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Rio de Janeiro

Portela e Mocidade superam polêmica e confraternizam em clima de emoção

Presidente da Portela Luis Carlos Magalhães (dir) e o presidente da torcida organizada da Mocidade (centro) - Wili Shampoo
Presidente da Portela Luis Carlos Magalhães (dir) e o presidente da torcida organizada da Mocidade (centro) Imagem: Wili Shampoo

Anderson Baltar

Colaboração para UOL, no Rio

20/01/2018 08h50

O universo das escolas de samba tem regras próprias e bem distintas de outros ramos onde a competição é a mola-mestra. Ao contrário do futebol, o convívio entre as agremiações é amistoso durante todo o ano, com seus componentes visitando mutuamente as quadras e se solidarizando nos percalços acontecidos durante a preparação para o desfile. Como diz o jargão, a rivalidade é apenas na pista. E, mesmo assim, caso alguma escola tenha problemas com um carro alegórico durante o desfile, em questão de segundos, integrantes das concorrentes entram em cena para tentar ajudar.

Esse tradicional clima de cordialidade foi abandonado após a decisão da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) de dividir o campeonato do Carnaval 2017 entre Portela (que havia vencido na apuração oficial) e a Mocidade Independente de Padre Miguel (prejudicada pelo erro de um jurado motivado por material incorreto distribuído pela Liga). Instantes após a proclamação da retificação do resultado, em abril, dando o campeonato para as duas escolas, seus torcedores passaram a um intenso ritual de provocações e ofensas nas redes sociais, que até hoje perdura, ainda que em menor escala.

Por todos esses ingredientes, a noite desta sexta-feira (19) na quadra da Portela entrou para a história do Carnaval carioca. Em seu tradicional ensaio, a azul e branca convidou a Mocidade para se apresentar com todos os seus segmentos. E, a recepção foi em grande estilo, com a quadra lotada de torcedores das duas escolas irmanados pelo samba. A noite tinha mais uma convidada – e não era qualquer uma: a supercampeã Beija-Flor de Nilópolis. Mas que acabou relegada ao papel de coadjuvante diante da importância do momento e da alegria da confraternização.

Portela no desfile das campeãs em 2017 - Bruna Prado/UOL - Bruna Prado/UOL
Portela no desfile das campeãs em 2017
Imagem: Bruna Prado/UOL
 

Após a apresentação da anfitriã, que, por cerca de uma hora cantou sambas clássicos e, em sequência, os hinos de 2017 e 2018, a Mocidade foi convidada a tomar o centro da quadra. Enquanto a bateria se posicionava, o presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães, saudou os integrantes da escola de Padre Miguel: “O samba é um ambiente de tolerância e amizade. As portas da Portela estão abertas para todos os integrantes e torcedores da Mocidade”. O diretor de Carnaval da Mocidade, Marquinhos Marino, fez coro e destacou a felicidade dos componentes de sua escola ao cantar o samba portelense.

Com as duas bandeiras entrelaçadas no meio da quadra, a festa ganhou contornos de emoção. Em suas mãos, duas porta-bandeiras com trajetórias semelhantes: Lucinha Nobre, da Portela, começou sua carreira na Mocidade; Cristiane Caldas, da verde e branca, por sua vez, já ocupou o cargo na escola de Madureira. “Não tem rivalidade, somos amigas, estamos sempre juntas e nos ajudamos”, afirmou Lucinha. Cristiane, por sua vez, lembrou que as escolas se apresentaram em conjunto no Réveillon de Copacabana e que o Carnaval 2017 é página virada: “Estamos, cada uma em sua escola, focadas em fazer o melhor na avenida para que conquistemos o bicampeonato.

Um dos personagens mais icônicos da Portela, Tia Surica, da Velha Guarda Show, disse que não há espaço para mágoa: “Já fui na Mocidade em uma festa e agora é a vez deles virem aqui. Somos todos amigos e as duas escolas são campeãs”. Porém, no instante seguinte, o coração portelense falou mais alto e uma leve espetadela surgiu: “Só que quem comemorou na quarta-feira de Cinzas e trouxe o troféu para cá, fomos nós”, afirmou com um sorriso matreiro.

Enquanto o intérprete Wander Pires entoava sambas clássicos da Mocidade como “Vira Virou”, “Sonhar Não Custa Nada” e “Ziriguidum 2001”, os portelenses, espalhados nas mesas e camarotes, caíam no samba sem medo de serem felizes. Renata de Oliveira, 27 anos, com alegria no olhar e passos vigorosos, garantia que a mágoa tinha passado: “Eu fiquei muito irritada, até porque a Portela não tinha sido campeã sozinha há muitos anos. Mas hoje isso é passado. O importante é que o caneco veio”.

Quando o samba do último Carnaval começou a ser cantado pelos integrantes da Mocidade, o clima nas mesas era de um certo constrangimento, logo superado. E, quando os primeiros acordes da obra de 2018 surgiram, a quadra explodiu em um canto uníssono, com os integrantes da Mocidade fazendo um mini-desfile, com passistas, baianas, diretores e torcedores, com direito a bandeiras no estilo de torcidas organizadas de futebol.

A rainha de bateria da Mocidade, Camila Silva, sambava e sorria. E seu sorriso tem uma explicação toda especial: a escola conquistou o campeonato indiretamente por sua causa. A um mês do desfile, Camila era musa e, com a vacância do cargo de rainha, foi promovida. Um roteiro de desfile desatualizado motivou o desconto de um décimo em enredo, já que o jurado a procurou como musa e não a encontrou. Quase um ano depois, Camila é uma campeã aliviada. “Fiquei muito chateada quando isso aconteceu. Ainda bem que o erro foi corrigido e que hoje estamos comemorando. E que a disputa seja linda no próximo Carnaval”.