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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amaélia

Amaélia - parte 1 - Victor Balde
Amaélia - parte 1 Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

04/07/2021 06h00

Parte 1

O ódio como tempero

Uma vida num dia em 1989


Eu te amei, como quem ama um mito, acreditei que poderia ajudá-lo a mudar.

Escolhi você pra subirmos juntos a montanha da vida, apesar de toda gente me apontar seus defeitos, que eu achei que o amor consertaria.

Mas você zombou de mim, cuspiu no meu afeto.

Atirou uma pedra no peito que era sua morada, e mesmo assim tentei perdoá-lo.

Ai pra me ferir ainda mais, você se voltou contra meus filhos, que eram seus também.

E eu te avisei que o dia que eu resolvesse me vingar de você, o diabo iria sentar pra assistir e você duvidou.

Ainda bem que nunca tive coragem, mas o tempo foi em minha defesa.

A voz dentro de mim me dizia que você passaria.

Um escrito revisitado numa manhã, em 2017.

AMAÉLIA


Vínhamos subindo a Rebouças, pós hemodiálise, dia deste, Amanda e eu, lembrando de amores antigos, ciladas.

Jogando papo para o ar, a gente sempre fazia isso pra alegrar a subida.

Amanda se encantou no mês passado, escolhi este texto em homenagem, e ela agora já é também um ancestral.

As voltas do mundo me moldaram, tanto que agora a gente tinha um jeito de se chamar por conta das descobertas que fizemos sobre nóiz, eu a chamava "Viado" e ela a mim.

Segredos nossos.

E vivíamos tão agarradas a vida uma da outra que por muitas vezes questionamos que amor era este que nos unia, e se um dia acabaria.

Ela dizia um amor eu dizia também, a gente dizia tudo o que sentia, e tudo o que sentiu quando acabou.

Engraçado a gente lembrar hoje de um amor que a gente achou que nunca teria fim.

Quis morrer quando acabou e hoje ao encontrar a pessoa, ri de si mesmo, do ridículo que a gente lembra que foi capaz.

Dos porres, as choradeiras, frases ditas, lembro uma frase minha: Eu dou minha vida por um beijo seu. E jurava que eternizaria esta frase no corpo em uma tatuagem.

Disse isso pra alguém num tempo não muito recente, depois relutei ao ter que dividir um pão com manteiga com a pessoa tão amada do passado.

Caiu no conceito eu acho, e tome gargalhada, ou choro.

Nossas conversas eram calorosas, repletas de versos e prosa, libido.

ESTAMOS EM TRATAMENTO EM BUSCA DO QUE É NOSSO, A LIBERDADE.

Hoje eu conto a estória, é 2021, só pra constar que uma vida se tempera com várias mãos e muitos temperos.

Quem diria que hoje eu estaria aqui recordando a voz fininha dela e escrevendo minha própria jornada, que outrora, pensei que jogaria no lixo, que nada.

Palavras que esquentam, cortando no meio, mirando no seio, invadindo o alheio, nela e em mim.

E filosofando, usando o ócio a nosso favor pra própria evolução.

E a memória trouxe, de um passado distante, uma alegria contagiante, e eu disse.

- Minha amiga, eu vivi uns grandes amores, vou te contar o desfecho de um, bem assim.

Amaélia, uma mulher dentro de mim, desejando recomeço, esperando o fim.

Era um dia qualquer na vida desta mulher.

Pouco importa agora, se domingo de missa ou quarta de cinzas, NATAL OU...

Ela foi até a porta da frente, ergueu os braços pro céu e agradeceu, dizendo assim:

- Obrigado meu pai, dez anos de tristeza e solidão se acabam hoje. Hei de viver minha vida bem mais feliz e melhor sem ele.

Ele, que só trouxe tristeza e amargura.

A única coisa boa que veio foram os filhos.

Tinha medo de pensar assim e Deus achar que ela não os queria, que tivesse aí um arrependimento de ter parido.

Ela sentia que ele talvez não fosse seu único inimigo, ela tinha uma internidade, onde moravam os seus demônios de aluguel.

Em seguida mudava o rumo do pensamento pra que tudo ficasse bem entendidinho.

Vai saber, né? Deus poderia bem se vingar dela, ele é tão sensível, melhor corrigir.

Trouxe também quatro filhos que a encheram de vontade de viver de alegria.

Os filhos lhe clarearam a luz da existência.

Assim ficaria bom pra todo mundo.

Quem olhasse pro escadão que dá prá frente da casa grande, a casa de sua mãe, a Dona Maria Baiana que nunca foi baiana, mas parecia.

Não gostava do nome mas lembrava uma e era chamada assim.

Quem olhasse pra cima, na direção do escadão, iria ver Seu Jeremias, subindo como quem vai ao calvário, ele se arrastava feito lesma.

Subindo degrau por degrau, sem querer subir, como quem sobe um degrau e se aproxima do fogo do inferno, do seu passado.

Era pra lá que ele estava voltando, sem querer ir e indo.

Amanda perguntou:

- Por quê você trocou o nome se a história é sua e do Miguel?

- Porque eu gosto de contar assim.

Me dá coragem, penso que é um conto, uma fofoca, aí consigo contar tudinho.

Ainda tenho receio, do tempo e das línguas, de voltar a pensar que é pecado, eu acho.

Mulher não tem direito de amar, se não estiver bêbada ou fora de si.

Hoje não admito como pude ser tão besta, daí é melhor fingir que não sou eu, era ela.

Cada passo que ele dava, mostrava como ia triste, mas podia ser que talvez fingisse.

Esta mesma atitude fez com que ela mudasse de opinião muitas vezes, por dez anos.

Mas era só ela voltar atrás e ele também voltava ser o que sempre foi.

Um peso, um vigarista, um caçador de passarinho, era isso, de dia.

De noite, um arranjador de encrencas, beberrão, e mulherengo.

E toda vez que ficava muito encrencado apelava pra religião.

E era sempre a mesma cara, o mesmo andar, a mesma posição, sempre.

O mesmo Jeremias, o lambari, como era chamado.

Daí ela se sentia traída, deixava de dar rumo a sua vida, pra mais uma vez retocar o que não tinha conserto.

E ele bebia e batia no peito dizendo pra todos que ainda o ouviam:

Esta mulher é minha, nunca consegue me largar.

Eu tento ir embora, mas ela chora implora pra eu ficar.

E eu fico, que remédio, por isso é que bebo, pra passar o tédio de ter que ir e ter que ficar.

Com tanta mulher me querendo, eu aqui fazendo gosto, sem ter gosto.

O gosto que levo é fazer mais um filho pra mãe dela criar.

Mãe queria dar a pilora quando alguém vinha contar.

Como Amaélia se sentia exposta e se envergonhava quando alguém lhe dizia isto.

Mas depois de noite, no aconchego das horas, no silêncio da noite, se entregava.

Poderia até ser que fosse mentira, inveja daquela gente.

Poderia ser que mudasse, era o que diziam as irmãs da igreja.

Ruim com ele, pior sem ele.

E de mais a mais a mulher era pro homem.

Senão ele iria buscar fora.

E tome simpatia, e tome-lhe reza, e tome acender vela, pra ver se melhorava.

Quem sabe Deus se apiedava e melhorava este cristão.

Ledo engano, ele a trairia como sempre o fez.

O fato era que, fingindo ou não, levava sua pequena trouxa debaixo do braço.

Era ali o final de um grande amor ou de um engano.

E fosse lá o que fosse, ele não olhou pra trás nenhuma vez.

Se tivesse olhado, talvez a visse olhando com seus quatro meninos.

O maiorzinho chorando, o caçula no colo, já as mais velhas, mesmo sendo crianças, suspiravam sem dizer palavra, já o conheciam.

O retirante que agora precisava ir, porque nunca foi o que veio pra ser.

Até fora, mas não completo, só faltava o quase tudo.

Melhor que virasse logo a curva, seguisse pela Rua 1, e devolvesse a ela a liberdade.

