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Agora no Mercosul, Venezuela produz 'carro socialista' e modelos que servem ao Brasil

Daihatsu Terios, que na Venezuela é fabricado e vendido pela Toyota: por ora o jipinho "não está no radar" do Brasil, que, por sua vez, deve exportar mais Corollas ao país de Chávez - Divulgação
Daihatsu Terios, que na Venezuela é fabricado e vendido pela Toyota: por ora o jipinho "não está no radar" do Brasil, que, por sua vez, deve exportar mais Corollas ao país de Chávez Imagem: Divulgação

André Deliberato<br>Claudio Luis de Souza

Do UOL, em São Paulo (SP)

13/07/2012 17h03

A entrada da Venezuela no Mercosul, anunciada no final de junho, foi uma das grandes surpresas geopolíticas de 2012. Brasil, Argentina e Uruguai aproveitaram a suspensão até 2013 do Paraguai, punido pelo impeachment-relâmpago do presidente Fernando Lugo, e admitiram o país de Hugo Chávez na área de livre comércio -- um acordo que inclui facilidades aduaneiras e tributárias e que é crucial para a indústria automotiva local.

O Paraguai era contra a adesão venezuelana.

Brasil e Argentina têm parques industriais e mercados internos complementares no setor de veículos. As quatro grandes montadoras brasileiras (Fiat, General Motors, Volkswagen e Ford) tratam suas fábricas no país vizinho como se fossem daqui, apenas um pouquinho mais distantes. São feitos lá, entre outros, Grand Siena, Classic, SpaceFox e Focus. Toyota e PSA também são empresas fortemente beneficiadas pelo Mercosul.

Agora, cabe a pergunta: como fica o setor automotivo desses países com a adesão da Venezuela ao bloco, caso sejam estendidos a ela os benefícios em vigência atualmente (um processo que pode demorar alguns anos)?

O ambiente politico do país é instável -- já se aventou até a estatização de fábricas de veículos locais -- e o "socialista bolivariano" Chávez, no poder desde 1999 e candidato a nova reeleição este ano, é imprevisível. Mas as regras do Mercosul, inclusive a cláusula democrática usada para punir o Paraguai, podem "enquadrar" a Venezuela e oferecer melhores perspectivas de negócios.

A indústria automotiva venezuelana, e a relação do país com os carros, é peculiar. A produção local conta atualmente com fábricas de General Motors, Ford, Toyota e Venirauto, esta uma joint venture venezuelana-iraniana. A Chery está chegando ao país.

Caracas, a capital, tem problemas crônicos com o trânsito e é pioneira na implantação do rodízio veicular. A gasolina é quase de graça, devido às vastas reservas de petróleo do país. O mercado interno é descrito como "volátil", e em fases de alta demanda os carros usados ficam mais caros que os novos -- pois a entrega é imediata.

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    Presidente venezuelano Hugo Chávez em visita à Venirauto em 2010; evento e imagem ainda são destacados no site da montadora

O pico de vendas internas de veículos na "era Chávez" foi em 2007, com 491.899 emplacamentos (entre 2005 e 2006 o crescimento foi de mais de 50%), mas os números vêm piorando desde então e, no ano passado, foram apenas 114.888 vendas, segundo a Cavenez (espécie de Fenabrave local). O país tem cerca de 29 milhões de habitantes.

Assim como no Brasil, a marca GM produzida na Venezuela é a Chevrolet. O elenco de modelos conta com o subcompacto Spark e o compacto Aveo, ambos uma geração atrasados em relação ao resto do mundo (o Aveo hoje é o Sonic). Outro carro feito pela GM na Venezuela é o Optra, sedã médio com motor 1.8 e cara de Astra brasileiro. O Cruze é importado.

Seguindo instruções da assessoria da GM local, UOL Carros enviou e-mail com perguntas sobre o novo status da Venezuela no Mercosul e as consequências disso para a fabricante; até a publicação desta reportagem as respostas não chegaram.

No Brasil, a GM trata a inclusão venezuelana no bloco como um "fato novo". De acordo com sua assessoria, atualmente não existe relação comercial entre as filiais -- nunca importamos, mas já houve exportação de carros Chevrolet do Brasil para a Venezuela. No entanto, o novo status do país vizinho já é tema de "estudos" internos na companhia.

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    Chevrolet Optra, sedã médio de 4,5 metros, tem frente que lembra o Astra; Cruze é importado

QUE TAL UM JIPINHO?
O destaque da Toyota venezuelana é o jipinho Terios, que já foi vendido no Brasil com o emblema da Daihatsu, marca especialista em kei cars controlada pela gigante japonesa.

Ouvida por UOL Carros, a seção brasileira da Toyota também disse que a mudança no Mercosul é muito recente, mas que um provável efeito dela já pode ser especulado: o aumento da exportação do sedã Corolla para a Venezuela, hoje em dia feita em volumes muito baixos.

E o Terios? A resposta foi que o jipinho "não está no radar" da Toyota do Brasil. A empresa, neste momento, só pensa no Etios, seu próximo lançamento no país. O fato é que, com 4,06 metros e tração 4x4, o mini-SUV venezuelano poderia ser um produto interessante por aqui, praticamente sem concorrentes e abaixo do RAV4 na gama da Toyota. Mas isso quem diz é UOL Carros; a fabricante manteve silêncio.

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    Esse é o Turpial, o "basicão" da Venirauto: nome é emprestado do pássaro-símbolo da Venezuela

Já a Ford fabrica por lá a nova geração do SUV Explorer, alinhado com o que é feito nos Estados Unidos. Também produz o Fiesta Rocam e a Ranger antiga. Questionada, a assessoria da empresa no Brasil não enviou respostas sobre o tema até a publicação desta reportagem.

SOCIALISMO AUTOMOTIVO
Por fim, a Venirauto, invenção de Chávez para incrementar a relação político-comercial com o Irã, surgiu em 2006 com capital estatal dos dois países e controle venezuelano (64% e 36% de participação).

Produz dois sedãs, Turpial e Centauro, com visual do século 20 e plataformas superadas (a do Turpial é do antecessor do Kia Rio). Os preços ficam entre o equivalente a R$ 15 mil e a R$ 22 mil. 

De acordo com o site da Venirauto (que tem imagens do presidente venezuelano visitando a linha de montagem), há apenas oito concessionárias autorizadas em todo o país.

A Venirauto se autointitula uma "empresa socialista", donde se conclui que seus carros também são "socialistas" -- uma espécie de Trabant sulamericano. As vendas são consideradas um fracasso e não aparecem no relatório da Cavenez.
 


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