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Donos de Ford sofrem com líquido no motor e pagam caro por conserto

O Fusion saiu de linha em 2020, na época, o preço no sedã partir de R$ 150 mil - Divulgação
O Fusion saiu de linha em 2020, na época, o preço no sedã partir de R$ 150 mil Imagem: Divulgação

Paula Gama

Colaboração para o UOL

07/01/2022 12h00

O motor 2.0 turbo, batizado como Ecoboost, de 248 cv de potência, é uma grande aposta da Ford em modelos que já foram, são e ainda serão comercializados no Brasil. Ele é responsável pela força motriz de Fusion, Edge, Bronco Sport e, em breve, da picape Maverick.

Mas o lote 910 - que equipa modelos produzidos entre 2015 e 2019 - tem dado dor de cabeça a clientes da marca, que veem na substituição do propulsor a única solução. Por meio de um grupo no WhatsApp, mais de uma centena de proprietários de Fusion e Edge com o mesmo problema se reúnem para trocar informações e buscar soluções coletivas.

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De acordo com Pedro Gomes, um dos participantes e proprietário de um Fusion, os relatos são sempre muito parecidos. "Começa com uma fumaça branca no escapamento ao ligar o veículo, seguida por perda de potência no motor. Em alguns casos, ao chegar na concessionária, o carro passa por diagnóstico, completam o líquido e mandam para casa. Em outros, é identificado um problema e ficam de dar uma resposta", informa.

Unidades do Ford Edge produzidas entre 2015 e 2018 também podem ter o problema  - Divulgação - Divulgação
Unidades do Ford Edge produzidas entre 2015 e 2018 também podem ter o problema
Imagem: Divulgação

A grande angústia dos proprietários vem a seguir, segundo Pedro Gomes. "Existem três respostas: precisa trocar o motor e o cliente paga tudo; a Ford dá o motor e o cliente paga a mão de obra ou a Ford paga tudo. Não existe um padrão. Alguns carros que não tinham as revisões em concessionárias ganharam o motor ou pagamento parcial. Por outro lado, carros que tinham as revisões em dia não ganharam nada, o cliente arcou com tudo", relata o participante ativo do fórum de discussões.

Procurada pela reportagem, a montadora enviou a seguinte explicação: "A Ford tem atendido os clientes individualmente, avaliando cada caso, levando em consideração as condições de garantia e de uso dos veículos."

Ford reconhece, mas não faz recall

Apesar de não ter convocado um recall oficial, a Ford já reconheceu o problema por meio de um boletim técnico enviado às concessionárias americanas em 2019 e às brasileiras em 2020.

O documento afirma que "alguns veículos Edge 2015-2018 e Fusion/Escape/Kuga 2017-2019 equipados com motor 2.0L EcoBoost podem apresentar baixo nível de líquido de arrefecimento, fumaça branca pelo escape e/ou condição de funcionamento irregular com ou sem luz de advertência de mau funcionamento (MIL) acesa. (...) Isso pode acontecer por causa da intrusão do líquido de arrefecimento no cilindro. Para corrigir a condição, siga as etapas do procedimento de serviço para substituir o conjunto do motor completo".

Diferentemente do que aconteceu com o caso Powershift, em que a Ford recomprou as unidades vendidas com o câmbio problemático nos Estados Unidos, a montadora também não tomou medidas oficiais a respeito do lote 910 do motor 2.0 Ecoboost no mercado americano. Inclusive, há uma ação coletiva tramitando na Justiça americana que pede a condenação da Ford por não reconhecer publicamente o problema, realizar um recall e indenizar os consumidores lesados, independentemente de garantia.

A raiz do problema

O engenheiro mecânico Marcelo de Araújo é proprietário de um Fusion SEL 2018/2018 Ecoboost. Os sintomas - fumaça branca saindo pelo escapamento; perda de líquido de arrefecimento; redução da potência do motor e alarme de injeção eletrônica aceso - surgiram com 66 mil quilômetros rodados.

"Fiquei com meu carro parado por três meses sem poder me locomover. Até que, através do Facebook, tive acesso ao boletim técnico interno da Ford para sua rede de concessionárias. Assim que tomei conhecimento disso coloquei meu carro num guincho e levei à revendedora. Depois de duas semanas, o parecer da Ford foi de negar a substituição do meu motor que estava inundado de líquido de arrefecimento dentro das câmaras de combustão", relata.

