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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caminhos (Amaélia - parte 3)

Caminhos - Victor Balde
Caminhos Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

18/07/2021 06h00

Parte 3

Será que é amor?

Por que eu sei que é amor,

Mesmo que você não esteja mais aqui, o amor está em mim mais vivo, diz a música na voz do poeta.

A meu ver Amaélia estava feliz e ciente.

Muito jovem, sem nenhuma experiência boa sobre o amor, já se sentia excluída sem saber bem o porquê.

Amor pra ela durava segundos, antes de nova tragédia, já essa durava.

Pra ela tudo exigia um grande sacrifício pra recompensa pouca.

Não se sentia nem amada e nem acolhida por suas religiões, por seu país, pela comunidade, tampouco pelos homens.

Vivia uma relação precária com a família que sempre dizia uma frase que lhe queimava no ib:

- Não merece, mas carece. Seja negro mas não haja como um negro.

Você nunca vai ganhar para o próprio sustento.

Além de lhe tratarem como uma criança.

Restava-lhe ali então tomar para si os cuidados das jóias que Deus lhe deu, a filharada.

Mas a experiência feita era ainda muito pobre e insignificante.

Havia desejado tanto num passado nem muito distante.

Teve um bom dinheiro que pensava em comprar uma casinha ou abrir um comércio, mas emprestou a sua irmã.

Baseado neste dizer familiar que ela nunca sabia o que fazer com o próprio dinheiro.

A irmã prometeu pagar e nunca pagou.

Mais uma vez amarrou o dinheiro no cabo do viado e soltou no mato, até ontem.

E só algum tempo depois Amaélia ficou sabendo que ali no quintal todo mundo sabia, até sua mãe.

Sempre dizia por onde passava que Amaélia, não queria nada com nada.

Amaélia cansou de brigar e discutir, mesmo porque a irmã tinha uma lábia e sempre estava tirando proveito das fraquezas dela.

Com consentimento dela que pleiteava a amizade desta irmã.

Que lhe saía muito caro, lhe custou casa, comida e quase a própria vida.

Era muito doloroso pensar no porque fizeram isso com ela, ela teve que ir morar de favor, porque nem a família gostava dela, por que?

Que gosto levavam em prejudicá-la e por que ela nunca aprendia, por que?

O tempo fecha todos os ciclos e ninguém fica devendo nada a ninguém.

Com este ciclo fechado, tem recebido em casa essa mesma irmã, chorosa sem ter onde morar, pedindo a ela que ajude.

Sem nunca ao menos se desculpar pelo que já lhe fez sofrer, ela sempre disse que fazia tudo por amor.

É estranho as reviravoltas que o mundo dá, dá pena, mas não sou mais...

E novamente é a mesma estória, briga de família.

Isso é briga de cachorro grande, eu sou cachorro miúdo e dos bem vira lata.

Era ainda muito jovem, vinte anos, estava na base da montanha da sua vida ela não odiava amar, de jeito nenhum ela estava confusa com o sentimento, com a vida toda.

Seu companheiro não havia honrado a relação como ela honrou e isso a feriu.

Ela estava doente de amar sozinha.

Por que as pessoas não gostavam dela?

Levaria muitos anos pra ela perceber que era porque ela pensava diferente, ainda pensa.

Resolvesse sua questão com a auto estima, religião, economia, família. ATÉ SUMIRIA.

Sabemos que isto demanda tempo, conhecimento, força de vontade, perseverança, não existe atalho para aprender viver ou melhor cada atalho importa.

É preciso ajuda pra isso ser menos penoso, é bem difícil que uma pessoa faça algo pra alguém só pela cor de seus olhos lindos.

No transcorrer da vida ainda acreditou outras vezes, só se ferrou, por esta razão levou vinte anos pra ter uma casinha sua, e quase a perdeu pra mesma pessoa e ainda foi criticada.

Ela se achava louca, porque não se dava com a própria família, e nem sabia explicar.

Mas não é impossível.

Este período da vida dela parece muito com o conto do sapatinho vermelho.

Em que uma garotinha muito pobre, mas com uma intuição imensa, aceita ir morar com uma senhora que promete cuidar dela, e destrói seus sonhos.