Era o que ela precisava, que ele aliviasse a carga dela.

O que será que fizeram a ele na delegacia onde ele passou a noite que o fez tão decidido?

Ela sempre dizia que tava pra nascer o homem que o fizesse sair dali, que o destino deles estava atrelado até o fim, de um ou outro.

Achava que talvez nunca se livraria dele.

Na noite passada, quando a viatura chegou, ele proibiu o policial de chegar no portão alegando que ele não tinha um mandato, mas ela disse:

- Eu, como dona da casa, autorizo que o senhor entre, porque ele está nos ameaçando, a mim e as crianças com uma faca.

Chovia muito, estava frio, e os bichin estavam na casa da mãe pra não ver mais uma vez aquele espetáculo de horror.

Tanta coisa horrível era dita nestas horas.

Seja lá o que for, esta atitude era esperada.

Se uma pedra se recusa a sair da estrada ela tem que ser removida.

E se ela mesma rola. Ela rolou e pronto...Sigamos.

Amaélia era como se chamava, boa amante, boa dona de casa, boa lavadeira, boa conselheira, boa com todos sim.

Já pensava que seria este até um bom título para sua lápide.

Ruim só era com ela mesma.

Na verdade, nem era boa amante, fazia aquilo que lhe disseram que devia fazer. Servir o seu homem, fosse ele o que fosse, e resignasse, esperasse consolo do auto.

Verdade que fosse criativa, e muito assanhada, escandalosa.

Afinal alguma coisa teria que ser dela mesma e por ela, pra ela.

Ela escolhia no tempo em que podia escolher.

Era sua obrigação.

Estar sempre pronta na hora que ele pedisse, deixar que ele se servisse, e se por acaso sentisse algo, fosse discreta, ninguém tolera mulher escandalosa. Isso de sentir é coisa pra puta.

De pessoa sem família.

Então, mesmo rebelde, se tornou obediente.

O tempo a silenciou, o mundo não podia saber que ela tinha algum prazer na vida.

Mas ela achava que agradava o seu homem.

Queria ver dar certo alguma coisa em sua vida, e além do mais, queria criar seus filhos de perto, ela mesma.

Queria viver a promessa.

Precisava que Jeremias cumprisse seu papel, pra que tudo desse certo, mas depois perdeu a esperança.

Mas ela era tanta coisa.

Trouxa e medrosa, devido às ameaças dele de matar todos dormindo.

Promessa que fazia sorrindo.

E que não era mentira, ele realmente abria o gás de madrugada.

Pensava somente nele, e mais nada.

Por quê ela o perdoava meu pai, por quê?

Ele não batia nela, então ela não achava que isso fosse violência, mesmo quando ele a ofendia, ela pensava que eram só palavras.

Perdeu a conta de quantas vezes se deixou embrulhar pelas mesmas desculpas e quantas vezes costurou o mesmo lençol de rios de lágrimas.

Que nunca receberam consolo nem prazer.

Só promessas de dias melhores que demoraram a vir.

E quando viu que mais uma vez se traiu.

Guardou ódio de si e viu que amar era mesmo pros fracos.

Então criou uma forma de não esquecer os atos de seu amado esposo.

Pra nunca mais esquecer com quem estava falando, dormindo fazendo planos.

Naquele dia mesmo que ele comeu toda a mistura das crianças após chegar da rua.

Quando ela reclamou, ele jogou o prato contra parede, arroz, bifes, salada e feijão rolaram, tudo o que estava sobre a mesa e dentro de seu prato, e que seria o almoço da família.

Ela nem chorou, não foi a primeira vez.

Naquele dia ela titubeou.

Ela chamou a viatura, mas ele disse ao policial que ela se tratava, tinha acessos de loucura e jogava coisas.

Tipo de gente que jogava pedra em avião e em passarinho.

Então o policial foi embora, depois de apertar a mão dele e dizer a ele que tivesse paciência.

Se despediu dele deixando alí a justiça por fazer.

Mas alguém que acredita num safado dez anos era mesmo louca.

Ela lembrava disso, mesmo quando o caldo do feijão escorrido na parede mudou de cor, mofou.

Mofou, mas imprimiu memória.

Ele havia fungado em seu cangote mais de não sei quantas vezes dizendo que iria melhorar um dia.

Quando ele, porventura, trabalhava um dia, era uma alegria, a casa comemorava.

Ele naquela noite mirava-lhe os seios, entrava em seu meio, a lua acalentava a esperança de dias melhores.

No dia seguinte, o sol levantava, ele ficava, perdia a hora e dormia até tarde.

E ela então via que caíra novamente, que o amor de ontem era tudo mentira.

O excesso de sono que ele tinha era a razão da insônia dela.

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito e exijo respeito, não sou mais um sonhador. Mentira.

E mesmo assim fazia planos pro futuro, ela ousava.

Tinha o coração aos pulos por se sentir corajosa, livre, e por ter esperanças em dias melhores.

Tudo haveria de dar certo.

Pensava: Ela estava ali disposta a tentar e dizia pra dentro ou de dentro. Vou trabalhar mais, muito mais.

Vou trabalhar ali no motel, perto de casa, posso trabalhar de noite.

Minha irmã fica com as crianças, antes dela sair pro trabalho eu chego.

Tinha necessidades urgentes com a vida.

E guardava dentro de si muita carência e um vulcão, prestes a vir à tona, que o tempo acordaria.

Precisava de casa, móveis, um pinguinzinho em cima da geladeira, bibelôs na penteadeira e paz.

Precisava comprar sapatos e roupas para as crianças.

Há muito tempo não comprava nem um dedal pra ela com seu dinheiro, se servia do "se me dão".

Agradecia era o que tinha, mas se vestir desta forma era perder totalmente a personalidade, porém era o que tinha.

E antes da personalidade já havia perdido muito mais.

Vestia qualquer coisa, lavava e pronto, se compunha como podia.

Não ia ao dentista, quem dirá a esteticista, ia ao ginecologista e dava graças a Deus por não ter este direito negado.

Afinal de contas quem era ela? Era tupiniquim, como dizia aquela moça da novela , Odete Roitman, era ninguém.

Filha de uma ninguendade, que ainda nem havia se percebido negra, distraída, enganada, era o que ela era, nem se achava negra. ERA PARDA.

O emprego
O MOTEL

E se livrando dele, já podia pensar num emprego.

Com ele não podia nada, todo emprego que ela arranjava ele estragava, não podia pensar nem em voltar estudar.

Mas via uma possibilidade bem pertinho.

Aquele motel ali do bairro empregava muita gente dali mesmo.

Muita gente dali havia passado por ele desde que fora erguido.

Quando inaugurou foi um golaço na vila.

A bisa dizia que ali era a morada de satanás e que moças solteiras, mulheres casadas e dignas cheias de virtude jamais deveriam se quer passar naquela calçada.

E dizia que coisas macabras se faziam ali dentro.

Que cada quarto era escuro, com velas acesas e tridentes, pessoas pecadoras, pediam perdão por ter entrado.

Contava casos de seu conhecimento da vida real.

Quem ali entrasse nunca mais via a família nem o sol.

Vish, a família tudo bem, mas o sol gente aí era demais, melhor ficar longe.

A bisa dela tinha uma coisa com esta porta pro fundo, estreito, escuro e dizia o mesmo das casas que tocavam tambor.

Mas era mais velha e temente a Deus, não podia mentir.

E tinha garantia de poder dizer o que bem quisesse.

A criança só era dado ouvir

Mas porque ela mentiria pra sua bisnetinha?

Muita gente trabalhou lá naquela casa, mesmo contra a vontade da igreja.

Tinha que pecar pra por o pão na mesa.

A mãe dela, as irmãs, amigas, vizinhas.

Cada uma que trabalhou lá a seu tempo e a sua necessidade, adquiriu sua fama, na roda de maledicência.

Ali era o verdadeiro calvário, uma porta estreita, onde cada um que precisava, e só quando precisava muito, se assujetia.

Então, via aquela casa como lugar de salvação, como possibilidade de arcar com o custo e garantir provisão.

A última tábua como solução.

Era a última entre o deixar de ser virtuoso e ser qualquer outra coisa.

Mas o intuito era matar a fome.

Entrar por ali naqueles umbrais, fazia com que alimentasse a fala aos abutres.

De acordo com o perfil as agentes traçavam o enredo.

Refletindo bem as pessoas veem as outras como espelho de si.

Cada vez que alguém tortura o outro com tanta maldade e atrocidade pra mim esta pessoa revela a si mesma e ao seu medo.

É de si que ela fala de seu medo.

Mas usa o outro porque não está nela, no momento, a coragem de vencer, de fazer a travessia.

Deseja que o outro fique também do lado que agora este se encontra pra que ali sejam dois a vangloriar a travessia que não foi feita.

E que pode ser iniciada a qualquer tempo, a felicidade mora no depois no amanhã.

Mas esta perdeu o remo.

Aquele a curiosidade.

Esta outra ainda espera.

Esta foi até metade do caminho e se arrependeu de ter voltado.

O barco pesa do lado que a covardia descansa.

Só atravessa quem tem coragem.

E quem fica tem vontade de atravessar, mas tem medo.

Amaélia nunca desistiu de tentar atravessar, mas tinha medo.

Vejo isso hoje refletido toda vez que vou a minha antiga rua e vejo algumas destas pessoas feito árvores, sempre no mesmo lugar, sentadas em seus banquinhos amando o seu passado.

Querendo saber o que tem na outra margem.

Era isso que estaria guardado para aqueles que não tivessem atravessado.

Amaélia não acreditava em tudo o que ouvia, mas enquanto era de ouvir sem ação, só ouvia.

Nunca perdeu a oportunidade de ver pra crer, nunca, isso ela trouxe desde criança, do Nico, o seu moleque.

Queimara-se várias vezes, o cabelo da venta vivia sapecado cheio de fumaça de cada vez que não deu certo.

Por querer saber o cheiro que o fogo tinha.

Quis ver no fio elétrico o que ele fazia quando descascado, viu e sentiu.

Usou cola tigre na vagina, pra ver se colava, aquele lugar que tinha um coração dentro que estava nela e que ela não podia tocar.

Porque ele conversava com ela.

Tomou manga com leite, não morreu.

Falou e manteve amizade com as moças, que era proibido ter.

Deu ouvido as pretas do morro, quando era proibido dar, porque os outros pretos as achavam pretas demais, e descobriu o quanto eram iguais.

E passou a ter medo dos homens de bem e mulheres leais.

Como podem ver, Amaélia já raciocinava, já pensava por si.

Mas tinha medo também, demais.

Agora seria sua vez de abordar o fantasma da bisa, os assaltantes da avó, e os conceitos do povo.

E faria isso de seu jeito, com cautela.

Pois não se esqueça você que está lendo, o foco de Amaélia sempre foi a memória.

E ela iria confirmar o dito.

Ou iria se lembrar do dito pelo mal dito, e quem o disse.

Agora seria feito o confronto.

No fundo o forte de Amaélia era querer reconhecimento.

Unir razão as falas pra fechar os ciclos.

Tinha ou não tinha razão?

Ela mesma ainda buscava ser reconhecida.

Pois até suas irmãs de igreja namoraram Jeremias por achar que ali estava um bom partido.

Mas tomaram na tarraqueta, quando descobriram que se Jeremias brilhou algum dia foi quando ela lustrou.

Amaélia assim como esta que vos escreve leitores.

Busca um altar sim, o do reconhecimento, só reconhece e sai fora.

Ela ainda não sabia bem pra que servia um motel, só imaginava por que assistia novelas. TODAS.

E ouvia as falas à sua volta, sobre o que se fazia lá dentro.

Tanto que pra mau de seus pecados ela só pode pensar em trabalhar ali depois que deixou igreja e Jeremias, Deus nunca que aceitaria um coquetel diabólico destes.

Agora pra virar mesmo piranha, só faltava voltar pra política, como se viver não fosse politicar em causa própria todo dia e o pior pecado de todos, estudar.

Quando inaugurou o estabelecimento ela ainda era criança.

E quando ia a igreja no caminho a vovó dizia coisas sobre aquela casa luminosa que era um atalho pro inferno.

A vovó sabia o que se fazia lá, e não gostava.

Mas era tão cheio de luzes por fora.

Como poderia um pecado tão bem iluminado.

Iluminado assim era a nuvem da bisa que viria com anjos e arcanjos um dia, arrebatar os justos.

De viver entre os ímpios na terra, lembra? Toda vó tinha esta fala dita ali em casa na roda do poço, na sala aos sábados, nos velórios e nascimentos.

Era a filosofia bruta delas tentando alertar o inalertável.

Acho que é fala de quem se sente só com a idade, o abandono faz isso quando tudo está perdido, resta o consolo do alto, tenho receio de pensar assim, sabe? Ficar bruta cheia de ignorância.

Meu sonho é ser uma ancestral encorajadora, o medo é mau conselheiro.

Se nem as ruas tinham energia e ali era tudo iluminado.

Era um lugar de fazer besteira, comentavam todas as garotas, ao passar perto.

Mas como elas sabiam?

Se todos os grandes diziam que a gente tudo o que fazia era besteira.

A imagem daquela casa fazia pensar, até os mamilos queriam saber o que se fazia lá. OS MEUS.

E os de Amaélia.

Uma coisa sempre afastou as pessoas do vilarejo daquele lugar, o não ter um automóvel.

Nosso problema era econômico e já estrutural, como entrar.

Teria que ter carro pra entrar e ali, no Ataliba o único carro que viam era uma jardineira que levava crianças de outra sorte pra estudar noutro lugar.

Onde apanhavam menos ,lavavam menos banheiros e aprendiam alguma coisa, que as fazia virar a cara quando passavam por nóiz.

E naquela jardineira filhos de lavadeiras nunca puderam entrar.

Era assim com quem não tinha dinheiro, aquela menina loirinha que o pai tinha comércio, ela ia.

Aquela cuja mãe fugira com outro homem de tanta felicidade que sentia.

Coitada, no final teve um fim igual a de Amaélia, teve até o mesmo tanto de filhos.

Passavam também charretes do peixeiro, do vendedor de miúdos. Será que ele emprestava a charrete, se alguém quisesse entrar lá?

Mas também nos faltava informação, a gente nem sabia como e para que se entrava ali. Diziam que as moças, saídas, fervidas, perdidas e rodadas talvez ali fosse, mas como essas moças variavam de acordo com os desafetos.

Não era coisa que se pudesse botar credito.

E pra além do que o povo ali sabia, tava nos costumes,mas muitas delas casaram e constituíram família, com os tais homens de bem, se eram felizes era outra pegada.

As moças rodadas eram mais felizes porque poderiam ir a qualquer lugar.

Mas se acaso morressem não teriam direito à funerária branca.

Mas como chegavam a este critério?

Nunca soube, mas ouvia quando tinha alguma discussão e alguns diziam o que achavam dos outros.

Geralmente pessoas independentes que não tinham tempo a perder e não davam satisfação de sua vida aos curiosos, estas viravam alvo.

Era assim que Amaélia aprendera sobre sexo, quando ainda era descalça.

Sobre os títulos que pesavam nas costas das moças e de suas famílias quanto à escolha ou a ausência dela.

Aquilo era o que deixava algumas pessoas da vila com sorrisos no rosto e lágrimas na face, nem sempre nesta ordem.

E que movem montanhas.

Agora Amaélia daria o seu veredito.

No primeiro dia de trabalho, ela foi com medo, vai que tudo o que ela havia lido na bíblia tinha alguma verdade.

Ela foi armada, levou crucifixo, livro de oração e oração tudo na ponta da língua.

Quem fez catequese, escolinha dominical nunca se livra deste olhar são toméziano.

Quando Amaélia entrou no quarto 27 do lugar ficou embasbacada.

(Continua...)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL