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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como uso de carros promove turismo predatório em período de férias

Divulgação/Ecovias
Imagem: Divulgação/Ecovias
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

Na discussão sobre as mudanças que ocorrem em diversas cidades devido ao turismo durante feriados e, especialmente, festas de fim de ano, eu sou a turista. Mas, ainda assim, não consigo deixar de questionar sobre o quanto a chegada concentrada de centenas ou milhares de pessoas altera o dia a dia das que moram nessas cidades, sobretudo as pequenas, sejam estâncias campestres ou urbanas, sejam cidades litorâneas.

Na prática, a chegada de tanta gente representa filas quilométricas nos mercados, pontos de ônibus cheios, trânsito em ruas antes tranquilas, acúmulo de lixo nas esquinas etc. Entretanto, uma coisa que sempre me chama atenção são os efeitos no trânsito, em razão da saturação de ruas e avenidas perante o aumento do número de veículos em circulação.

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Para exemplificar, cito o caso da Baixada Santista, que só em um período de cerca de doze dias entre os meses de dezembro e janeiro de 2022, recebeu mais de 380 mil veículos — número registrado em um trecho da rodovia Anchieta-Imigrantes, segundo reportagem do portal G1 publicada no último domingo.

Outro exemplo é Porto Seguro/BA, cidade de 150 mil habitantes que ao longo de um ano recebe aproximadamente 1,8 milhões de turistas, segundo estimativas da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para o ano de 2019, antes dos impactos promovidos no setor após a pandemia de Covid-19.

Os efeitos da chegada de tantas pessoas, quando o assunto é estacionamento, da vegetação ao longo das praias até os locais com placas de proibido estacionar são lidos como locais para deixar o carro, o que dá a entender que a regra por trás do comportamento das pessoas é: quanto mais perto do lugar de destino melhor, mesmo que o preço seja guias e calçadas quebradas, dunas descaracterizadas, vegetação nativa destruída etc.

Já os impactos associados ao aumento do número de carros em circulação são perceptíveis pelo aumento das ocorrência de fatalidade dos sinistros de trânsito (acidentes) informados pela polícia rodoviária federal, assim como no relato de Peu, e alguns ciclistas moradores de Arraial D'ajuda, distrito de Porto Seguro, com os quais tive a oportunidade de conversar e que expuseram o aumento da frequência de situações de risco e conflito em períodos de intensa visitação das praias, justamente quando cresce a quantidade de automóveis e motos em circulação.

Nesse contexto, o carro torna-se meio do turismo predatório, cuja melhor definição que encontrei está no blog Negra em Movimento: "conjunto de práticas/atividades turísticas que acontecem de modo desordenado e irresponsável, causando impactos negativos nas esferas ecológica, cultural, social e/ou econômica daquela região".

O rastro dos estragos deixados após o período de intensa visitação torna-se um ônus a ser assumido pela administração municipal, principalmente aquelas mais preocupadas com a qualidade de vida de seus moradores, as quais precisam realizar investimentos na revitalização da infraestrutura danificação, entre outros prejuízos.

Apesar da dependência econômica ser um dos efeitos do turismo predatório, é inegável a importância social e econômica do turismo. Dados da Fundação Getúlio Vargas demonstram que o turismo corresponde a cerca de 3,7% do PIB brasileiro e é responsável por cerca de 3% do total de empregos.

Além disso, o setor turístico é uma porta de conexão e intercâmbio cultural capaz de alongar perspectivas. Porém, seus custos são igualmente inegáveis, de maneira que é preciso mitigar os efeitos causados por essas atividades, ou seja, implementar medidas de gestão das demandas geradas nessas situações.

Um meio para isso é a realização de planos de mobilidade urbana, tal como previsto na Política Nacional de Mobilidade Urbana, lei federal em vigência desde 2012, instrumento pelo qual é possível realizar estudos, análises e construir planos de ação para adequar a infraestrutura de mobilidade e transporte em cidades turísticas.

Na medida que os planos podem combinar diferentes instrumentos de gestão de demanda, tal como estacionamentos pagos e rotativos, bolsões de estacionamento em áreas adequadas, pedágios no entorno de áreas históricas e com concentração de bares e restaurantes e cobrança por uso intensivo das vias. Todos esses podem ser meios para incrementar as receitas municipais e assim ampliar recursos para investimento em fiscalização e melhoria da infraestrutura.

A melhoria da infraestrutura — isto é, investimentos em áreas prioritárias para pedestres, transporte público, ciclovias e ciclofaixas, iluminação pública, arborização urbana, sinalização etc - é o tipo de solução que torna o cotidiano dos moradores mais prático, seguro e acessível, alavanca o turismo e traz ganhos de receitas generalizados, além de ser mais sustentável, amigável ao clima e indutor comportamentos mais conscientes.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL