola rejeitou a sua escrita, como aceitaria sua arte?

Esperava ajuda, mas ali no Ataliba muita gente esperava ajuda também.

Pra dentro dela tinha uma voz que a elevava e a estimulava a seguir tentando.

Todo mundo encontra o seu caminho, ache o seu atalho e siga.

Uma mulher capricorniana tem a força da perseverança como guia.

Só acredita na mudança do mundo pela força do trabalho, fé, amor e graça.

Sua racionalidade sempre foi surpreendente desde a infância. Com cinco anos ela conseguiu mostrar a Xica que o convento não era lugar pra ela, chegou a querer morrer se não voltasse para o seu amado quintal.

Tanto que o médico disse a Dona Xica:

- Esta criança toda vez que acorda do surto entra em choque, se vê uma freira, ela precisa ir pra casa, se a senhora não fizer nada eu adoto ela.

Foi aí que Xica juntou a bichinha e a trouxe para casa, e só então acho eu tratou de recolher os outros destas malditas casas de criança enjeitada.

Naquele tempo todo mundo dizia que era preciso deixar todos lá. Como alguém pode ser tão mau cuidado e ficar são?

E ser gente, no entender de muitos, nem era ter profissão, era ser rico, famoso, ser escritor nunca que era ser gente.

Com raiva dela porque ela ficou pouco tempo no cativeiro, os irmãos implicavam com ela, diziam que ela foi achada no lixo.

Eles mudaram o olhar da mãe dela em relação a ela.

A família aumentou, e desestabilizou a vivência da criança que achava que era única.

Mas ela nunca havia pensado em abortar, e sabia que não seria fácil, achava cruel matar alguém que estava sendo gerado dentro dela.

Foi assim que fizeram com os sonhos dela todas as esperanças que ela tinha.

Deram-lhe um bofetão nas costas da vida e ela abortou todos os sonhos.

E o pouco que lhe restava do amor estava ali agora a virar uma ferida, aberta e porejante, asfixiante a doer sem razão.

Dentro dela o amor estava machucado, ainda titubeava entre o ir adiante e abortar ou... No dia que saiu pra ir a clínica, teve uma conversa íntima consigo mesma e no caminho gastou o dinheiro. Desenterrou.

Lembrou de mulheres que morreram tentando abortar. E de outras que nunca mais puderam ter filhos, ficaram doentes do útero.

Em cada casa uma sentença, debaixo de cada tapete ali, um segredo que ela sabia porque enchiam a roda do poço e a sala de lágrimas e raiva.

E ali mesmo naquela casa, rua, vila, ela já havia sabido e vivido formas de abortar.

Ao ter em suas mãos o par de sapatinhos tão miúdos encontrou força e propósito gigante pra enfrentar o que tivesse que enfrentar, que viessem.

E tirou forças de si mesma e de seu erezinho.

COMO ela mataria alguém que já tinha nome e tudo.

Mas, e se acaso tivesse outra eclâmpsia?

E se novamente fosse parar numa UTI como já tinha acontecido, nisto ela nunca havia pensado,nem era coisa que pudesse prever.

Mas ninguém vence uma guerra sem lutar. Assim sendo, não abortaria, viveria até quando deixassem, foda-se.

Era ali o fundo mais profundo da desumanidade que sentia, misturado com esperança em dias melhores.

E entre um desgosto e outro, um pensamento sublime, que nome ele teria?

Culpa de Rosa de Dona Adelaide, ela tinha um Evandro, terrível que só.

Amaélia sentia este nome vibrar feito um timbre de sineta tibetana toda vez que ouvia Rosa chamar o filho.

Mesmo quando não sabia se ele viria, nem se seria ele ou ela, o nome já ecoava de dentro dela.

O que o espírito plantou e preparou pra nascer nunca será Egun antes da hora.

Pagula senhora do seu destino vamos pagar pra ver nascer este Ere. Que todo mundo há de ver esta criança nascer e lhe dar muito orgulho.

Mas antes ela vai precisar de defesa, eu sigo por aqui, a força está com você.

A falange estava formada. Era a chegada dos caboclos na vida dela, protegendo seus Erês em sonho.

Ela ainda estava com o axé Abalado e não percebia.

- Tenha fé minha fia, antes que você imagine seus filhos vão voltar pra você, todos eles. E quem levô vai trazê, vai fazê o favô de devolvê na sua porta.

Que criança nunca foi moeda de troca. E cativeiro não cria, maltrata.

Ouviu estas palavras dentro do silêncio dela, numa noite em depressão.

Acordou no auge do desespero, tinha feito uma besteira, dormiu por vários dias.

Tinha hora que a covardia atentava, ela não dorme nem deixa.

Teria que perder o medo e enfrentar quem fosse pra continuar viva e seguir.

Ainda que toda Ataliba, Seu Jeremias e as más línguas indagassem quem era o pai, uma única resposta cabia.

- Eu sei quem é a mãe, pai pode ser inclusive qualquer um.

Num mundo de luta e briga ninguém tira foto, já imaginou, a gente nunca tá vestido de festa quando está em guerra.

A gente maltrata a terra e quer colher fartura plantando usura, se vinga nas crianças e nas pobres criaturas.

Pra depois tentar resgatar um pobre e acabado adulto.

A GENTE PRECISA APRENDER VIVER DIREITO.

Se quem devesse a ela pagasse, ela poderia sumir da vista deles e ir ter o filho noutro lugar.

Assim que a depressão passasse, mas depressão sempre vai e vem.

Depressão gosta de cama e de silêncio, ela é grande e fria, a pessoa atacada por ela quer se levantar mas ela coloca a patona na cabeça da pessoa e olha com olhar frio e não diz nada.

Deixa que a tristeza ou ódio corroa a pessoa por dentro até ela se acabar ali na solidão.

Ficou dias sem tomar banho, sem comer, sem sair de dentro de casa, sem saber como faria.

Quando acordou deste sono profundo o astro rei não alumiava seus dias.

Estava confusa, tonta, saiu a procurar quem a pudesse ouvir pelo menos.

Foi a farmácia, tinha um farmacêutico que consultava as pessoas de graça.

Chegou e sentou-se num banquinho para não incomodar.

Nem precisou falar o que sentia, ele foi o enviado da tarde pra tirar ela da letargia.

- Não sei qual o seu problema, minha filha, que lhe causa tanta aflição, mas vai passar, tenha fé, aguarde e confie na sua própria força.

Aplicou-lhe uma massagem nos ombros que estalavam rijos, fazendo barulho, depois deu-lhe algum dinheiro, sem ela pedir e disse pra ela comer algo.

Em toda sua vida, nas horas de maior desespero, sempre aparecia, e aparece, alguém pra lhe dar a mão, sabe o que é isso?

É a existência, é a mão de Yansã, são os ventos de mudança.

Às vezes, uma única vez, aparece, faz a obra e segue, é sempre assim.

É sua mãe maior sendo seu guia, até quando esteve em coma já foi visitada por alguém que dizia que ela não poderia ficar ali, precisava voltar.

Parou de contar esta estória quando percebeu que estavam querendo estudá-la num manicômio, silenciou, guardou pra si, era a sua verdade.

Não há mal que sempre dure.

Amaélia tem ânimo forte, é feito bambu, enverga mas não quebra.

Assim como entrou em depressão, saiu. As pessoas nem lembravam que ela existia mesmo, poderia até ter morrido.

Assim que se fortaleceu, arregaçou as mangas e foi à luta. Ela é como uma planta, se deixarem ela cresce.

A primeira coisa a fazer foi encontrar um advogado, isso foi um dilema, três tentativas, três advogados negaram seus direitos e uma única pessoa que a encorajava era uma pessoa que nem a conhecia, o médico do pré natal.

Ela fez o que sabia fazer, brigou com todo mundo como sempre.

Afinal de contas, bem medido e bem pesado, ali todo mundo tinha seu telhado de vidro, suas contas a acertar, não com ela, com a vida.

Viver tem lá seus dilemas, parece que amor pra gente sempre vinha vencido.

