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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gordura demais pode afetar relógio biológico de ratos e levar à obesidade

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

06/10/2021 04h00

Estudo publicado no Journal of Physiology mostra que uma alimentação rica em gorduras pode alterar o relógio biológico de ratos, sendo uma possível causa subjacente para o desenvolvimento de obesidade nesses modelos animais.

Relógio biológico está em várias partes do cérebro e influencia a alimentação

O relógio biológico é um mecanismo natural dos seres vivos, responsável por ajustar os ritmos circadianos (ciclos de 24 horas) e garantir a periodicidade do funcionamento de processos biológicos como a alimentação, o sono e a temperatura corporal.

Cada um de nós apresenta um relógio próprio, de modo que algumas pessoas se sentem mais produtivas pela manhã e outras à noite. E não é novidade que desrespeitar esses ritmos por pressões sociais, como acordar cedo demais, estudar até tarde da noite ou se alimentar na madrugada, pode trazer consequências negativas para a saúde.

Quanto à alimentação, por exemplo, os mamíferos desenvolveram estruturas neurais especializadas que são parte do nosso relógio biológico e promovem a atividade de busca de alimentos, ingestão e saciedade.

Assim, não apenas o que comemos, mas também o horário em que realizamos as refeições pode alterar o funcionamento normal desses mecanismos, levando ao excesso de peso e a outros problemas, como a síndrome metabólica.

Acreditava-se que esse relógio biológico residia em uma única parte do cérebro, chamada hipotálamo, que, vale lembrar, controla a saciedade e a liberação de hormônios sacietógenos como a leptina.

No entanto, pesquisas anteriores sugerem que o controle dos ritmos circadianos está presente em diversas outras áreas do cérebro, incluindo um grupo de neurônios do chamado complexo vagal dorsal, que também atua no controle da ingestão de alimentos ao induzir saciedade.

Porém, os pesquisadores quiseram ir além, pois persistiu a dúvida se os ritmos circadianos nesta área do cérebro são influenciados por uma alimentação com excesso de gordura, vista como um dos fatores que contribuem para a obesidade.

Pesquisando a influência das gorduras nos ritmos circadianos

Diante disso, estudiosos da Universidade Jaguelônica (Cracóvia, Polônia), em colaboração com a Universidade de Bristol (Reino Unido), realizaram uma pesquisa em ratos, usando uma variedade de abordagens eletrofisiológicas e imuno-histoquímicas, monitoramento do peso corporal e ingestão de alimentos para investigar se os ritmos neuronais de uma parte específica do complexo vagal dorsal são afetados por uma alimentação rica em gorduras.

A pesquisa foi realizada com dois grupos de ratos machos. Um desses grupos consumiu uma alimentação equilibrada e o outro uma alimentação com excesso de gordura (70% do valor energético total).

Para imitar o impacto de uma alimentação pouco saudável em humanos, os pesquisadores ofertaram uma nova alimentação aos ratos adolescentes (com 4 semanas de idade) e 3 dias depois passaram a monitorar a ingestão alimentar por 24 horas durante 4 semanas consecutivas.

Os registros eletrofisiológicos, por exemplo, permitiram avaliar como a atividade neuronal do complexo vagal dorsal mudava ao longo do dia.

Excesso de gordura altera relógio biológico de ratos

Entre as descobertas, foi observado que, na obesidade, os ritmos diários de ingestão alimentar e a liberação de hormônios relacionados à alimentação são atenuados ou alterados.

Também percebeu-se que uma alimentação rica em gorduras parece levar a mudanças nos ritmos diários e na resposta dos neurônios do complexo vagal dorsal especializados nos hormônios do apetite antes do ganho de peso.

Ou seja, os ratos alimentados com muita gordura, antes de começarem a ganhar peso, apresentaram mudanças nos ritmos diários e na resposta dos neurônios aos hormônios do apetite.

Por isso, quanto à dúvida se esse mau funcionamento é causa ou consequência da obesidade, a pesquisa mostra que a perturbação dos ritmos circadianos é que levam à obesidade, ao invés de ser o resultado do excesso de peso.

Os pesquisadores relataram que o consumo de curto prazo (3 a 4 semanas) de uma alimentação com excesso de gorduras aumenta a alimentação diurna (lembrando que esses ratos preferem se alimentar no período noturno), acompanhado das alterações neuronais.

Vale lembrar que apesar de o tronco cerebral dos seres humanos e dos ratos estudados compartilharem características comuns, os resultados não podem ser transpostos para a espécie humana, inclusive porque a principal limitação do estudo é ter sido realizado com animais que apresentam fase de repouso no final do dia, uma fase ativa para os seres humanos.

Assim, também é importante investigar se a fase do relógio biológico está ajustada para o dia e noite ou se depende de padrões de repouso e atividade.

No entanto, esses achados também abrem novas oportunidades de pesquisas na tentativa de investigar a influência do relógio biológico na alimentação, bem como buscar um novo olhar sobre obesidade, com soluções que vão além do que se come, incluindo também quando e como se come.

O problema é o excesso de gordura, e não a gordura

Por fim, quero lembrar que mesmo que esses achados fossem confirmados e pudessem ser transpostos para o funcionamento biológico do ser humano, o problema não é a gordura, mas sim o seu consumo excessivo.

Como disse acima, os ratos do experimento receberam uma alimentação com 70% de gordura, enquanto a alimentação controle continha 10% desse nutriente.

Gosto de chamar a atenção para isso, pois é uma tendência demonizar as gorduras e acreditar que elas fazem mal. Elas são "cortadas" do prato e também não desejamos vestígios seus no nosso corpo.

No entanto, as gorduras apresentam diversas funções indispensáveis ao nosso organismo, como fornecer energia, transportar vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), sintetizar hormônios, compor membranas celulares. Sem falar que o tecido adiposo produz hormônios, protege os órgãos contra choques e é um isolante térmico, contribuindo para a manutenção da temperatura corporal.

O problema é que na sociedade em que vivemos existe uma grande oferta de alimentos (a exemplo dos ultraprocessados) com alta densidade calórica e excesso de gorduras que podem estar relacionados ao desenvolvimento da obesidade e de outros problemas de saúde, como as doenças cardiovasculares.

Nesse sentido, devemos apostar em uma alimentação equilibrada, que apresente uma quantidade de gordura moderada, seja parte de um estilo de vida saudável e contribua para a regulação do relógio biológico.

Para isso, é importante estar em paz com a comida e com o corpo, comer mais comida fresca e caseira, cozinhar mais e variar na alimentação, consumindo alimentos de todos os grupos alimentares. Ou seja, você pode comer de tudo (mas não tudo!).

Bon appétit!

Sophie

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL