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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ayrton Senna e Diogo Moreira: invadir a praia faz parte!

Senna em Nürburgring e Moreira em Alcaraz: 38 anos separam feitos emblemáticos - Mercedes-Benz/FIMSupermoto-Divulgação
Senna em Nürburgring e Moreira em Alcaraz: 38 anos separam feitos emblemáticos Imagem: Mercedes-Benz/FIMSupermoto-Divulgação
Roberto Agresti

Sobre o Autor - Roberto Agresti dirigiu durante mais de 30 anos revistas especializadas em motocicletas. Cobriu corridas da MotoGP, do Mundial de Motocross, de Enduro e um inesquecível Paris-Dakar na África. É comentarista da rádio CBN, onde desde 2014 tem o CBN Moto, onde fala sobre motociclismo em rede nacional.

Colunista do Uol

12/05/2022 18h39Atualizada em 12/05/2022 23h59

Justamente em um 12 de maio como hoje, só que de 1984, Ayrton Senna fez uma peripécia que entrou para a história: surrou a fina flor de campeões em uma corrida promocional com 20 carros de série, todos iguaizinhos. No caso, os Mercedes-Benz 190E 2.3-16, que estavam sendo lançados em um evento de inauguração da remodelada pista de Nürburgring, na Alemanha.

MotoGP - Mercedes-Benz/Divulgação - Mercedes-Benz/Divulgação
Senna lidera à frente de Niki Lauda e um bando de campeões da F1
Imagem: Mercedes-Benz/Divulgação

Niki Lauda, Jack Brabham, Alain Prost, James Hunt, Jody Scheckter, John Surtees, Keke Rosberg, e Alan Jones, todos campeões da F1 do passado remoto ou recente, estavam no grid. Junto à eles, outras estrelas de peso como Carlos Reutemann, Strling Moss, Elio de Angelis e Denny Hulme, entre outros. Nelson Piquet foi convidado, mas não pode aceitar (à época era piloto da Brabham-BMW F1, arquirival da Mercedes-Benz...). Já Emerson Fittipaldi e Mario Andretti, também na lista de convidados, não foram por estar competindo no "pole day" de Indianápolis.

Como Ayrton Senna foi parar no meio desta turma? Ainda inexperiente na F1 - tinha disputado apenas quatro Grandes Prêmios na carreira pela obscura Toleman - há quem diga que foi a amizade de Senna com um diretor da Mercedes-Benz que o colocou lá. Seja como for, Senna era um rapaz de 24 anos de idade, promissor mais ainda sem grandes títulos, e meio que caiu de paraquedas naquele evento para brigar contra monstros sagrados do volante.

MotoGP - Mercedes-Benz/Divulgação - Mercedes-Benz/Divulgação
Senna no pódio da corrida em que bateu os gigantes da F1, em 1984
Imagem: Mercedes-Benz/Divulgação

Senna viu a situação como uma chance de ouro para exibir seu talento. Nos treinos qualificatórios fez o terceiro tempo, atrás de Prost e Reutemann. Na largada da corrida, com a pista úmida, pulou na ponta e... tchau galera! Liderou da primeira volta até a bandeirada. Lauda - que naquele ano conquistaria seu terceiro título na F1 -, foi o segundo colocado e Reutemann fechou o pódio.

Naquele dia Ayrton Senna entregou seu cartão de visitas ao mundo. Quem desconfiava que aquele brasileiro estreante na F1 era um bom piloto, teve a certeza de estar vendo uma estrela de primeira grandeza nascer, algo que foi confirmado semanas depois com o histórico 2º lugar no GP de Mônaco sob chuva, cujo rocambolesco final antecipado deu a vitória a Prost. Senna vinha "babando" em sua Toleman mequetrefe, tirando quatro segundos por volta do francês ao volante da poderosa McLaren-Porsche, mas diz a lenda que o então presidente da FIA , o também francês Jean Marie Balestre fez o diretor de prova encerrar a corrida antes que Senna fizesse história.

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Diogo Moreira venceu o Grande Prêmio de estreia no Mundial de Supermoto
Imagem: FimSupermotoWC/Divulgação

Onde entra Diogo Moreira nesta história? O jovem paulista de 18 anos, que estreou no Mundial de Motovelocidade na categoria Moto3 este ano, fez algo semelhante ao que Senna fez em Nürburgring no final de semana passado. De folga da Moto3, resolveu participar como convidado do Mundial da Supermoto em Alcarrás, na Espanha. A categoria é curiosa e espetacular, o duelo rola com motos de cross equipadas com pneus slick em pistas que alternam trechos de asfalto com terra e tem, inclusive, saltos.

Moreira, que começou criancinha no motocross e treina regularmente com as Supermoto, arrasou, humilhando os experientes campeões desta categoria: fez a pole e venceu a primeira corrida do sábado, de ponta a ponta, eternos 11 segundos à frente do 2º colocado. No domingo, na corrida chamada de "fast race", com menor número de voltas, venceu de novo (5 segundos de vantagem). Na 3ª e derradeira corrida era líder quando caiu na sexta das 14 voltas. Sem desanimar, levantou e foi do 5º ao 2º lugar. O conjunto de seus resultados fez dele vencedor do Grande Prêmio da Catalunha, segunda etapa do campeonato da Supermoto deste ano.

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Moreira larga na ponta no GP da Catalunha do Mundial de Supermoto
Imagem: FIMSupermotoWC/Divulgação

Para a sorte dos derrotados neste fim de semana histórico - a primeira vitória de um brasileiro em etapa de um campeonato mundial desde Alex Barros na MotoGP (GP de Portugal em 2005) - Diogo Moreira não será competidor fixo na Supermoto, pois seu foco é a Moto3, onde é o líder da classificação destinada aos estreantes na categoria.

Não quero, com todo este blábláblá, colocar Diogo Moreira na mesma prateleira do gigante Ayrton Senna, mas apenas apontar um importante fator, a "sede de vitória" que distingue os verdadeiros campeões. O talento puro dos fora de série sempre emerge, independentemente do veículo usado na disputa, e este é um traço em comum entre estes o que fez Moreira agora e Senna no passado.

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O capacete de Moreira, que em 2022 está obtendo excelentes resultados, vivendo um sonho literalmente
Imagem: FIMSupermotoWC/Divulgação

Em 1984 Ayrton Senna estava começando no "andar de cima" do automobilismo mundial, assim como Diogo Moreira está fazendo agora no motociclismo. O que o jovem piloto mostrou até agora no Mundial de Moto3, - dois sextos lugares, uma 2ª posição de largada e constantes duelos no grupo de ponta -, nos faz sorrir e torcer para que continue assim. É sem dúvida a melhor estreia de um brasileiro no mundial de motovelocidade desde sempre. Mas Diogo ainda precisa de tempo (e resultados!) para efetivamente ser confirmado como um fenômeno, o Senna do guidão que nunca tivemos. Porém, o que fez no fim de semana passado foi realmente digno de nota, e me lembrou a peripécia de Senna no distante ano de 1984. Invadiram praias alheias e dominaram, é assim que se faz...