Segundo o engenheiro Marcelo de Araújo, esses canais entre os cilindros deixam as paredes do motor frágeis, podendo causar fissuras - Reprodução - Reprodução
Segundo o engenheiro Marcelo de Araújo, esses canais entre os cilindros deixam as paredes do motor frágeis, podendo causar fissuras
Imagem: Reprodução

Segundo Marcelo, o orçamento para a troca do motor foi de R$ 32 mil e a Ford não apresentou nenhuma justificativa para essa substituição.

"Após a execução do serviço, fiquei com o motor 910 e, como sou engenheiro mecânico, fui a fundo investigar o problema. Há um canal entre os cilindros que deixa as paredes frágeis. Com isso, independente da quilometragem, do carro ter feito todas as revisões na concessionária ou de estar na garantia contratual, a qualquer momento podem ocorrer trincas. O líquido de arrefecimento se infiltra por elas e começam os sintomas até bloquear o funcionamento do motor por aquecimento", afirma.

Fabiano Icker Oroski, proprietário de um Fusion AWD 2018, passou pela mesma situação com 37 mil quilômetros rodados. "Meu Fusion está parado na concessionária desde o dia 16 de dezembro. A Ford condenou o motor após os testes e está cobrando 70% do valor do serviço para a troca do motor. Vou arcar com R$ 21 mil para a troca. Todas as minhas revisões foram efetuadas na concessionária e a garantia venceu no dia 5 de setembro de 2021", informa.

Nos propulsores fabricados depois de 2019, não há mais canais entre os cilindros - Reprodução - Reprodução
Nos propulsores fabricados depois de 2019, não há mais canais entre os cilindros
Imagem: Reprodução

Histórias parecidas, porém com desfechos diferentes, são muito comuns no grupo de discussões no WhatsApp. Em alguns casos, a Ford efetua a troca de todo o motor sem custos, em outros, troca apenas um bloco, e há situações, como a de Marcelo, em que cobra por todo o serviço.

Direito do consumidor

Manoel Tadeu Machado de Menezes, advogado especializado em causas envolvendo defeitos de fábrica em automóveis, explica que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) protege os clientes da Ford nesses casos. O artigo 10 afirma que "o fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança."

Além disso, o CDC trata especificamente sobre recall: "o fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários".

Enquanto não há uma medida oficial, Machado Menezes orienta que os consumidores prejudicados, ao darem entrada na concessionária, peçam que seja aberta uma ordem de serviço especificando o problema.

"Além disso, façam constar na "folha de check-in" (aquela que a concessionária anota se o carro tem arranhões, nível do tanque, etc.) a descrição das falhas ocorridas. É importante que tudo fique documentado, inclusive a comunicação entre o consumidor e a concessionária, dando preferência para troca de e-mails e WhatsApp como meios de troca de informações, evitando as ligações em que nada fique registrado", recomenda o especialista.

Os carros vão desvalorizar?

Uma preocupação em comum entre os proprietários de Fusion e Edge é a respeito da desvalorização do carro após a troca de motor. Para o consultor automotivo Cassio Pagliarini, trata-se muito mais de um preconceito do que de um problema real.

"O que acontece é que deve estar registrado no protocolo do veículo no Detran que o motor foi substituído. Isso gera um certo preconceito, como gera um veículo que foi batido ou tem um sinistro apontado. Tecnicamente não vejo problema algum, pois entra um motor novo e às vezes a montadora até renova a garantia da peça. O problema é muito mais preconceito da pessoa que está comprando, sem muita razão técnica", analisa.

Especialista em venda de carros seminovos, Ari Pinheiro Júnior, presidente da Associação de Revendedores de Veículos Seminovos da Bahia, afirma que na prática o veículo desvaloriza muito.

"O consumidor tem resistência a comprar um carro com motor substituído. Não há como mensurar o percentual de desvalorização, mas ela existe. Além disso, ao vender o carro é necessário avisar sobre a troca, sob pena de sofrer um processo judicial", alerta.

Os consumidores reunidos no grupo de Whatsapp ainda não sentiram a desvalorização pois, segundo eles, os problemas começaram a "estourar" nos últimos meses de 2021. Mas temem até mesmo que a divulgação de notícias prejudiquem a revenda do carro. "Porém é algo que precisa ser feito para que a Ford cumpra o seu papel", pondera um dos participantes.

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