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Indústria automotiva terá que olhar com mais atenção para sustentabilidade

Rodolfo Buhrer
Imagem: Rodolfo Buhrer
Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

10/07/2020 09h39

Esta semana líderes de grandes empresas, brasileiras e estrangeiras, enviaram carta-manifesto ao governo federal pedindo providências contra o desmatamento e ações que levem em conta na retomada a economia do baixo carbono. Vale, Ambev, Bayer, Alcoa e Marfrig estão no meio das 38 empresas signatárias. Nenhum representante da cadeia automotiva aparece no documento.

Ao mesmo tempo o setor conversa com o governo uma postergação das regras de emissões para veículos comerciais alegando falta de recursos para cumprir os prazos. E que se fosse adotado um programa de renovação de frota nacional, definitivo e incontestável, o País estaria atacando o principal problema dos veículos que poluem o ar.

São dois argumentos razoáveis colocando em perspectiva os efeitos da pandemia que ainda se alastra pelo País. A verdade é que os próximos anos serão desafiadores para a indústria automotiva brasileira. Principalmente quando os sinais vindos das matrizes apontam no sentido contrário.

De acordo com estudo global da consultoria KPMG, com mais de 1,1 mil líderes do setor automotivo, 98% dos executivos que atuam em trinta países acreditam que a sustentabilidade será um fator que direcionará os negócios da indústria automotiva nos próximos anos. 73% desses líderes também concordam que a oferta de matéria-prima regional definirá os modelos de propulsão utilizados nesses mercados.

Apesar dessas respostas supostamente estarem conectadas com a vocação dos mercados na América do Sul - a região mais biodiversa do planeta, com recursos importantes como o minério de ferro, 70% das reservas de ion-lítio, matérias-primas vegetais para a produção de diversos biocombustíveis e até petróleo e gás abundantes - os executivos não mencionam no estudo como lidar com todo esse potencial por aqui.

Os fundamentos que levam os executivos a desconsiderar essas oportunidades no Brasil e na América do Sul estão relacionados a uma equação financeira global que sustenta a indústria automotiva: sem fluxo de caixa global saudável é impossível ser competitivo e investir. Mas a incapacidade de diversos setores para lidar com uma agenda focalizada nas vocações da região também são interpretadas como ameaças ao desenvolvimento sustentável do negócio.

No caso das montadoras o foco na sustentabilidade parece que virá de um processo decisório de cima para baixo, conhecido nas empresas como top-down. Aí sim. Mesmo com tantas dificuldades e obstáculos a superar a indústria nacional passará a se esforçar mais para alinhar suas estratégias a critérios ambientais, sociais e de governança, ASG, a sopa de letrinhas que pode mudar os rumos dos negócios no Brasil e no mundo.

ASG = ESG. O que está direcionando as empresas para a sustentabilidade é o ESG. Não conhece? Então é bom ir se acostumando com os critérios ambientais, sociais e de governança, ESG em inglês. São esses indicadores de desempenho que estão, neste momento, definindo quando e onde o mercado financeiro alocará seus recursos. Grandes empresas precisam demonstrar bons índices para ter acesso às linhas de crédito que alimentam a indústria.

Megatrends. A China, com sua estratégia de direcionar investimentos nos carros elétricos. A Ásia, região com enorme potencial em vendas em função de mercados emergentes como a Índia. O Leste Europeu, que deve concentrar o maior volume de produção naquele continente. E o preço do barril de petróleo em seu patamar mais baixo capaz de manter a produção de veículos a combustão fóssil nos Estados Unidos por mais um bom tempo. Estes foram os pontos mais relevantes apontados pelos CEOs, vice-presidentes e diretores de montadoras e sistemistas que participaram da pesquisa da global KPMG 2020.

"Só 5 milhões?". O presidente de uma montadora no Brasil disse uma vez que nenhuma marca será líder global de vendas por causa do desempenho na América do Sul. Isso quer dizer que a região e o potencial de mercado acima de 5 milhões de unidades/ano - que nunca foi explorado totalmente, diga-se - não será o fiel da balança dos objetivos de um líder global do setor.

Brasil. Aliado a essa falta de protagonismo em termos de vendas há também algo que já se tornou folclore no meio dos executivos que atuam aqui e seus chefes fora do País: sempre surge uma surpresa sobre o Brasil que precisa ser explicada nas reuniões globais. A instabilidade do câmbio, as políticas setoriais que mudam a cada período, as crises econômicas que derrubam as projeções de vendas... e por aí vai.

Me dá um $$ aí? Esse tipo de saia-justa chegou ao ponto das matrizes de algumas montadoras terem deixado de socorrer financeiramente as operações na região. O recado é claro: o headquarter vai redirecionar os recursos das operações que não apresentam bons resultados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.