Por isso o que mais tinha e tem no Ataliba e no mundo é homem reclamando de mulher e mulher reclamando de marido.

Amaélia também conhecia estória.

Povo de santo, povo de igreja, povo de forró de feira, taxista, vendedor de carne de porco, mascate, todos têm dilema.

Assunto era o que não faltava. Bom mesmo é andar na cidade, onde todo mundo é feliz. Ali na cidade as pessoas andam de cá pra lá e ninguém sabe quem é quem. E cismavam de resolver tudo com sermão, oração e dureza.

Nesta época nem se rezava mais o terço e nem a salve rainha como antigamente.

Diziam que o céu é longe, mas o inferno é mais, sete cabo de machado depois do fim do mundo.

Com madeira de goiabeira.

- Será se Xica chorava se ela morresse?

Quem rezaria pra Amaélia caso o pior acontecesse?

Será que se ela morresse iria pra o céu? Amaélia não gostava muito de paz, gostava de festa. Uma mulher tinha que ter seus direitos de viver a vida caramba!

Não era a primeira vez que ela teria que correr para buscar seus direitos sempre rejeitados.

Uma mulher negra sem emprego, separada e grávida, quem ajudaria?

Mas não devia quase nada a quase ninguém. Sonia, a prima da Dejanira, sua amiga, foi morta pelo marido com o filho dentro dela e ninguém achou que ele estava errado. Parece que ela esqueceu de pôr sal na comida, perdeu a vida.

As voltas que o mundo dá, as voltas que o mundo daria.

A voz de dentro dela dizia: este jogo vai virar.

Ela só sabia esperar, e lutar.

- Quem te cuida não dorme!

Guarde esta estória pra contar, nenhum dos inimigos ficaram sem resposta. Os filhos foram devolvidos e o patrão teve que indenizá-la por ordem do juiz.

A defesa dela foi linda, feita por um ser enorme que não a conhecia, era Yansã de vigia rodeada de velhos ancestrais.

Ela teve medo do ex patrão brigar com ela no fórum, mas ele nem podia falar com ela.

É sempre bom na hora da agonia procurar ajuda com quem pode ajudar mais. Tomar distância e dar um passo e olhar o problema de longe pra entender.

Se quem a conhecia maltratava, pessoas estranhas lhe abriram os caminhos.

Nunca foi sorte, sempre foi Exu.

A derrota mesmo foi ter que aceitar Jeremias em casa porque ela teria que ir parir a criança em fevereiro e alguém precisaria ficar com as outras crianças.

E teve que fazer um buraco no quintal e esconder ali o dinheiro que recebera pra ele não achar, nem ele nem ninguém. Ela sabia que seria difícil se livrar dele, e foi.

Jeremias ainda morou na casa dela por mais um bom tempo, até ela conseguir se livrar dele de vez.

Desta vez sem cheiro no cangote, sem toque, sem nada.

Dona Zefa estava certíssima, nesta cilada ela não cairia mais.

Bem que o danado tentou e quis brigar pra não sair, ela teve que apelar pra polícia.

Mas não conseguia se livrar das ciladas das congregações, saia de uma e caia noutra.

Depois que ela saiu do motel foi aceita novamente, na casa do senhor, mas quem disse que aquele lugar a deixava contente?

Iniciou processo no fórum para tratar de divórcio e tentar uma possível pensão, foi perda de tempo.

A luta no fórum foi inglória e durou muito tempo, mas Jeremias durou menos.

Seu Jeremias nasceu e morreu na mesma data, dia de Cosme.

Amaélia recebeu a notícia da morte dele numa festa, inclusive, Seu Sultão da Mata veio trazer o recado.

Foi a primeira experiência em cuidar do enterro de alguém.

Para além do vazio que fica a burocracia tem ainda o eco das palavras mal ditas em outras horas, um arrependimento imenso varre a alma da pessoa porque toda pessoa morta merece respeito.

Não pode mais se defender de nada. Um dia numa contenda, Amaélia queimou a mala dele onde ele guardava os documentos e por um triz ele quase que ia enterrar como indigente.

