Paciente canta e toca violão enquanto tumor no cérebro é retirado

O vidro da porta da sala cirúrgica ficou disputado, todos queriam ver o paciente tocar e cantar enquanto era operado. Mauricio Stemberg, 55, produtor fonográfico e musical, passou por uma cirurgia para ressecção de um tumor cerebral no dia 26 de julho, no Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba, pelo SUS.

Para garantir que nenhuma área do cérebro fosse afetada, Maurício cantou e tocou violão durante o procedimento. Sem sequelas, ele explica que a cicatriz é quase imperceptível do lado esquerdo de sua cabeça. A outra boa notícia é que o tumor não é maligno.

Série de convulsões e uma descoberta

Ele teve a primeira convulsão em uma noite de março. "Estava dormindo, acordei e caí no chão. Minha esposa chamou a ambulância e os médicos disseram que poderia ser devido ao estresse."

Dois meses depois, houve a segunda convulsão, que também não foi investigada. Ele esteve de novo na unidade de saúde, tomou um calmante e voltou para casa.

O neurocirurgião Carlos Alberto Mattozo, que realizou a operação, informa que sempre que ocorre uma convulsão pela primeira vez é preciso investigar a causa, que pode ser um tumor cerebral, caso do músico.

No início de julho, Maurício teve a terceira convulsão, que, diferentemente do ocorrido nas anteriores das quais se recorda, diz não ter lembrança alguma do que houve antes de acontecer o episódio.

Ele relata que estava no estúdio gravando com uma cantora e chegou um primo dela para acompanhá-la. Ela iria gravar dez composições. No final da quinta música, ele sugeriu tomarem um café.

É a última lembrança dele antes de acordar no hospital, internado para exames, pois caiu ao se dirigir à cozinha e ficou uma hora desmaiado. A sorte foi que o primo da cantora o segurou, livrando-o de bater a cabeça no chão.

Na tomografia feita ao chegar no hospital, os médicos viram que havia algo a ser investigado e ele foi transferido ao Hospital Universitário Cajuru para fazer uma ressonância, que mostrou com nitidez o tumor na região do lobo temporal do lado esquerdo, que controla a linguagem em mais de 80% das pessoas.

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Quando o médico trouxe o diagnóstico de tumor cerebral, falando que precisaria ser operado, não fiquei nervoso, nem balançado, o único sentimento que veio foi questioná-lo se poderia haver alguma sequela ou afetar a voz. Falei que era músico e, então, o cirurgião sugeriu o procedimento no qual pudesse ficar acordado, cantar e até tocar violão. Mauricio Stemberg

Doces coincidências

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Imagem: Arquivo pessoal

Na sequência, há uma série de coincidências: o anestesista é músico amador, já tocou baixo e agora guitarra e o ajudou a ficar em uma posição confortável, afinal, ele cantou e tocou durante as 3 horas em que esteve acordado.

Ao final, o anestesista ganhou a palheta que Maurício usou. O paciente e o médico têm um amigo em comum que também é músico.

Maurício preparou um repertório especial que incluiu músicas autoriais, instrumentais e de cantores conhecidos, como Alcione. O próprio médico disse que era impossível não aplaudi-lo ao final de cada canção e em alguns momentos foi preciso solicitar que tocasse com menos empolgação, pois mesmo com a cabeça fixa, a mesa cirúrgica se mexia conforme a intensidade dos acordes.

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"Foi muito emocionante a performance", lembra Mattozo.

Como foi a cirurgia

Dentro da neurocirurgia, explica Leonardo Conrado Silva Lima, neurocirurgião do Hospital Português de Salvador, há as relacionadas ao tratamento de AVCs isquêmicos e hemorrágicos, doenças vasculares intracranianas, como é o caso de aneurismas, más-formações arteriovenosas cerebrais; neurocirurgia funcional para casos de epilepsia, por exemplo, para doenças congênitas, entre outras.

No caso relatado, Maurício foi sedado e ficou desacordado na primeira parte do procedimento para a realização de neuronavegação com um sistema computadorizado e luz infravermelha que auxilia na localização intraoperatória, na incisão e na abertura do crânio.

Na sequência, a sedação foi reduzida e o paciente despertado, ficando apto a responder a todas as perguntas durante o procedimento cirúrgico e executar ações, como tocar, cantar e conversar.

Mattozo esclarece que como há muitas regiões cerebrais relacionadas às habilidades de Maurício, ao finalizar a cirurgia, com ele conversando e tocando, a equipe médica ficou muito satisfeita, pois sabia-se que todo o cérebro foi testado e que ele acordaria muito bem.

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A técnica empregada com o paciente acordado existe há algumas décadas, afirma o neurocirurgião do Hospital Português e visa, principalmente, diminuir sequelas neurológicas, comprometimento funcional e a morbidade.

Ao longo da cirurgia, os pacientes são testados em atividades básicas, treinadas com antecedência, que consistem em responder perguntas, leitura ou correlacionar figuras. São raros os que possuem habilidades musicais como o Maurício.

"Em alguns casos, é possível fazer o mapeamento antes da cirurgia, por meio de ressonância magnética funcional, delimitando as regiões do cérebro relacionadas à fala ou às funções motoras, mas também as fibras que conectam essas áreas, fornecendo informações mais precisas para ajudar o neurocirurgião no ato cirúrgico", esclarece o professor da Li Li Min, professor titular de neurologia da Unicamp.

O neurocirurgião do Hospital Universitário Cajuru explica que o paciente não sente dor durante a cirurgia já que todo o couro cabeludo recebe anestesia local.

Além disso, apesar da dor ser consciente e processada no cérebro, este órgão não tem terminações nervosas, de acordo com o professor da Unicamp, então, a sensibilidade à dor é inexistente.

Fontes: Carlos Alberto Mattozo, neurocirurgião do Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba; Leonardo Conrado Silva Lima, neurocirurgião do Hospital Português de Salvador; e Li Li Min, professor titular de neurologia da Unicamp.

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