Em troca tira dela tudo o que ela considera importante, inclusive seus sapatos.

Aí ela encontra os sapatos vermelhos encantados e os calça.

Ela desobedece às ordens da senhora, da igreja e da comunidade.

E o sapato encantado se vira contra ela.

Amaélia subiu na carruagem de Jeremias cheia de propósitos.

Calçou os sapatos da esperança em dias melhores que não vieram em sete longos anos.

Ainda que tivesse pago sua conta levando uma vida chorona, pra sempre haveria de tentar.

Era um trato dela consigo, com seus sonhos.

Amaélia ainda desejava que o amor existisse.

Havia saído da casa de sua mãe cheia de marra e planos, a idéia era que, agora livre, poderia fazer o que bem entendesse e mostraria a todos, ficaria rica.

Mas por onde começaria?

Pra ela era até pecado querer um outro homem que não fosse o marido, ela pensava como a sua comunidade pensava.

Pois que nem preparada pra casar fora.

Fora criada pra servir, e levava a vida a sonhar, ela fazia planos e as pessoas faziam planos pra ela.

Havia casado sim, uma vez, mas não era esposa.

Era um bem que o marido arrebatara na mão de sua mãe ou um estorvo.

Para educar, botar freio, Amaélia dava murro em ponta de faca, jogava pedra no trem.

Tentava alcançar as nuvens, até invejava passarinho.

A mãe já tinha dado como caso perdido, entregou a um psiquiatra e depois deixou ir ao destino e ao marido, alguém haveria de entender e dar jeito.

Ela sonhava e escrevia, as pessoas zombavam dela, a escritora de meia tigela.

Mulheres assim precisavam ser detidas, domadas.

Podiam cegar toda uma geração de mulheres sem coleira, soltas e mal acostumadas

Até pros comprimidos Dona Xica apelara.

Amélia era uma peça rara, até tinha um bom coração.

Mas na roda da vida não obedecia, não dobrava.

Era mulher e queria escrever, queria raciocinar, dar palpite, ter ideias.

Coisas que só ao macho era permitido e ainda por cima sustentava o marido.

Ficava trancado em casa ou nos botecos todo dia quando ela ia trabalhar.

Ela que provia o pão de cada dia.

Ela e somente ela, sabia onde o calo ardia.

Mas não podia falar porque era pecado reclamar.

Era praticante e congregava no seu culto, o padre falava: tenha paciência minha filha. Obediência Amaélia, ela que abre a porta do céu.

Ruim com ele, pior sem ele, era a regra maior.

Agora, ali, diante de um caso novo.

Ela estava tomada, não sabia, mas já estava, Amaélia só via os olhos dele. E mais nada.

Amor é uma força tão forte que quando chega, destempera, descabela, mexe com os instintos.

Balança o coração até de quem não tem nada a ver com isso.

Magine o rebuliço dentro do pião nas partes que não se toca.

E tanto que parece que o povo nota.

Zefinha, um dia, disse assim:

- Minha fia, sente aqui, não vou mentir, esse cabra num tira os olhos da sua casa. Dia deste fiz cigarro de 200 gramas de fumo, piquei, embrulhei, colei e guardei na latinha, lambendo um por um, isto leva tempo viu. O dia já dava no meio quando eu cansei de reparar, um olho no fumo e o outro no danado. E ele não cansou de olhar Isso minha fia é uma paquera, ou essa véia num ia falá. Pode virar os lençóis Amaélia, o amor em sua vida vai deixar de zangar. Oh! Minina que Xica não me ouça, deixa o moço entra , o oio dele tá buscando o seu. E tudo o que se leva da vida é ser amado e amá. A chance tá batendo na porta, ele já gosta de você. Só falta cê pará de cismá. Este é o sinal que Jeremias perdeu o trono, seu coração tem outro dono. Não tenha medo e não deixe esta oportunidade passar, sem tirar proveito. Do seu jeito reaprenda a amar. Amaélia, só quem ama tem história pra contar minha fia. Não fuja por medo de não dar certo.

Vai ter tempo que você vai querer e não vai ter, Jeremias passou. Proveita, esta é a passagem do seu cometa, viaje. Este olhar é um eclipse. Sabe quanto tempo demora pra lua dar volta no céu e se encontra. Então escuta o que tô dizendo, faz as pazes com o amor, nem que seja pra brigar de novo. Vá minha fia, amores ruins ainda são melhores que nada, finque o amor na sua estrada.

E o danado não tirava o olhar daquela direção. Mas ali na rua não tinha só o olhar de Zefinha.

Mas como acreditar nesta senhora mesmo com os saberes que ela tinha.

Amaélia viveu a infância dela todinha vendo Dona Zefinha passar fome, pedia esmola para dar de comer a seus quatro filhos, e ela vivia com seu suposto amor que também nunca trabalhava e maltratava ela.

Na cabeça de Amaélia a pergunta era: Será mesmo que ela sabe o que é ser amada?

Já uma outra vizinha também aconselhava.

- Amaélia, cuidado que Jeremias te acaba a alegria minha fia, se tiver força de rezar, reza que a tentação vai lhe abarcar. Você tem família.

Na família de Amaélia, todo mundo namorou, viveu seus amores até.

Mas sendo a caçula, ela tinha excesso de proteção e quando se tratava de homem a família dizia: Com você não, por isso a colega lembrava.

Nunca se esqueça que seus inimigos estão em seu quintal e em todo lugar.

E ainda tinha uma ameaça, de por qualquer questão, vir a viatura e levar as crianças da mulher mau falada embora pra nunca mais.

Cuidado com a ameaça de seus filhos serem recolhidos pela igreja ou pela polícia a mando de alguém. Cuidado, cuidado, cuidado.

Aconteceu aqui no Ataliba vários casos da viatura levar os filhos de alguém embora e a pessoa enlouquecer.

Xica contava que quando o pai morreu foi assim, diziam que mulher preta não sabia criar. Criava errado e levaram embora os três filhos mais velhos, sem dizer pra onde.

Ela teve sorte de encontrar os irmãos de Amaélia em Itápolis a dez horas de viagem de São Paulo.

Eles estavam num convento, trabalhavam lá desde criancinhas pra comer, ela brigou por eles por muito tempo.

Um dia teve permissão de trazê-los pra casa e nunca mais devolveu ao estado, mas tinha medo, isso é fato.

Esta pessoa não estava errada, estava enciumada, mas não era má não.

Nossa caminhada já teve de tudo, até comer no mesmo prato se precisasse.

Devia muito a ela que já a ajudava a ver a vida de forma mais humana.

Mais tarde brigaram por causa de macho, um bruto que não valia uma cerveja, depois riram muito de suas ranhetices, depois ela se tornou evangélica.

Amaélia não tinha como fugir.

A flecha atirada pelos conselhos acertou em cheio.

O estopim da bomba estava aceso, agora era esperar viver e ver em que ia dar.

O grande estágio da vida tinha que continuar.

No dia que a lua encheu encontrou com os olhares.

Amaélia tremeu e se rendeu, por que não?

O coração ligeiro do viajante forasteiro bateu juntinho ao seu.

O coração frágil dela amoleceu, era carente.

Cupido acertou em cheio, e naquela noite em diante ela contava as horas só pra ver o olhar do outro dentro do seu olhar. Olhava, e olhava, e olhava.

Agora era declarado, ela queria ver, sentir e fugir.

Foram dias e dias assim, ela tinha medo? Tinha. Tinha vontade? Tinha.

Queria chamar a salve rainha mas não conseguia, se perdia nas falas, queria que viesse amor, mas só um pouquín.

Porém Jeremias não a deixaria viver outro amor, até mesmo a vizinhança não permitiria.

A cada dia que passava o rapaz dava um passo pra dentro da menina dos olhos de Amaélia.

Minina, mesmo um amor fraquinho é melhor que a solidão.

E o que levaria da vida, só tristeza e difamação.

O bem te vi dizia pra quem quisesse ouvir.

Vai Amaélia, vai Amaélia, e voava.

Ele agora estava inteiro, entrava certeiro bem no meio de todo seu coração.

Um dia Amaélia caiu em si, quando arrumando um quarto ouviu chuva de prata com Gal Costa.

"Se tem luar no céu, retira o véu e faz chover sobre o nosso amor", recado dado.

A vida é uma grande escadaria cheia de quartos lindos por iluminar.

Amaélia teria que entrar no castelo, subir as escadas e ir até o lugar onde ela tinha medo e acender a luz.

Que importava aqueles quartos tão bonitos, a música tão maravilhosa a brincar com o coração dela?

Que adiantava os passos que a seguiam, os olhos que a engoliam se ela não era mais livre?

Seu coração estava pra amar, que fosse num quarto lindo de hotel ou...

Se caísse novamente em outra cilada não se levantaria.

Caiu de joelhos ali mesmo naquele quarto de hotel e entregou o coração em orações e disse a Deus: Se me livrar desta provação, juro que volto pra igreja, volto usar saia comprida, deixo fora da boca os palavrões.

Eu estava lá velando as horas dela, segurando seu coração na minha mão, e sofrendo junto com ela, porque meu coração estava no coração dela e este dizia: Mentira, mentira, mentira, mentira, mentira, mentira, mentira.

Amaélia rezou, ou melhor tentou, ela trazia consigo o terço de quando era filha de Maria na igreja.

E a forma como aprendeu a rezar em cada velório e em cada comemoração.

Era verdade, o bom cristão a casa torna, e se a vida era um calvário, ela estava pronta.

Mesmo quando ela estava na igreja, ela nunca estava, sempre estava ausente.

Amaélia nunca havia aceitado esta vida, seria uma tortura voltar, e ela nem acreditava que Deus a quereria infeliz. Precisou de reforço pra fazer este esforço.

Lembrava dos casos de amigas suas que foram mortas pelo ex marido ou namorado por motivos até menores.

Ela tinha filhos, meu Deus ela havia jurado de joelhos com os olhos vermelhos que nunca mais, nunca mais.

Mas Amaélia não acreditava piamente nesta falsa verdade.

Por esta razão implorava a Deus: Senhor livre-me dos homens, cesse em mim essa vontade. Faça com que meu corpo pare de pulsar, cale meu coração, vede os caminhos por onde eu tiver que passar. Não sei fazer isso sozinha, mas não quero mais pecar, sofrer outra vez, nem ser morta por tentar. Prometo de novo que se desta eu sair ilesa,

pisarei na brasa da fogueira de São João descalça. Viverei de joelhos em pura contemplação.

Amaélia detestava isso, pisar na brasa, contemplar sem sentir, foi o que a fez sair da igreja.

Agora mentia que faria exatamente aquilo, devia muito em promessas, assim feita às pressas, sem pensar.

Ta bom vamo esperar.

Aí veio a rotina, os quartos deixavam de ser novidade, tanto faz se fosse 27 verde ou 56 amarelo, Amaélia queria estar em casa quando amanhecesse e ver o olhar do homem proibido pelas frestas.

Não sabia ainda se queria ou não queria. Queria, mas não podia.

Sentia vontade, inveja e despeito.

Ela sabia que aquele olhar era pra ela o fim da obra.

Pronto seu novo amor ia embora.

O asfalto estava quase concluído, ela estava indo à missa todo domingo.

Estava virando a própria cruz de pessoas que ela sabia que amavam, como ela não tinha coragem de assumir.

Criando uma capa escura e sem luz, a capa dos sem amor.

DEIXANDO DE SER INGÊNUA PRA SER FUNDAMENTALMENTE RÍGIDA.

Conversando com uma amiga tentando contar e não conseguia.

Assim ela seguia com coragem e com medo, agora este era seu segredo.

Abria o portão toda manhã com os olhos fincados no chão.

Era preciso ser forte, TER RESIGNAÇÃO, amor não.

E tanto que se cobria de reza e prometia sacrifício.

Seu ib travado, quase fechado, seu pulmão sem ar.

Teve um dia que esqueceu de olhar e se sentiu pelo céu protegida, e se esqueceu de rezar.

Nem fazia menção às brasas de São João que jurou pisar.

Rezava, pedia distância, pra se afastar de algo que não queria se afastar.

Mas Deus de verdade Amaélia.