Pense num arrependimento tardio, foi a última vez que ela entrou numa igreja.

a vida é esquisita. Uma solidão imensa fez com que ela sentisse falta dele dias depois de sua morte.

Ficou sozinha no hospital com Evandro que precisou operar, pensou: Servia para quase nada, mas se estivesse vivo estaria aqui comigo agora.

Dois anos já haviam se passado, o dinheiro que ela tinha estava se acabando. Já havia algum tempo que um sonho visitava ela dizendo: Você precisa de um serviço seguro e registrado.

Ali todos sempre trabalharam com vendas, era um trabalho inseguro. Cansou de perder mercadoria para o comando e vivia com medo. Não sabia como investir e o único recurso seria ter um registro em carteira para ter um direito a aposentadoria caso algo acontecesse. Enquanto tentava, seguia vendendo, ora tempero ou doces, roupas ou até mesmo fazendo faxina.

Pensou por que não voltar a estudar? Porque sim, porque não, Dona Xica FICOU UMA ARARA. Depois vieram outros enfrentamentos, e em tudo que ela se aventurou teve que bater de frente, cada hora com alguém.

Para voltar a escola precisou de documentos, teve que enfrentar um grande fantasma, voltar a escola que a expulsou, a velha Cassio.

Lembrou aquele dia terrível de sua saída, lavou tanto banheiro ali, foi tão prejudicada, mas agora era passado, pegou seu documento e seguiu seu caminho.

Agora defender seu corpo estava nas suas mãos. Pelo menos a merenda agora era melhor que antes, não era ração, era frango com arroz e era muito bom.

Diziam muito que mulher nova só ia a escola pra namorar, era verdade também.

No ano seguinte, muita gente dali voltou a estudar também, ela abriu caminhos. A luta continuou.

O sogro tentou receber a pensão que o INSS lhe concedeu, dizia que ela não tinha juízo para lidar com dinheiro.

Agora que bem medido e bem pesado, após a morte de seu Jeremias, ele passa a contribuir com o pão dos filhos, o avô queria.

Terminou o fundamental em 1993, entrou para o curso de técnico de enfermagem e ouvia: Vai estudar, mas vai continuar na miséria!

Sair da ignorância já era sair da miséria.

E encontrou na escola um monte de gente que sonhava em dias melhores estudando como ela.

O EMPREGO REGISTRADO em 1994!

E desde então o sonho silenciou.

A vitória de ser recebida numa grande empresa depois de ter ficado tanto tempo sem trabalho registrado sendo viúva e com 4 filhos menores.

Era 1995 foi promovida!

Seguiu estudando, concluiu o segundo grau, conheceu a mitologia grega e a literatura.

E o segundo marido.

Pra voltar a estudar ela fez um sacrifício, esqueceu de cuidar de si.

Comia muito pouco e isso abalou a sua saúde.

Ela viera de um lar de mesa farta, mas pobre em entendimento, ela tinha fome de valores.

Dez anos de dureza fez com que ela buscasse alimento até no lixão.

Era pecado jogar comida limpa no lixo. Quando trabalhou no motel recolhia restos de comida que as pessoas não comiam. E nem era tanto por fome, era porque não conhecia pizza, palmito, churrasco a grega.

Ficava boba como alguém jogava uma comida tão rica fora. Até levava pra casa, um dia encontrou uma camisinha em cima da comida, aí nunca mais levou, jogava tudo fora mesmo com dó.

Do jeito que era fértil, era bem capaz de comer esperma na pizza e engravidar, e ter dois tomatinhos em rodelas e meia dúzia de azeitonas pretas. E virar outro tipo de puta.

Estava terminando o segundo grau e se preparando para prestar vestibular para letras.

Mas o corpo estava meio maleitoso e ela pensava que fosse canseira.

Em breve tiraria férias e descansaria.

Até que um dia as pernas fraquejaram, ela não conseguiu se levantar, seu futuro era incerto, ela não foi trabalhar.

Amaélia

-Leia a parte 1

-Leia a parte 2

-Leia a parte 3

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL