Topo

Magalu abre vaga só para negros e internautas reclamam de "racismo reverso"

Manifestantes protestam pelo Black Lives Matter e contra brutalidade policial em St Louis, Missouri - Getty Images
Manifestantes protestam pelo Black Lives Matter e contra brutalidade policial em St Louis, Missouri Imagem: Getty Images

De Universa

19/09/2020 10h50Atualizada em 19/09/2020 12h13

Após o Magazine Luiza anunciar que vai aceitar apenas candidatos negros para seu programa de trainees de 2021, voltou às redes sociais o debate sobre "racismo reverso", com internautas acusando a empresa de cometer crime. A empresa afirma querer com a medida levar mais diversidade racial para os cargos de liderança da companhia.

Em defesa da empresa, outros usuários das redes consideram que a ação da Magalu é uma reparação histórica.

Universa debateu o tema "racismo reverso" quando o cineasta Jordan Peele, que ficou conhecido pelos filmes "Corra!" e "Nós", afirmou que "não se vê" escalando atores brancos para protagonizar seus filmes. A declaração, dada em março de 2019, também fez com que pessoas acusassem o diretor de "racismo reverso", como se estivesse sendo preconceituoso com pessoas brancas no mesmo nível do racismo contra negros.

Convocamos, então, especialistas para explicar se existe mesmo o racismo reverso, e a resposta é "não". Viviana Santiago, pedagoga, especialista em relações étnico-raciais e gerente de gênero e incidência política na Plan International Brasil, afirma que o racismo reverso é impossível de acontecer porque discriminação não se resume em atitudes individuais: xingar alguém pela sua cor ou escravizar uma etnia inteira, por exemplo. O racismo afeta todas as áreas da sociedade.

"As pessoas pensam no racismo como uma questão pessoal, e não de sistema. Se uma pessoa, sozinha, chama alguém de "branco azedo", isso denota falta de respeito, mas não é racismo. Embora esteja, sim, errado, o xingamento não diminui o poder da pessoa branca na sociedade, não fez com que a pessoa negra fosse a norma, a dominante", explica.

"Acho que a gente pode dizer assim: quando um homem negro fala que pessoas negras serão protagonistas, isso não é racismo reverso, mas uma discriminação positiva. Quando reconhecemos que um grupo é historicamente rejeitado de um lugar, salvo esta pequena oportunidade, esse mesmo grupo continuará neste lugar isolado. Afirmar e decidir que o grupo possa acessar essa função de destaque não fere o direito das pessoas brancas. Elas já ocupam esse lugar o tempo todo, é só uma oportunidade para pessoas não brancas. Seria preciso muito mais para inverter este quadro", ela continua.

Outro argumento muito usado para justificar a existência do racismo reverso é na questão das ações afirmativas: quando há cotas para pessoas negras, pardas e indígenas, muitos dizem que isso seria discriminação contra brancos, que estaria tirando o lugar deles, mesmo que eles também sejam pobres e não tenham tanta posição de privilégio. Viviana afirma que ser pobre deixa a pessoa em desvantagem, mas que ainda é pior para uma pessoa negra e pobre —e, no Brasil, os pobres são majoritariamente negros.

Em 2016, o IBGE lançou um estudo afirmando que pessoas não brancas (pretos e pardos) são a maioria da população brasileira (54%). Entretanto, eles ainda são os mais pobres: até 2014, entre a parcela que se enquadra como extrema pobreza no país (10% da população total), 76% são negros.

"Quando você é pobre, você está em desvantagem por não ter acesso ao capital, é sua condição de classe que interdita seu direito de acesso às coisas. Quando você é negro e pobre, você tem duas desvantagens: além de estar numa sociedade capitalista e ser pobre, você também lida com o racismo", diz.

"A pessoa branca e pobre não vai lidar com a barreira do racismo. Duas pessoas igualmente pobres podem fazer um curso, ir a uma entrevista de emprego, mas a pessoa negra dificilmente será aceita no trabalho, porque o padrão de 'boa aparência' ainda é branco".

Segundo Lucimar Rosa Dias, doutora em educação, professora e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a ideia de se responsabilizar por uma coisa que ocorre na sociedade só interessa quando a pessoa pode ganhar algo com isso.

"Agora, se elas podem perder algo nesse processo, já não é interessante, e falam que não têm culpa por isso acontecer. As pessoas individualizam as coisas, mas o racismo impacta no coletivo. Não dá para se eximir desse lugar de responsabilidade, de privilégio. Ninguém está falando da sua culpa individual, e sim de um sistema que afeta a todos", diz ela.

Então como fazer com que esse sistema seja menos racista e pessoas tenham oportunidades iguais?

"Quando apoio esses trabalhos com negros protagonistas, quando invisto para que essas oportunidades existam para eles também, para que todos tenham a chance de ter reconhecimento, isso faz com que a situação melhore e todos possam ter acesso a tudo —e não seja tão absurdo pensar em ter mais negros posições de liderança", pensa Viviana.