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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Dor ao fazer xixi? É provável que seja infecção urinária; veja causas

Estudos indicam que mais da metade das mulheres terá ao menos uma infeção urinária na vida - Di Vasca/ Arte UOL VivaBem
Estudos indicam que mais da metade das mulheres terá ao menos uma infeção urinária na vida Imagem: Di Vasca/ Arte UOL VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL VivaBem

26/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A infeção urinária é um dos tipos de infeção bacteriana mais comuns no ser humano
  • Geralmente, a doença não causa grandes problemas. Porém, se "subir" para o trato urinário alto, há maiores riscos
  • Ardor ou dor ao fazer xixi, urina com sangue, cansaço e mal-estar são alguns dos sintomas da infeção
  • Entre os fatores de risco da doença estão a higiene incorreta, o atrito durante o sexo, uso de espermicida e beber pouca água

A infecção do trato urinário (ITU), mais conhecida como "infecção urinária", é um dos tipos de infecção bacteriana mais comuns no ser humano. Quase sempre, é causada por micro-organismos que ficam nas fezes sem provocar doença, mas que, por alguma razão, entram no canal urinário, ou seja, onde não podiam entrar. 

Quando limitado ao trato urinário baixo, ou seja, a bexiga, a condição recebe o nome de cistite e costuma ser resolvida sem problemas com antibiótico. Se a infecção "subir" para o trato urinário alto, passando pelo ureter até os rins, a condição passa a ser chamada de pielonefrite e pode ser muito perigosa, pois há risco de as bactérias caírem na circulação sanguínea, causando febre e até uma infecção generalizada. Por isso, é importante procurar o médico ou ir ao pronto-socorro ao sentir ardor ou dor ao fazer xixi.

Mulheres são mais vulneráveis

As mulheres são bem mais vulneráveis ao problema por uma questão anatômica: a uretra delas é mais curta e sua entrada fica mais próxima à vagina e ao ânus. Estudos indicam que mais da metade das mulheres terá pelo menos uma infecção urinária na vida. De acordo com a SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), essa é a principal causa de afastamento no trabalho para elas.

A relação com a atividade sexual e o início da vida sexual é frequente, tanto que, quando esse é o motivo da infecção, muitos médicos se referem ao quadro como "cistite de lua-de-mel". 

É importante ressaltar que infecções urinárias não são DST (doenças sexualmente transmissíveis), já que, na maioria das vezes, as bactérias que causam a cistite são da própria pessoa. Mas muitas DST --que atualmente são chamadas de IST (infecções sexualmente transmissíveis) -- podem causar sintomas urinários e, além disso, aumentar a predisposição à infecção.

Cistite de repetição

A cistite recorrente ou de repetição, definida por três episódios em um ano, ou dois em seis meses, é comum a cerca de 25% das pacientes que sofrem uma infecção no trato urinário. Apesar de esses quadros não representarem uma ameaça na maioria das vezes, eles podem prejudicar bastante a qualidade de vida e até a função sexual. 

Sintomas

  • Ardor ou dor ao fazer xixi
  • Pressão ou dor no baixo ventre (abaixo da barriga)
  • Vontade de fazer xixi o tempo todo, mas ao ir ao banheiro quase não há o que urinar
  • Xixi escuro, com sangue ou odor diferente
  • Cansaço ou mal-estar

Atenção: febre, dor nas costas, náusea, vômitos, perda de apetite e calafrios podem indicar que a infecção alcançou os rins. É preciso procurar o serviço médico com urgência nesses casos.

É possível ter uma infecção urinária e não perceber?

Sim. A presença de bactérias na urina sem causar sintomas é chamada de bacteriúria assintomática. Quando o processo inflamatório é menor há a possibilidade de não causar sintomas. É mais frequente em mulheres com mais idade e em grávidas, mas nas gestantes sempre deve ser tratada. 

Idosos merecem atenção especial

Devido a mudanças associadas ao envelhecimento ou a eventuais doenças crônicas, os idosos podem não ter os sintomas clássicos de infecção urinária, o que leva ao atraso no diagnóstico. A pessoa pode não sentir dor ao urinar, por exemplo, e não apresentar febre mesmo que as bactérias já tenham atingido os rins. Em vez disso, pode ter sonolência ou confusão mental. Por isso é importante ficar atento a mudanças de comportamento. 

Fatores de risco

Questões biológicas e comportamentais podem interferir no risco de infecção urinária. Veja algumas delas: 

Malformações Alterações anatômicas nas vias urinárias podem fazer com que a urina não seja eliminada completamente, aumentando o risco de infecção. Essa costuma ser a causa mais comum de infecção urinária em recém-nascidos.

Fimose A inflamação do prepúcio é uma causa comum de infecções urinárias em meninos.

Fraldas ou absorventes O uso aumenta o calor e a umidade, favorecendo o crescimento de bactérias, e também há o risco de exposição às fezes.

Atividade sexual O atrito pode causar fissuras minúsculas que favorecem a exposição às bactérias do períneo. É por isso que os médicos recomendam que se faça xixi logo depois das relações. A probabilidade aumenta quando se faz sexo anal sem proteção, ou quando a penetração vaginal ocorre depois da anal sem a troca do preservativo. 

Uso de espermicida O gel, seja quando usado com o diafragma ou na camisinha, pode aumentar o risco por interferir na flora vaginal.

Menopausa A diminuição do estrogênio pode trazer várias consequências, como falta de lubrificação (que facilita a ocorrência de microfissuras durante o sexo) e alterações na flora vaginal, deixando o ambiente próximo à uretra mais propício à colonização por micro-organismos.

Gravidez Mais ou menos 17% das gestantes desenvolvem o quadro, que tem a ver com o aumento do nível de progesterona, alterações no sistema imunológico e pelo próprio volume do útero, que afeta a micção. 

Maus hábitos Beber pouca água e a mania de adiar a ida ao banheiro têm sido apontadas como facilitadores de cistites em crianças e adultos. Meninas e mulheres que urinam de pé, para evitar o contato com o assento, também podem acabar não esvaziando a bexiga direito, por não relaxarem. Por último, a higiene incorreta após usar o banheiro também pode expor ao risco.

Intestino preso A constipação crônica pode deixar as mulheres mais vulneráveis ao problema.

Incontinência urinária Mulheres com o problema têm seis vezes mais propensão a infecções do trato urinário de repetição, segundo estudos. 

Lesões na medula Pacientes com esse tipo de lesão são mais propensos a infecções no trato urinário.

Imunidade baixa Pessoas imunodeprimidas --devido a doenças como diabetes e Aids -- devem ter atenção redobrada. A queda de imunidade natural do envelhecimento também pode interferir no risco, e as infecções urinárias respondem por 25% das infecções em idosos.

Medicamentos Alguns tipos de drogas, como os imunossupressores --utilizados em doenças autoimunes e em pacientes transplantados -- e uma classe de remédios para diabetes, podem facilitar infecções. 

Aumento da próstata A hiperplasia benigna dificulta o ato de urinar, levando alguns homens a ter infecções urinárias.

Pedra nos rins Alguns tipos de cálculos renais são formados por causa de bactérias que têm uma enzima chamada urease. Essa enzima transforma ureia em amônia e forma um cálculo de fostato-amoníaco-magnesiano -- comum a cerca de 20% dos pacientes que precisam ser operados por causa do problema.

Sondas e cateteres Pacientes internados correm um risco maior por que esses materiais podem facilitar a entrada de bactérias, ainda mais em indivíduos que já estejam mais vulneráveis devido a doenças, cirurgias ou envelhecimento.

Diagnóstico

Em geral, na suspeita de uma infecção urinária, o médico deve pedir um exame de urina e uma cultura de urina para determinar a bactéria envolvida e quais os antibióticos indicados para aquele micro-organismo. Em alguns casos, o médico também pode solicitar exames de imagem, como a cistoscopia (exame endoscópico do trato urinário inferior), ultrassonografia ou tomografia para checar alguma anormalidade nas vias urinárias, bexiga ou rins. 

Principais vilões

A bactéria que causa infecções urinárias com maior frequência (aproximadamente 80% dos casos) é a Escherichia coli (E. coli), que está presente naturalmente no intestino. Na maioria das vezes, essa bactéria causa apenas cistite, mas alguns tipos têm a capacidade de aderir e invadir o trato urinário chegando até os rins. 

Outros organismos que podem estar associados a infecções urinárias são: Klebsiella spp, Pseudomonas spp, Enterococcus spp e Enterobacter spp. A Candida (um fungo, causador da candidíase) e certos vírus também podem ser responsáveis por casos mais raros de infecção, especialmente em pacientes imunodeprimidos. 

Tratamento

A infecção urinária é tratada com antibióticos e analgésicos para aliviar a dor nas vias urinárias. O paciente deve descansar e ingerir bastante líquido. Outras causas menos frequentes de infecção, como vírus ou fungos, podem exigir terapias específicas. É recomendável que, terminado o tratamento, o fim da infecção seja confirmado por um novo exame. 

Nos casos em que a infecção se repete, é fundamental que o urologista seja consultado para investigar as causas por trás do problema. Pode ser necessário instituir um tratamento preventivo, com uso prolongado de antimicrobiano específico para as vias urinárias, por exemplo. Alguns médicos podem sugerir o uso de um tratamento oral que funciona como vacina contra a E. coli, que trouxe resultados positivos em alguns estudos clínicos. 

Uma das novidades, hoje em dia, é o auxílio da fisioterapia para o tratamento de infecções recorrentes em crianças com problemas funcionais, como as que adquiriram um hábito incorreto durante o desfralde, por exemplo, ou que adiam a ida ao banheiro. 

Quando malformações ou obstruções estão por trás das infecções, uma cirurgia de correção do problema pode ser indicada. Em geral, esses procedimentos são pouco invasivos e a recuperação dura cerca de uma semana. 

Bactérias resistentes: um problema crescente

O ideal é sempre tratar a infecção com o antibiótico indicado na cultura de urina. Porém, como o exame demora alguns dias para ficar pronto, é comum que alguns médicos prescrevam antibióticos de amplo espectro --capazes de eliminar diferentes tipos de bactérias --, como a norfloxacina ou a ciprofloxacina.  O uso indiscriminado desses medicamentos tem causado aumento na resistência bacteriana no mundo. Isso torna alguns casos mais difíceis de serem tratados. Embora o uso de antibióticos em animais de abate tenha grande influência no problema, é preciso que as pessoas tomem cuidado também --médicos devem ter cautela ao prescrever os medicamentos e os pacientes, seguir corretamente a prescrição (e não parar de tomar antes do prazo determinado pelo médico, por exemplo). 

Como ajudar quem está com infecção urinária?

  • Ofereça água e sucos com frequência
  • Compressas mornas ou banhos de assento podem diminuir a dor no baixo ventre
  • Não deixe que a pessoa pare de tomar os antibióticos antes do período indicado na prescrição, mesmo que já esteja se sentindo melhor
  • Se a pessoa ainda estiver com sintomas alguns dias depois de iniciar o tratamento com antibióticos, procure o médico
  • Quem tem infecções urinárias de repetição deve ser encaminhado para o urologista para avaliação de possíveis causas e tratamento preventivo

Como prevenir infecções urinárias

- Tome água com frequência A quantidade ideal varia para cada pessoa, por isso uma dica simples é observar se a urina está sempre clara. Se estiver concentrada, é sinal de que é preciso tomar mais líquido. 

- Não espere a vontade apertar A bexiga deve ser esvaziada no mínimo a cada quatro horas; para quem é muito ocupado ou esquece de ir ao banheiro, o alarme do celular pode ser útil.

- Relaxe na hora de fazer xixi Se houver a sensação de que sobrou urina na bexiga, faça uma forcinha. 

- Faça xixi logo após as relações sexuais O jato de urina ajuda a "lavar" as vias urinárias.

- Evite passar muito tempo com roupas íntimas molhadas e prefira peças feitas com tecidos que absorvem o suor, como algodão.

- Use camisinha e faça exames de rotina para afastar o risco de DST. E depois do sexo anal, troque o preservativo caso volte à penetração vaginal. 

- Troque fraldas e absorventes com frequência Isso evita a exposição da uretra a bactérias.

- Ensine as meninas a fazer a higiene íntima sempre de frente para trás.

- Cremes vaginais com estrogênio podem evitar o risco de infecções urinárias nas mulheres durante a menopausa.

- Considere o tratamento da próstata, caso essa seja a causa de infecções recorrentes

Suco de cranberry evita infecção urinária?

Estudos laboratoriais indicam que o cranberry (oxicoco) é rico em uma substância que inibe a aderência de bactérias como a E. coli no trato urinário. Porém, estudos maiores, com mulheres, trazem resultados contraditórios, de modo que a maioria dos médicos não indica a ingestão do suco ou de suplementos como forma de prevenção. De qualquer forma, tomar líquidos sempre ajuda. 

Fontes: Alexandre Danilovic urologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e do Hospital Oswaldo Cruz; Flávio Trigo, urologista e presidente da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia); CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), nos EUA; Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia); Ministério da Saúde.

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