Torce pra que cada um de seus filhos um dia encontre o verdadeiro amor sim.

Ela sabia que a água é mole e a pedra é dura. Tanto bate até que fura, o olhar do seu futuro amante furou a barreira do tempo.

E eram favas contadas pra história nova começar.

E Deus seria mentor e testemunha.

Naquele domingo de tarde Amaélia estava sem as crianças e aproveitou para conversar, para distrair.

Nunca havia tomado uísque, foi a primeira vez, a cabeça ficou zonza e as pernas bambas, ela resolveu ir embora, em casa ela estava guardada.

Chegando bem ali na porta de sua casa tinha um caminhão.

Ela foi entrando, quando ouviu seu nome, era ele.

Ela reconheceu pela voz, mas era domingo dia de folga.

Sorrindo, dizendo boa tarde, era a sua metade.

Ao que ela respondeu, meio sem querer, sem tirar o olhar do chão.

Um riso sincero que ia de canto a canto da boca, um riso feliz vindo do ib.

Como se cumprimenta alguém que faz seu sangue ferver e você tem que fugir dele.

A bebida foi conivente com ele, não deixava ela lembrar a oração.

Ele o caçador e ela a presa, a senhora rainha tigresa .

Sem a alegria que sentiu, ela não teria dado o próximo passo, eu acho, mas ele deu.

Ele pegou sua mão bem forte e disse baixinho: Levante esses olhos minha rainha, meu coração ja é teu.

A mão se entregou no instante, e o pensamento errante, nem conseguia pensar.

Ela sabia que tinha que dizer algo, mas o silêncio não a deixou falar.

Toda vez que relembro sinto os fogos queimando dentro de mim como se fosse hoje.

Foi com certeza um grande amor, amores menores não valem uma canção.

Nunca mais sua vida foi a mesma, axé.

O tempo mostraria a ela novos caminhos, mas primeiro seria preciso dar o primeiro passo e assumir formas de amar, errar, acertar, sentir saudades e deixar ir.

Ninguém aprende só se olhando no espelho.

E sempre haverá novos amores pra dar seu pontapé nas novas etapas.

E sempre haverá dor.

E sempre haverá saudade.

E sempre haverá pausas de solidão.

E Clarisse Lispector vai sussurrar ainda muitas milhares de vidas enquanto ela viver.

Mas amar eu posso até a hora de morrer.

O mundo me espera e eu vou ao seu encontro.

E por mais que tenha passado já trinta e tantos anos, ainda assim muitas vezes o medo a tomava, mas ela seguia mesmo assim.

Aqui a beleza tomou posse da vida dela em fortalecimento e ela viveu pra ver que Deus ama, que nóiz amemos.

A carga fica leve.

Mas nunca pra sempre.

No meio deste amor vieram outras descobertas.

Caramba, não era possível que a felicidade duraria tão pouco.

O corpo dela havia dado sinais de mudança, mas ela nem havia notado, estava tão feliz com a descoberta, tudo se acabou.

Ela não estava tão só quanto pensava, ela estava grávida do quarto filho, uma gestação avançada.

Agora devido aos fatos ela precisaria provar que o filho era de seu Jeremias.

Como ela torceu para que não fosse, mas a conta não batia.

Ela se arrependeu de ter dito a ele que se vingaria dele, porque foi isso que pareceu.

Nunca uma frase poderia ter sido usada contra ela, dita numa situação, e agora assombrando o seu futuro e presente.

Em 1988 morreu um grande apresentador, afundou um barco cheio de artistas, mas os olhos e as línguas estavam miradas pra ela.

Ela estava novamente sofrendo as dores e as delícias de ser o que se é.

E como era de se prever, a família usou isso como motivo para piorar a situação.

Tirou dela as crianças, aí como Deus não alivia, ela perdeu o emprego por causa da gestação, mesmo sendo proibido por lei, mesmo já estando lá a seis meses.

Agora desempregada e só, tudo voltava à estaca zero, bem no fundo do poço.

Nem sempre quem te põe na merda é seu inimigo.

Nem sempre quem te tira dela é seu amigo.

Amaélia

-Leia a parte 1

-Leia a parte 2

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL