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Fred Di Giacomo

Artesãs indígenas do AM precisam de cestas básicas e ferramentas; ajude!

As M.A.I produzem artesanatos em Atalaia do Norte (AM) - MAI/Divulgação
As M.A.I produzem artesanatos em Atalaia do Norte (AM)
Imagem: MAI/Divulgação
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

19/01/2021 04h00

Na úmida fronteira do Brasil com o Peru, encontra-se uma cidade de 20 mil habitantes e mais de 76 mil km2 de extensão cravada em meio à selva amazônica. Estamos falando de Atalaia do Norte (AM), município onde localiza-se a maior parte da Terra Indígena Vale do Javari, maior reserva de povos indígenas isolados do mundo. Atalaia do Norte é, também, lar de importantes artistas nativas; as Mulheres Artesãs Indígenas (M.A.I ), grupo que reúne representantes das etnias Matis, Kanamaris, Marubo, Korubo e Mayruna.

Com a epidemia da covid-19 descontrolada no estado do Amazonas, falta de oxigênio nos hospitais e necessidade de isolamento social, essas artistas ficaram ainda mais vulneráveis: "As vendas das M.A.I. pararam definitivamente e me causa preocupação como serão os próximos dias. [Por isso], sigo na luta para arrecadar as 35 cestas básicas para as 35 indígenas artesãs urbanas que residem na cidade.", diz Iza Santos, 24, jovem designer gráfica e fotógrafa, nascida em Atalaia do Norte, e que hoje reside no Rio de Janeiro. Iza trabalha com o primeiro grupo de rap indígena o Brô Mc's e com a designer de moda Eunice Baía, conhecida como a protagonista do filme "Tainá: Uma Aventura na Amazônia". Iza está arrecadando cestas básicas e recursos para as mulheres artesãs indígenas do Amazonas através do seu projeto Amazônia Originária. Para ajudar com doações, você pode entrar em contato com pelo WhatsApp (92) 99288 - 6486 ou email izanaveagencia@gmail.com

Doar é a única forma de ajudar os povos indígenas do Amazonas? Iza diz que não: "Acredito que apoiar vai muito além das redes sociais, muito além das hashtags. É de suma importância que nossos povos originários tenham maior visibilidade, sejam respeitados, e protegidos. Como podemos fazer isso? Se posicionem, tenham falas claras e, se necessário, gritem e defendam com a gente a importância da demarcação das terras indígenas. Na verdade, o apoio começa quando escolhemos um representante para governar nosso país: precisamos de alguém que defenda e contribua para preservação dos povos indígenas. A valorização também vem por meio da aquisição dos artesanatos locais, muitas artesãs vivem disso, se sustentam a partir da venda de trabalhos manuais característicos da região, um artesanato real e sustentável."

Mayara Mayura fala sobe o trabalho das M.A.I (Mulheres Artesãs Indígenas)

"As mulheres artesãs indígenas existem".

Amazônia Originária - Amazônia Originária/Iza Santos - Amazônia Originária/Iza Santos
"Amazônia Originária" é o projeto criado por Iza Santos para apoiar as Mulheres Artesãs Indígenas
Imagem: Amazônia Originária/Iza Santos

"Fui ao meu município, em novembro de 2020, a trabalho e, na ocasião, encontrei amigos indígenas principalmente os Matis de quem sou mais próxima", conta Iza, quando pergunto como começou a relação com as M.A.I. "Em trocas e falas com meu amigo Bushe, Secretário Geral da Associação Matis, ele me relatou muitas necessidade dos povos [indígenas da região]. Algumas semanas depois [de voltar o Rio], Preta, que é responsável pelas Mulheres Artesãs Indígenas, M.A.I's, me enviou um áudio via WhatsApp pedindo ajuda. Pedia que eu falasse que as M.A.I's existem e precisam de doações de cestas básicas e itens para ajudar na produção do artesanato delas."

Artesã - M.A.I./Divulgação - M.A.I./Divulgação
Artesã da M.A.I (Mulheres Artesãs Indígenas) exibe seus trabalhos
Imagem: M.A.I./Divulgação

O objetivo urgente de Iza com o projeto "Amazônia Originária" é a arrecadação de cestas básicas e materiais para o trabalho das M.A.I.'s , além de divulgar o artesanato originário das 35 artesãs indígenas cadastradas no núcleo.

"Assim elas vão poder ter um sustento digno, com vendas diretas sem muitas intermediações até chegar no consumidor final", explica Iza. Em um segundo momento, pós-pandemia, o objetivo maior é arrecadar dinheiro para a construção de uma sede para que as artesãs possam ter um um local de trabalho fixo, onde se desenrolem rodas de conversas, trocas e vendas de artesanato.


Iza Santos, uma artista amazônica

Iza Santos - Iza Santos - Iza Santos
Iza Santos é a idealizadora do projeto "Amazônia Originária"
Imagem: Iza Santos

A casa da "avó-mãe" de Iza se enchia de indígenas para assistir a programação televisiva em seu velho aparelho de tubo. Nesses dias, a designer amazonense alegrava-se com a admiração dos nativos, muitos recém-chegados à cidade, com o retrato do mundo ocidental transmitido pela telinha. Iza convivia principalmente com os matis, grupo indígena falante de uma língua do tronco Pano-Tacana, que vive na Terra Indígena Vale do Javari, alto Solimões. Matis é um nome dado por brancos a uma parte da etnia que se autodenominava "matses", palavra (ou "pronome cosmológico" como ensina o antropólogo Viveiros de Castro) que quer dizer "ser humano" ou "pessoa". Os Matis costumam autodenominar-se Mushabo (que significa "os tatuados") ou Deshan Mikitbo ("gente que está a montante").

"São nítidas na minha memória [as lembranças] de tomar banho de rios e fazer muitas brincadeiras de selva. Cresci com os indígenas que com seus pais iam para a cidade. Eu ainda era criança, quando vi indígenas em massa, migrando das aldeias para a cidade de Atalaia do Norte com suas culturas originárias. A minha maior lembrança, era quando íamos para a praça da cidade, em abril [mês onde se celebra, no Brasil, o "Dia do Índio'']. Eles faziam um festival cultural, lá, e uma das brincadeiras era a do pajé, [em que ele] colocava a roupa mais sinistra, com folhas e uma máscara muito assustadora feita de barro e com um chicote saía correndo atrás das crianças. Nossa função era correr muito [risos]. Eu já peguei uma chicotada... Era muita adrenalina, e eram todos meus primos correndo juntos com as outras crianças indígenas; muito marcante."

Iza, cuja família ainda mora no Amazonas e sofre com os efeitos severos da covid-19 no estado, sonha com a vacinação, o fim da pandemia (que já matou 210 mil brasileiros, 6.191 só no estado do Amazonas) e faz planos ambiciosos para o projeto "Amazônia Originária". Quer organizar um grande evento com os principais nomes do rap indígena, como o Brô Mc's de quem é assessora, para arrecadar dinheiro para a construção do N.U.T.A.I (Núcleo de Trabalho das Mulheres indígenas), o espaço físico para as M.A.I's. Mesmo tendo morado em Santa Catarina e, agora, estar no Rio de Janeiro seu coração segue amazônico:

"Quando vou pra Atalaia, ainda sinto que faço parte daquele lugar, me sinto em casa, me ocorre uma felicidade nostálgica e trocas espontâneas com amigos, que fazem pinturas de jenipapo - como proteção espiritual, conversam sobre como anda a aldeia, como estão as coisas na cidade e sempre me convidam para passar uma temporada com eles